Entre o rali e a Guerra: as 5 maiores altas do Ibovespa no 1º tri de 2026
Os três primeiros meses de 2026 foram intensos para os investidores do mercado de ações. No Brasil, a bolsa viveu um inesperado rali e chegou a bater 13 recordes de pontuação, graças a um movimento de realocação global que levou bilhões de dólares para os mercados emergentes. Por trás do movimento, o investidor estrangeiro, que fez o fluxo na B3 ficar positivo em cerca de R$ 50 bilhões no período, mais que o dobro do ano passado inteiro. O mesmo que pisou o pé no freio quando mais uma Guerra teve início agora no mês de março.
O embate entre Estados Unidos e Irã comprometeu o apetite ao risco do investidor e reduziu os ganhos que o Ibovespa vinha acumulando ao longo do ano. O índice sobe mais de 13% no ano, mas depois de oito meses seguidos de alta, deve registrar uma queda mensal agora em março.
Na montanha-russa do mercado acionário, as cinco empresas de maior alta do índice no primeiro trimestre tiveram esse desempenho por diferentes motivos. Algumas foram favorecidas pelo próprio contexto da Guerra. Outras, por conta da própria estratégia, em um cenário de juros ainda elevados e que não devem cair tanto quanto o esperado no ano que começou.
Conheça a seguir, as cinco estrelas do conturbado primeiro trimestre de 2026 e as razões que as levaram ao topo no período.
Prio (PRIO3)
A petroleira independente avançou mais de 71% do início do ano até agora. Por trás desse desempenho, está uma combinação de fatores: a valorização do petróleo — impulsionada pelo agravamento dos conflitos no Oriente Médio — e o avanços produtivos.
Em março, a companhia obteve Licença de Operação (LO) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a perfuração de até 14 novos poços no campo de Frade, utilizando a infraestrutura do FPSO Valente. O ativo tem capacidade de processamento de 100 mil barris por dia e armazenamento de até 1,5 milhão de barris. No campo de Wahoo, a empresa já iniciou uma nova etapa do projeto com a abertura do primeiro poço produtor.
A entrada de Wahoo é vista como um dos principais vetores de crescimento da petroleira e pode levar a produção da companhia a cerca de 200 mil barris por dia em 2026, ante aproximadamente 100 mil barris por dia no ano anterior.
O cenário de guerra no Oriente Médio também tem favorecido as petroleiras listadas na bolsa brasileira. Com a alta do petróleo internacional, companhias produtoras e exportadoras como a Prio têm se destacado positivamente e ajudado a limitar perdas do Ibovespa em sessões recentes, funcionando como proteção parcial do índice em momentos de aversão ao risco global.
Na avaliação do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), a companhia se destaca por ter exposição mais direta ao preço do petróleo — sem operações relevantes em gás ou refino e com menor uso de hedge — o que amplia sua sensibilidade à valorização da commodity. O cenário contrasta com o da Petrobras, cuja exposição ao Brent tende a ser parcialmente diluída pela atuação no refino e pela dinâmica de repasse dos combustíveis no mercado doméstico.
Petrobras (PETR3 e PETR4)
No primeiro trimestre de 2026, a Petrobras (PETR3; PETR4) voltou a se consolidar como um dos principais pilares defensivos do Ibovespa, impulsionada pela alta do petróleo, pela geração robusta de caixa e pela manutenção de uma política relevante de remuneração ao acionista. Até o fechamento de ontem, as ações ordinárias PETR3 avançaram 67,79%, enquanto as preferenciais PETR4 subiram 61,74%.
Um dos gatilhos para o desempenho dos papéis foi o anúncio de R$ 8,1 bilhões em dividendos em março, sustentados pelo lucro líquido de R$ 15,6 bilhões registrado no quarto trimestre de 2025. A distribuição ajudou a reduzir incertezas do mercado sobre o equilíbrio entre investimentos e remuneração ao acionista.
O cenário externo também favoreceu a companhia. A escalada do conflito no Oriente Médio manteve o petróleo Brent em patamares elevados ao longo do trimestre, ampliando as margens de exportação e reforçando a geração de caixa da estatal. Como grande parte da produção vem do pré-sal, uma das áreas petrolíferas de menor custo de extração do mundo, a Petrobras preserva competitividade mesmo em ambientes de maior volatilidade global.
