Esses dispositivos sabem mais sobre seu corpo do que você?
A tecnologia invadiu o setor de bem-estar e todos os anos temos novas versões de dispositivos que parecem cada vez melhores em obter e interpretar dados do nosso organismo. De certa forma, esses aparelhos transformaram como as pessoas acompanham o próprio corpo e, hoje, influenciam diretamente nas decisões do dia a dia, do sono ao exercício, sem se restringir ao registro de dados.
"Curiosamente, estamos agora indo além da observação passiva. Não estamos apenas analisando os dados, estamos criando novos hábitos com base neles", disse Olivia Houghton, da The Future Laboratory. Segundo pesquisa da Pan European, usuários dos chamados wearables passam a adotar, em média, dois novos comportamentos saudáveis, e 87% relatam melhora no sono ou mais frequência de exercícios.
Os smartwatches estão entre os mais populares no Brasil, mas existem outros formatos que estão conquistando o público no exterior — é o caso do anel da Oura e a pulseira Whoop. A Oura é uma empresa finlandesa líder em smart rings para monitoramento de sono, recuperação e saúde. Avaliada em US$ 11 bilhões, a empresa ficou conhecida após o produto aparecer na mão de celebridades como Kim Kardashian e CEOs de tech. Já o Whoop, da Whoop Inc., virou febre ao aparecer no pulso de atletas como Cristiano Ronaldo e Patrick Mahomes.
Na ponta dos dedos: Oura aposta em gestos para o futuro dos wearables (Reprodução/Oura)
O avanço dessas duas empresas acontece num contexto em que o mercado de bem-estar cresce rapidamente, com a ajuda de um empurrão regulatório. O Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, já indicou que não deve impor regras rígidas para esse tipo de tecnologia, o que facilita a expansão do setor.
Existe, no entanto, um efeito colateral do uso desses dispositivos que ainda é pouco falado: a dependência desses dados — e a dúvida sobre até que ponto eles são úteis para orientar decisões e em que momento passam a aumentar a ansiedade, em vez de ajudar no cuidado com a saúde. É o que a jornalista Pamela Paul relatou ao Wall Street Journal.
Quem está no controle?
O apelo desses aparelhos está na promessa de antecipar sinais do corpo. Por meio de sensores e algoritmos, eles conseguem avisar quando sua glicose está alta ou baixa demais, se há risco de pressão alta e, em alguns casos, até monitoram seus hormônios.
Em seu relato, Paul conta que passou a levar o dispositivo a sério depois que ele antecipou um diagnóstico dentro da própria família. Durante uma caminhada, sua cunhada recebeu um alerta no aplicativo e, no dia seguinte, o teste para gripe deu positivo.
O episódio foi suficiente para convencê-la. Pouco depois, ela comprou o anel e passou a usá-lo diariamente. Logo nas primeiras semanas, o dispositivo entregava análises detalhadas sobre o que acontecia em seu corpo.
O dispositivo criado pode um dia ser útil para relógios inteligentes (smartwatches, em inglês) (Alena Butusava/Getty Images)
De início, a experiência parecia funcionar: o aplicativo atribuía pontuações, sugeria ajustes na rotina, reforçava comportamentos com mensagens positivas e fazia com que a jornalista se sentisse cada vez mais "no controle" da situação. Mas não demorou para essa relação começar a mudar.
Em algumas situações, o anel interpretava atividades comuns de forma equivocada. Após tarefas domésticas, por exemplo, o sistema indicava esforço físico intenso. Em outros momentos, classificava eventos cotidianos e até festas como "estresse".
A virada veio quando o dispositivo voltou a emitir um alerta mais sério. Mesmo sem sintomas, a jornalista cancelou compromissos e alterou a rotina por precaução. Dias depois, percebeu que não estava doente. "Era eu que estava usando esse anel, ou era ele que estava me usando?", questionou.
O próprio diretor médico da Oura, Ricky Bloomfield, reconheceu ao jornal que ainda há limitações. Segundo ele, os modelos consideram uma combinação de métricas individuais, mas "ainda não temos todas as respostas" sobre como interpretar esses sinais de forma precisa.
Os limites do autocontrole
Por um lado, os wearables ajudam a acompanhar a saúde. Muitos estudos indicam como os acessórios são importantes para que as pessoas tenham mais consciência dos próprios hábitos.
Por outro, podem gerar o efeito oposto quando usados sem critério. Parte do problema está nos dados: são dispositivos que trabalham com estimativas e padrões, ou seja, dificilmente apresentam resultados concretos. Por isso, nem sempre conseguem diferenciar uma variação normal do corpo de um sinal real de problema.
A cardiologista Lindsey Rosman, da University of North Carolina, relata pacientes que chegam com registros extensos de possíveis arritmias detectadas por smartwatches, muitas vezes sem sintomas.
Em um dos casos analisados em estudo publicado no Cardiovascular Digital Health Journal, uma paciente de 70 anos realizou 916 eletrocardiogramas em um ano sem indicação clínica clara.
"Eles podem ter um efeito indesejado para alguns pacientes", afirmou Rosman. Segundo a pesquisa, leituras comuns — como aumento da frequência cardíaca após exercício — acabam sendo interpretadas como risco, o que leva a um ciclo de checagem constante e mais ansiedade.
Do monitoramento ao consumo
O auge desses dispositivos já passou da saúde. O anel da Oura, por exemplo, virou também um item de estilo. Nos Estados Unidos, usuários têm pago milhares de dólares para personalizar o acessório em joalherias.
A executiva Dawn McKenna contou ao Business Insider que não gostava da aparência do produto. "Sou muito vaidosa. Acho essa coisa tão feia que não consigo usar." A solução foi investir em um revestimento de ouro com diamantes, que custa US$ 6.495.
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