Enquanto Anhangabaú trava, Ibirapuera testa modelo de concessão
A decisão da Prefeitura de São Paulo de iniciar o processo para encerrar a concessão do Vale do Anhangabaú recolocou no centro do debate um modelo que vem se expandindo nas grandes cidades: a gestão privada de espaços públicos.
Reformado com mais de R$ 100 milhões e concedido em 2021 ao consórcio Viva o Vale, liderado pela WTorre, o espaço se tornou um caso de tensão entre poder público e iniciativa privada. A gestão municipal aponta descumprimentos contratuais ao longo da operação e abriu caminho para a possível caducidade do contrato.
A concessionária contesta. Em nota enviada à EXAME, afirma que a medida é extrema e que o contrato prevê etapas anteriores, como a possibilidade de correção de eventuais falhas e reequilíbrio das condições. “A caducidade constitui medida extrema, que demanda a garantia do contraditório e da ampla defesa”, diz a WTorre.
O impasse expõe um ponto central, que é o fato de que o modelo de concessão ainda está em construção, e seus resultados variam bastante na prática.
A poucos quilômetros dali, outro caso segue trajetória oposta.
Desde 2020, o Parque Ibirapuera é administrado pela Urbia e se consolidou como um dos principais exemplos de concessão considerada bem-sucedida no país, apesar das críticas. O parque recebeu cerca de R$ 350 milhões em investimentos em infraestrutura, restauro, segurança e novos serviços, transformando-se em uma plataforma que combina uso público com geração de receita.
O Ibirapuera como ativo
Inaugurado em 1954, o Ibirapuera sempre ocupou um papel central na dinâmica urbana de São Paulo. Com mais de 1,5 milhão de metros quadrados, ajudou a consolidar a ideia de áreas verdes como parte estruturante da cidade. A concessão não mudou essa centralidade, mas alterou sua lógica de funcionamento.
Hoje, o parque opera também como um ativo econômico. O retorno financeiro vem de eventos, ativações de marca, patrocínios e exploração de serviços, reduzindo a dependência de recursos públicos e criando uma fonte de receita recorrente.
Na prática, o modelo combina fluxo intenso de pessoas com potencial de monetização. Uma equação que, no caso do Ibirapuera, tem se mostrado viável no médio e longo prazo. Esse formato transformou o parque em uma espécie de vitrine para a concessão de espaços públicos no Brasil.
Por trás dessa operação está uma empresa relativamente nova e uma história pessoal que se confunde com a do próprio parque.
A Urbia nasceu como braço da Construcap, grupo tradicional de engenharia fundado em 1944, a partir da leitura de que o mercado de concessões exigiria não apenas construção, mas capacidade de operar ativos no longo prazo. Com apoio de fundos, a empresa passou a disputar projetos de parques urbanos e naturais em todo o país.
O ponto de virada veio em 2019, quando o consórcio venceu o leilão para administrar o Ibirapuera e outros parques da capital paulista por 35 anos. O contrato previa investimentos robustos em troca do direito de exploração comercial — base do modelo que hoje sustenta a operação.
Desde então, a empresa expandiu atuação para ativos como o Parque Nacional do Iguaçu e os parques de Aparados da Serra e Serra Geral, consolidando-se como uma das principais gestoras privadas de parques no país.
À frente da operação está Roberto Capobianco — e, no caso do Ibirapuera, a relação é também pessoal. “O Parque Ibirapuera faz parte da história da minha família. Meu pai já frequentava a região antes mesmo da inauguração, e eu cresci dentro do parque”, afirma.
Ele nasceu em 1955, um ano após a abertura do espaço, e diz que o Ibirapuera sempre esteve presente na sua rotina. “Ao longo da juventude, foi onde eu corria, andava de bicicleta, participava de eventos. Era um espaço central na vida da cidade e na minha também.”
A decisão de entrar na concessão, segundo ele, veio dessa conexão. “Quando surgiu o edital, aquilo despertou imediatamente meu interesse. Era uma oportunidade de contribuir para preservar e desenvolver um patrimônio que sempre fez parte da nossa história.”
A criação da Urbia, nesse sentido, não foi apenas uma aposta de negócio, mas também uma tentativa de transformar vínculo em modelo de gestão.
Onde o modelo tensiona
O avanço desse tipo de gestão, no entanto, não ocorre sem atritos, e o Anhangabaú é o exemplo mais recente disso.
Diferentemente de um parque fechado e estruturado, o Vale é um espaço público aberto, inserido no centro da cidade e com dinâmicas mais complexas de uso, segurança e programação.
A própria WTorre destaca esse ponto ao mencionar os “desafios inerentes ao modelo pioneiro da concessão, especialmente por se tratar de espaço público aberto”.
O tema dos eventos também aparece como ponto de fricção. A concessionária afirma que, desde dezembro, não há programações noturnas por bloqueio imposto pela própria prefeitura, e não por restrição contratual.
A divergência revela um desalinhamento típico desse tipo de contrato: quem define, na prática, o limite entre uso público e exploração econômica do espaço.[/grifar]
Mesmo nos casos considerados bem-sucedidos, como o Ibirapuera, o modelo levanta questionamentos. A ampliação de eventos, a presença de marcas e a oferta crescente de serviços pagos fazem parte da lógica de viabilização econômica do parque. Ao mesmo tempo, alimentam discussões sobre como preservar o caráter público do espaço.
Para os gestores, o desafio é encontrar equilíbrio. A equação passa por garantir investimento e qualidade sem restringir o acesso — um ponto sensível em qualquer concessão desse tipo.
"O modelo de concessão busca justamente qualificar a experiência no Ibirapuera, garantindo que ele permaneça um espaço público, gratuito e diverso. A oferta de serviços e as parcerias com marcas são, hoje, o que viabiliza a manutenção e os investimentos de longo prazo, sem uso de recursos públicos. Atualmente, a operação do parque custa cerca de R$ 100 milhões por ano, valor que cobre desde a segurança patrimonial, limpeza, manejo da flora e paisagismo, insumo dos banheiros", explica Samuel Lloyd, diretor da Urbia.
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