Entre fraldas e amamentação, ela lidera expansão internacional de startup gaúcha

Por Rafael Martini 9 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Entre fraldas e amamentação, ela lidera expansão internacional de startup gaúcha

Para a gaúcha Aline Deparis, 2026 já entrou para o calendário como único. Aos 41 anos, a fundadora e CEO da Privacy Toolsm, de Porto Alegre, vive uma transformação dupla: há pouco mais de 20 dias, deu à luz seu primeiro filho, Antonio, ao mesmo tempo em que lidera a fase mais intensa de crescimento da startup criada por ela em 2019 — hoje uma das principais referências em privacidade e governança de dados no Brasil.

A empresa projeta alcançar um faturamento de R$ 20 milhões nos próximos meses e já se prepara para a internacionalização, marcando um novo ciclo de expansão.

“Tem sido uma loucura bonita”, resume Aline. “As pessoas me perguntam como eu consigo fazer tudo ao mesmo tempo. E eu respondo que nunca toquei tanta coisa ao mesmo tempo na vida, e nunca estive tão realizada.”

A maternidade, nesse contexto, não surge como contraponto à carreira. Pelo contrário: se integra a ela. A chegada do primeiro filho acontece em meio a uma rotina de decisões estratégicas, expansão internacional e amadurecimento de mercado — um cenário que, para Aline, não representa conflito, mas coexistência.

O momento da empresa acompanha uma transformação mais ampla do setor. Com o fortalecimento da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e a entrada em vigor do chamado ECA Digital, aumentou a pressão para que empresas estruturem, de fato, suas práticas de governança de dados.

“O mercado mudou de patamar. Não é mais possível falar de proteção de dados, inteligência artificial ou qualquer nova regulação sem resolver a base: a governança das informações. A privacidade deixou de ser somente uma agenda jurídica e passou a ser uma agenda de negócio”, afirma.

Os números refletem essa virada. Apenas no primeiro trimestre de 2026, a Privacy Tools igualou em novas vendas todo o volume registrado no primeiro semestre do ano anterior. A empresa projeta crescimento de 35% no ano, mantendo uma trajetória consistente após ciclos iniciais de expansão acelerada.

A startup já atendeu mais de 700 organizações, entre grandes empresas e instituições públicas, e avança na estratégia de internacionalização, com operações no Chile e planos de expansão na América Latina. O lançamento recente de um módulo voltado à governança de inteligência artificial reforça o posicionamento da companhia em um mercado cada vez mais estratégico.

Do campo à tecnologia

Quem vê Aline Deparis conduzindo reuniões com executivos de multinacionais talvez não imagine que sua história começou em Viadutos, cidade de pouco mais de 4 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul.

Filha de agricultores, ela cresceu entre plantações e longos trajetos até a escola — seis quilômetros percorridos a cavalo ou de bicicleta, com paradas para colher frutas no caminho. Foi ali que teve o primeiro contato com o empreendedorismo, observando o pai lidar com as incertezas do campo.“Toda vez que ele colhia uma safra ruim, dizia: ‘Ano que vem a gente planta de novo e vai dar tudo certo’. E na área de tecnologia não é muito diferente”, relembra.

A virada veio em 2019, com a aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Nascia ali a Privacy Tools, criada para ajudar empresas a estruturar programas de privacidade e governança de dados. Foi a primeira privacy tech do país — e também um movimento no timing certo.

Desde então, a empresa cresceu em ritmo acelerado: 101% em 2021, 51% em 2022, 51% em 2023, 37% em 2024 e 20% em 2025. Hoje, conta com mais de 60 colaboradores e uma base consolidada de clientes.

Ao longo de quase duas décadas empreendendo em tecnologia — setor onde mulheres ainda são minoria nas cadeiras de liderança — Aline aprendeu a não esperar permissão. A gravidez do primeiro filho não veio como pausa, mas como mais um capítulo de uma trajetória que se recusa a colocar vida pessoal e profissional em caixas separadas.

“Por muito tempo se ouviu que mulheres precisavam escolher: carreira ou família, liderança ou maternidade. Eu não aceito essa divisão”, afirma. “O Antonio chegou em um momento em que a empresa está mais forte do que nunca. E eu também.”

Para Aline, ser mãe e CEO de uma startup em crescimento acelerado não é heroísmo, mas consequência de ter construído uma empresa baseada em time, processo e propósito.“Nenhuma plantação prospera sem cuidado constante. No empreendedorismo, nenhuma empresa cresce sem pessoas que acreditam juntas”, pontua.

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