Na avaliação do BTG Pactual, a companhia segue entre as principais empresas integradas de energia de mercados emergentes com perfil atrativo para investidores internacionais. O banco revisou o preço-alvo dos ADRs da estatal de US$ 15 para US$ 21 em 12 meses, citando a combinação de ativos competitivos, baixo custo de produção e forte potencial de geração de caixa como fatores centrais para a tese de investimento.
Com o Brent novamente operando acima de US$ 100 em momentos do trimestre, diante dos riscos logísticos no Estreito de Ormuz, empresas exportadoras como a Petrobras voltaram ao centro do radar dos investidores. Em cenários de petróleo elevado, a estatal tende a ampliar margens, fortalecer o fluxo de caixa e preservar capacidade de distribuição de dividendos, fatores esses que reforçam seu papel tradicional como ação defensiva dentro da bolsa brasileira.
Por outro lado, na condição de estatal, a companhia tem limitações em repassar adiante a variação do preço internacional da commodity, o que faz alguns analistas verem a petrolífera com algumas ressalvas em relação a pares globais.
Ultrapar (UGPA3)
No primeiro trimestre de 2026, a Ultrapar (UGPA3) se destacou como uma das maiores surpresas positivas da bolsa brasileira, com valorização de 35,15% até ontem, impulsionada pela melhora operacional consistente em suas principais verticais, especialmente Ipiranga e Ultragaz. O desempenho marcou a transição da companhia de uma tese de reestruturação para uma narrativa centrada em eficiência operacional, ganho de margens e fortalecimento competitivo no setor de distribuição de combustíveis.
Na Ipiranga, os resultados refletiram o foco estratégico na rentabilidade por litro — e não apenas em volume — além de ganhos associados à melhor gestão de estoques em meio à volatilidade dos combustíveis provocada pela escalada do conflito no Oriente Médio. O desempenho operacional também superou as expectativas do mercado: nos resultados do 4T25, divulgados em março, a companhia reportou EBTIDA recorrente de R$ 1,07 bilhão no período, alta de 20% na comparação trimestral e de 26% na base anual, com margem de R$ 165 por metro cúbico — acima das estimativas da XP Investimentos. O avanço no combate ao mercado irregular também contribuiu para sustentar margens e ampliar participação via embandeiramento de postos.
A rede entrou em 2026 combinando crescimento operacional, reforço de posicionamento de marca e negociações em torno de uma possível venda de participação no negócio — movimento que colocou a companhia no radar de investidores estratégicos, incluindo a Chevron. Atualmente, a operação envolve cerca de 6 mil postos no Brasil, além de mais de 7 mil clientes corporativos, com aproximadamente 2 milhões de abastecimentos por dia e receita líquida anual de R$ 127,6 bilhões.
Já a Ultragaz reforçou o perfil defensivo do grupo ao preservar geração de caixa mesmo em um cenário inflacionário e de maior volatilidade energética, enquanto a desalavancagem da holding e a sinalização de maior capacidade de distribuição de proventos em 2026 ampliaram o interesse institucional pelo papel. No 4T25, a companhia reportou EBITDA de R$ 474 milhões, alta de 7% na base anual e em linha com as estimativas do mercado, beneficiada por melhora no mix de vendas, apesar da leve retração nos volumes a granel, indicando resiliência operacional mesmo em um ambiente mais desafiador para o segmento.
Natura (NATU3)
A trajetória da Natura (NATU3) no primeiro trimestre de 2026, com avanço de 28,33%, é marcada por um processo profundo de simplificação corporativa e reorientação estratégica para a América Latina, o que gerou uma reação positiva do mercado em março. A tese de investimento deixou de girar em torno da expansão global e passou a se concentrar na eficiência regional, na captura de ganhos operacionais e na melhora estrutural da rentabilidade.
O principal gatilho para a valorização das ações foi a divulgação dos resultados do 4T25, em 16 de março. Considerando apenas as operações continuadas, a companhia reportou lucro de R$ 186 milhões, revertendo o prejuízo registrado no mesmo período do ano anterior. O EBITDA recorrente somou R$ 978 milhões, com margem de 15,8%, refletindo ganhos relevantes de eficiência operacional e redução de despesas. Embora o resultado consolidado ainda tenha registrado prejuízo líquido de R$ 321 milhões, houve melhora significativa frente às perdas de R$ 438 milhões no ano anterior, o que foi interpretado pelo mercado como sinal de virada operacional.
