Esse diretor de pessoas revela o principal desafio do RH na era da IA: ‘Chegará para todos’
A inteligência artificial deixou de ser uma aposta distante nos departamentos de recursos humanos e entrou na rotina de recrutamento, treinamento, avaliação de desempenho e análise de dados. Mas, para Martin Martorell, diretor de pessoas da fintech colombiana Addi, o debate está sendo conduzido pelo ângulo errado.
O problema, diz ele, não é escolher a melhor ferramenta, mas redesenhar a empresa por completo. “Ser uma empresa AI first não é apenas colocar IA na organização. É redesenhar toda a organização a partir disso”, afirma.
Argentino, psicólogo e com trajetória construída em diferentes países da América Latina, Martorell chegou ao centro desse debate depois de uma carreira que passou por RH, assuntos corporativos, transformação digital e gestão pública.
Viveu experiências em Buenos Aires, São Paulo, Colômbia e Suíça. Alternou posições em empresas e no setor público. Hoje, na Addi há pouco mais de cinco meses, lidera a estratégia de pessoas de uma fintech em expansão regional. Na prática, trabalha ao lado dos fundadores para sustentar o crescimento da companhia na Colômbia e em outros mercados latino-americanos.
Essa trajetória também ajuda a explicar sua leitura sobre as mudanças provocadas pela inteligência artificial no RH. Isso porque Martorell acompanha de perto o tema e vê que a primeira reação de muitas empresas tem sido liberar ferramentas, contratar plataformas e estimular funcionários a testar novas soluções. Para ele, esse movimento é necessário, mas insuficiente. O verdadeiro potencial da IA, afirma, começa quando a companhia revisa seus processos.
Isso significa repensar como as áreas se conectam, quais tarefas fazem sentido, onde há repetição e quais atividades exigem julgamento humano. Em uma fintech, esse movimento tende a ocorrer de forma natural. Ainda assim, Martorell diz que a transformação não ficará restrita a empresas digitais. “Chegará para todos”, diz.
Martin Martorell na formatura do SEER, programa voltado à formação de líderes em ambientes de transformação
Onde a IA já muda o RH
No RH, o recrutamento é uma das frentes mais visíveis. A inteligência artificial já é usada para apoiar triagem de currículos, elaborar descrições de vagas, organizar entrevistas iniciais e cruzar perfis de candidatos com posições abertas.
“Tem um papel fundamental começando por recrutamento, com triagem, descrições de vagas, entrevistas iniciais e a compatibilidade entre candidatos e posições”, diz Martorell.
O alcance, porém, é maior. No onboarding, assistentes virtuais podem responder dúvidas frequentes, orientar novos funcionários e reduzir a carga de tarefas repetitivas das equipes de pessoas. Em performance e feedback, a tecnologia pode ajudar a estruturar avaliações, organizar informações e liberar mais tempo para conversas de qualidade entre líderes e times.
“Você pode usar templates com IA para que as pessoas não percam tempo escrevendo e invistam mais na comunicação real, humana”, exemplifica.
Martorell também vê espaço para a IA em aprendizagem corporativa. Uma das aplicações é fazer com que os profissionais aprendam a construir agentes, fluxos e soluções aplicadas ao próprio trabalho. Nesse modelo, o treinamento deixa de ser apenas conteúdo e passa a envolver prática direta.
Outra frente é a análise preditiva. Para o executivo, o RH ainda explora pouco o potencial dos dados para prever riscos, identificar sinais de desgaste na cultura, prevenir desligamentos e melhorar o ambiente de trabalho. A IA, nesse caso, pode ampliar a capacidade de leitura da organização, desde que os dados estejam bem estruturados e as perguntas sejam relevantes.
O que a tecnologia não substitui
A expansão da IA no RH não elimina a necessidade de julgamento humano. Ao contrário, torna essa capacidade mais importante. Para Martorell, o pensamento crítico será uma das competências centrais da liderança na próxima fase do trabalho. “Pensamento crítico não é substituível”, diz.
O risco, segundo ele, não está apenas em usar mal uma ferramenta. Está em aplicar soluções sofisticadas a problemas mal formulados. Uma empresa pode automatizar processos, ganhar velocidade e produzir análises mais detalhadas. Mas nada disso terá valor se a liderança não souber distinguir o que é essencial do que é acessório.
“Você pode ter uma solução fantástica, mas, se o problema não é relevante, o projeto não faz sentido”, afirma.
Essa leitura redefine o papel do RH. A área deixa de ser apenas executora de políticas internas e passa a atuar como uma das responsáveis pelo desenho do trabalho. Cabe a ela ajudar a empresa a decidir onde automatizar, onde preservar a mediação humana e como preparar profissionais para um ambiente em que tarefas, cargos e competências mudam em ritmo acelerado.
A volta à sala de aula
Foi em meio a essa transformação que Martorell decidiu voltar a estudar. A escolha foi o SEER, da Saint Paul Escola de Negócios, um programa voltado a CEOs, conselheiros e acionistas, com foco em decisões complexas, visão sistêmica e liderança em ambientes de transformação.
Diferente de cursos mais técnicos ou segmentados, o programa se propõe a ampliar o repertório dos executivos a partir de múltiplas disciplinas, como psicologia, neurociência, filosofia e sociologia aplicadas ao mundo dos negócios.
“Não é sempre lá fora que estão as melhores coisas. O Brasil é grande o suficiente para ter uma educação de nível muito alto”, afirma.
Martin Martorell, à esq., na formatura do SEER
Para Martorell, a experiência em sala de aula teve um significado que vai além do conteúdo. Psicólogo de formação, ele encontrou no programa uma espécie de retorno às origens – agora sob uma perspectiva estratégica. “Foi como fechar um ciclo. Muitas das discussões, que para outros alunos eram novas, para mim tinham conexão direta com o que estudei no começo da minha carreira”, diz.
O programa também contribuiu para ampliar sua capacidade de lidar com transformações organizacionais em curso na Addi, especialmente no contexto de uma empresa que busca se estruturar como “AI first”. Ao longo das aulas, Martorell reforçou a importância de enxergar o negócio a partir de uma perspectiva integrada, conectando cultura, estratégia e tecnologia.
O próximo capítulo
Nos próximos anos, o foco de Martorell deve continuar concentrado na interseção entre pessoas, tecnologia e estratégia. À frente da área de pessoas da Addi, o executivo trabalha para consolidar uma organização redesenhada a partir da IA – não apenas com novas ferramentas, mas com novas formas de trabalhar.
A agenda inclui aprofundar o uso de IA em toda a estrutura da empresa, desenvolver modelos de aprendizado mais práticos e fortalecer a capacidade analítica do RH para antecipar riscos e decisões. Mais do que acompanhar a transformação, o objetivo é liderá-la.“Não é um tema de futuro. É o presente.”
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