Endividamento trava consumo e reduz efeito da alta da renda, diz estudo

Por André Martins 7 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Endividamento trava consumo e reduz efeito da alta da renda, diz estudo

O avanço da massa salarial real no Brasil já não se traduz com a mesma intensidade no consumo das famílias, segundo estudo do Departamento de Pesquisa Econômica (DPEc) do banco Daycoval A análise é assinada pelos economistas Rafael Cardoso, Julio Cesar Barros e Antonio Ricciardi.

O levantamento identifica que o principal fator por trás dessa desconexão é o endividamento das famílias, que atingiu patamares historicamente elevados nos últimos esses.

Dados do estudo mostram que quando a relação entre dívida e renda ultrapassa 39,6%, o impacto da massa salarial sobre o consumo cai de 0,29 para 0,17 — uma perda de cerca de 40% de consumo.

A trajetória recente reforça essa dinâmica. O endividamento saiu de 17% da renda em 2005 para quase 50% em 2025, impulsionado principalmente pelo crédito habitacional, que avançou de 2,6% para 18,5% no período, segundo dados do Banco Central.

O comprometimento da renda das famílias para o pagamento de dívidas alcançou 29,33% em janeiro, maior patamar desde o início da série histórica, em 2005.

O tema tem sido colocado como prioridade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em ano eleitoral. É esperado que o Ministério da Fazenda apresente um novo projeto para redução do endividamento.

O patamar crítico estimado pelo modelo foi ultrapassado de forma consistente em 2020, mantendo a economia em regime de alto endividamento desde então.

Nesse ambiente, segundo o estudo, o papel do crédito também se transforma. Em cenários de baixo endividamento, o consumo responde majoritariamente ao crescimento da renda, enquanto o crédito tem efeito estatisticamente irrelevante.

Já no regime elevado, o crédito passa a contribuir positivamente, com impacto estimado em 0,10 ponto percentual, sugerindo que as famílias recorrem ao crédito para sustentar o padrão de consumo.

Crédito sustentou consumo na pandemia, mas efeito se inverteu

O estudo aponta duas fases distintas nos últimos anos. Durante a pandemia e a recuperação subsequente, entre o terceiro trimestre de 2020 e o fim de 2022, o alto endividamento teve efeito positivo.

O canal de crédito compensou a queda da renda e sustentou o consumo, que acumulou desempenho superior ao cenário de baixo endividamento.

A partir de 2023, no entanto, esse movimento se reverteu. Com a desaceleração das concessões de crédito para pessoas físicas, o suporte ao consumo perdeu força, enquanto o elevado comprometimento da renda com dívidas continuou limitando o efeito da massa salarial.

Desde então, o consumo das famílias acumulou 3 pontos percentuais a menos de crescimento ao ano do que teria registrado em um cenário de menor endividamento.

Em 2025, a diferença estimada chega a 3,6 pontos percentuais.

A análise também mostra que modelos tradicionais tendem a superestimar o consumo recente ao ignorar o impacto do endividamento elevado. Já o modelo com mudança de regime acompanha de forma mais precisa a desaceleração observada, ao incorporar a perda de transmissão da renda.

Na leitura dos economistas, o quadro atual indica que, enquanto o endividamento permanecer acima do nível crítico, o crescimento da massa salarial terá efeito limitado sobre o consumo.

Nesse contexto, a desalavancagem das famílias — redução do nível de dívida — passa a ser elemento central para a retomada mais consistente do consumo no país.

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