A reação foi imediata: no pregão seguinte à divulgação do balanço, as ações chegaram a subir mais de 12%, liderando os ganhos do Ibovespa e consolidando a leitura de que o ciclo de reorganização começava a produzir resultados concretos.
Outro fator relevante foi a venda da operação da Avon na Rússia por cerca de R$ 166,3 milhões ao Arnest Group, anunciada em março. Segundo análise do Santander, a transação representa o último passo relevante do processo de simplificação da estrutura internacional herdada da antiga Natura &Co. Somada à venda anterior da Avon International, concluída em janeiro, a operação reforça o reposicionamento estratégico da companhia com foco na América Latina — principal fonte histórica de geração de valor do grupo.
Apesar da melhora operacional, a companhia ainda enfrenta desafios no curto prazo. A receita líquida recuou 12,1%, totalizando R$ 6,2 bilhões, pressionada pela desaceleração no Brasil e pelos efeitos da integração das operações no México e na Argentina, etapa conhecida internamente como “Onda 2”. A marca Avon também segue em processo de reposicionamento de portfólio e inovação, o que ainda limita sua contribuição para os resultados, especialmente no mercado brasileiro, em que seu faturamento de R$ 437 milhões representa ainda representa menos de um quinto do volume da marca Natura (R$ 2,66 bilhões).
Mesmo assim, a conclusão do ciclo de simplificação corporativa mudou a percepção dos investidores sobre a companhia. Com a estrutura internacional mais enxuta e maior foco regional, o mercado passou a direcionar atenção para a execução da estratégia na América Latina, o relançamento da Avon no Brasil e o potencial de retomada da distribuição de dividendos a partir de 2026 e 2027 — fatores que ajudam a explicar a valorização expressiva das ações no início do ano.
Copasa (CSMG3)
Com um avanço de 28,55%, a Copasa (CSMG3) consolidou-se como um dos principais destaques do setor de utilities no primeiro trimestre de 2026, apoiada por uma combinação de segurança regulatória, agenda de privatização e forte geração de caixa.
O principal gatilho recente para a valorização foi a renovação do contrato de concessão com a prefeitura de Belo Horizonte até 2073 — um movimento considerado estrutural para a previsibilidade de receitas da companhia.
A capital mineira responde por cerca de 40% do faturamento da empresa, e o acordo encerrou uma disputa judicial histórica, removendo o maior fator de incerteza regulatória que pesava sobre a tese de investimento. Em contrapartida, a companhia pagará uma outorga de R$ 1,7 bilhão ao município. Com isso, a estatal passou a apresentar um horizonte operacional mais estável e compatível com ciclos longos de investimento típicos do setor.
Outro vetor relevante de valorização foi o avanço do projeto de desestatização conduzido pelo governo de Minas Gerais. Segundo o Santander Brasil, o modelo proposto é semelhante ao adotado pela Sabesp, com realização de oferta secundária de ações (secondary follow-on) e possibilidade de entrada de um investidor estratégico com participação mínima de 30%.
O desenho inclui mecanismos de governança considerados positivos pelo mercado, como limite de 45% no poder de voto por acionista e período de lock-up para o investidor de referência. Para o Banco Safra, as diretrizes aumentam a atratividade do processo e podem ampliar o interesse de potenciais compradores, enquanto o BTG Pactual mantém recomendação de compra para o papel, com preço-alvo de R$ 52 para os próximos 12 meses.
Os números do 4T25 confirmaram melhora consistente na execução operacional da companhia. O lucro líquido trimestral atingiu R$ 337 milhões, alta de 23,9% na comparação anual, enquanto a margem EBITDA avançou para 38,5%, sustentada por controle de custos e crescimento dos volumes de água e esgoto. No acumulado do ano, o lucro chegou a R$ 1,42 bilhão. A receita líquida anual totalizou R$ 7,36 bilhões, crescimento de 5,6%, com expansão simultânea das economias atendidas e redução relevante no índice de perdas de distribuição. Esse conjunto de indicadores reforçou a percepção de que a companhia vem entregando resultados com padrão operacional comparável ao de empresas privadas do setor.
A inclusão da Copasa na carteira teórica do Ibovespa em janeiro de 2026 representou uma mudança estrutural na base de investidores da companhia. A entrada no índice aumentou a liquidez do papel e atraiu fundos passivos e internacionais, ampliando a demanda estrutural pelas ações. Como resultado, a estatal mineira acumulou valorização de 138% nos últimos 12 meses.
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