Essa empresa perdeu fábrica e lojas em enchente; agora projeta faturar R$ 56 milhões com café

Por Guilherme Gonçalves 10 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Essa empresa perdeu fábrica e lojas em enchente; agora projeta faturar R$ 56 milhões com café

Foi em um ano sabático na Califórnia, nos Estados Unidos, que os irmãos gaúchos Clóvis Althaus Júnior e Felipe Althaus descobriram a paixão pelo café. Em 1995, quando foram surfar na costa oeste norte-americana, perceberam o movimento crescente das redes de cafeterias, como a Starbucks.

Ao voltar ao Brasil, abriram um negócio no Mercado Público de Porto Alegre. Vendiam café moído e embalado na hora. A primeira loja da Café do Mercado, com menos de 20 metros quadrados, funciona até hoje. A partir dela, a empresa abriu novas unidades e passou a atuar também como indústria.

Somando todas as operações, a empresa faturou R$ 46,4 milhões em 2025. Foi um ano de recuperação após a enchente que atingiu Porto Alegre em maio de 2024, que alagou lojas e a fábrica da Café do Mercado. Agora, com as unidades reabertas, uma nova loja em funcionamento e reforço no braço de varejo B2B, a empresa projeta R$ 56 milhões em 2026.

"A enchente destruiu tudo que tínhamos", diz Clóvis.

A indústria e duas lojas da empresa ficam a menos de 300 metros do Rio Guaíba, que banha Porto Alegre. Em 2024, o nível da água ultrapassou um muro de 3 metros de altura, construído em 1941 após outra cheia na cidade.

Como a Café do Mercado se reergueu

O prejuízo com a perda de equipamentos na fábrica da Café do Mercado foi de R$ 6 milhões, e nas lojas passou de R$ 600 mil, afirma Clóvis. Parte dos maquinários foi consertada e outra teve que ser substituída.

Enquanto a cidade seguia inundada e depois passava por limpeza, a empresa deixou de faturar por não estar operando. As despesas continuaram: fornecedores, impostos e a folha salarial de mais de 80 funcionários.

Dois meses após a enchente, as lojas do Mercado Público reabriram, ainda com improvisos. A fábrica levou mais tempo para voltar a funcionar. Nesse período, a torra dos grãos passou a ser feita em empresas parceiras de Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

Nos meses seguintes, surgiu outro problema: o aumento do preço do café após quebras de safra no Brasil e no Vietnã, causadas por seca e calor, além da alta da demanda global e dos custos de logística.

Um levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, mostrou que, em fevereiro de 2025, o café atingiu o maior preço em 28 anos, a R$ 2.565,86 por saca de 60 quilos. O valor se refere ao tipo arábica, o mais produzido no Brasil.

"Fomos forçados a subir o preço para o cliente. Hoje, trabalhamos com preços muito mais altos do que um ano e meio atrás. Isso ajudou a consertar parte dos problemas que surgiram”, afirma Clóvis.

Uma nova cafeteria aberta no Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre, ajudou a aumentar a receita da empresa. A operação, que “vai bem”, segundo Clóvis, fica em um espaço que havia sido negociado com a Starbucks. A marca desistiu do ponto em meio à crise financeira da SouthRock Capital, então operadora da marca no Brasil.

"Cafeterias são negócios muito delicados. A margem pode ser boa, mas o tíquete médio é baixo. De modo geral, as cafeterias precisam ser pensadas. Tem que ter pedestre. Não adianta contar apenas com aquele cliente que vai vir de carro ou de transporte. Você precisa de, no mínimo, 200 a 250 clientes por dia", diz Clóvis.

"No Brasil, as redes locais conhecem melhor o ambiente, a região e o hábito das pessoas daquele local. Talvez esse seja o desafio das grandes redes de fora".

Hoje, a Café do Mercado tem dois centros de distribuição: um em Porto Alegre e outro em Florianópolis. A empresa vende para 1,5 mil empresas no Brasil e mais de 150 no Uruguai, entre cafeterias, supermercados e hospitais. Recentemente, assinou contrato para atender o grupo da chef Helena Rizzo, que tem restaurantes em São Paulo.

Como a Café do Mercado começou

Nos primeiros anos, os irmãos compravam grãos de café de uma cooperativa no Paraná, guardavam na casa de uma de suas avós e faziam a torrefação na cidade de Torres, no litoral do Rio Grande do Sul.

“Minha mãe foi a primeira pessoa que conheci que tomava café preto, puro e sem açúcar. Aquilo me chamava atenção, porque na época o Brasil só tinha café ruim. A gente exportava tudo para fora. Não tinha boas cafeterias como hoje”, diz Clóvis.

Depois da loja de cafés moídos na hora no Mercado Público, a primeira cafeteria do Café do Mercado surgiu em 1999, na Travessa Engenheiro Acilino de Carvalho, conhecida como Rua 24 Horas, em Porto Alegre. A operação funcionou por 20 anos, até fechar na pandemia.

“A necessidade de abrir cafeterias veio para testarmos o nosso sistema e replicar com nossos clientes. Chamamos de ‘sistema expresso’, que entra nossa marca de cafés, os produtos e o suporte de treinamento para as cafeterias”, diz Clóvis.

Em 2013, outra cafeteria foi aberta dentro do Mercado Público de Porto Alegre, ampliada em 2015.

Desde 2001, após a compra de uma máquina de torrefação, a empresa passou a atuar como indústria. A primeira fábrica funcionou em uma casa alugada na antiga área industrial de Porto Alegre. Depois de duas mudanças, a empresa chegou ao prédio atual, um imóvel próprio adquirido em 2017 na mesma região, que antes abrigava uma fábrica de gravatas.

Na fábrica da Café do Mercado, são torradas cerca de 40 toneladas de café por mês, com grãos vindos de Minas Gerais, Paraná e Espírito Santo. A empresa trabalha principalmente com torras claras, que destacam o sabor do grão.

“Se o café é bom, não tem porque queimar ele. Isso só serve para mascarar as características do café. É como pegar uma picanha e dissecar ela. Vai acabar com a carne. Quando o grão é ruim, isso é uma forma de neutralizar o gosto. Daí queimam”, afirma Clóvis.

Quais os próximos passos da Café do Mercado

Entre os planos para alcançar os R$ 56 milhões em faturamento está a abertura de mais uma cafeteria no Mercado Público de Porto Alegre e outra em Florianópolis (SC), que será a primeira fora do Rio Grande do Sul. A empresa também negocia com um shopping para abrir mais uma loja na capital gaúcha.

"Serão lojas próprias. Já pensamos em fazer franquias, fomos muito demandados para isso. Mas, como atendemos outras cafeterias, não podemos sair colocando franquias que vão competir com nossos clientes B2B. Como vou colocar uma franquia da minha marca do lado dele?", diz Clóvis.

Contudo, o empresário não descarta essa possibilidade no futuro:

"Em função do fenômeno das franquias no Brasil, estudamos criar uma empresa apenas para abrir franquias com outro nome, que não seja Café do Mercado. Seria uma alternativa para pessoas que querem abrir uma cafeteria com 100% do nosso sistema".

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