Esta família criou um império de R$ 1,5 bilhão em Santa Catarina com varejo raiz
Que o varejo local é um fenômeno no Brasil, isso já se sabe. Exemplos não faltam, da Lojas Cem, no interior de São Paulo, à Bemol, na Região Norte.
Mas poucas empresas levaram essa tese tão longe quanto a Koerich, varejista de eletromóveis que fatura 1,5 bilhão de reais sem sair de Santa Catarina.
A empresa construiu um império regional com um modelo que parece simples, mas exige execução diária: loja perto de casa, crediário próprio, vendedor que conhece o nome do cliente e uma operação afinada para girar bem dentro de um território limitado. Em vez de disputar o Brasil inteiro, a Koerich decidiu dominar um estado.
Uma decisão um tanto quanto interessante, num momento em que o comércio eletrônico acelerou, marketplaces, plataformas digitais que reúnem vendedores e consumidores, ganharam escala nacional e os juros altos expuseram a fragilidade de redes que dependiam de crédito sem controle fino da operação.
Ao mesmo tempo, Santa Catarina virou um dos estados que mais atraem novos moradores, abrindo espaço para quem já conhece o mapa local melhor do que qualquer concorrente de fora.
“A tecnologia é importante e necessária”, diz Rafael Koerich. “Mas o morador de uma cidadezinha de 15.000 habitantes no interior do estado quer pegar seu carnê, ir à loja, pagar a prestação, descobrir um produto novo e ter a experiência que sempre o satisfez.”
É nessa fronteira entre tradição e adaptação que a Koerich quer crescer nos próximos anos.
A empresa segue abrindo cerca de dez lojas por ano, investe em megalojas, unidades maiores com sortimento ampliado, e tenta digitalizar o crediário sem perder o contato físico que sustenta a marca. A aposta é que ainda há muito espaço para avançar dentro de Santa Catarina antes de pensar em qualquer voo mais longo.
Como a Koerich transformou presença local em escala estadual
A Koerich virou uma referência rara no varejo brasileiro: uma empresa que ganhou escala grande mantendo raio curto.
Hoje, soma mais de 130 lojas espalhadas por Santa Catarina. A unidade mais distante da sede, em Biguaçu, fica a cerca de 280 quilômetros no sentido norte ou sul. No oeste, onde a presença ainda é menor, a distância chega a 430 quilômetros. Esse desenho reduz a complexidade logística, encurta a tomada de decisão e ajuda a manter padrão de operação.
No varejo, isso vale muito. A empresa conhece hábitos de consumo, sazonalidade, perfil de crédito e dinâmica econômica das cidades onde atua. Também opera dentro de uma mesma realidade tributária e cultural, algo que faz diferença num país em que a execução local ainda pesa mais do que muitas apresentações estratégicas.
“Somente 34 das maiores varejistas estão em todos os estados da federação e, mesmo assim, muito concentradas nas capitais e grandes cidades”, diz Alberto Serrentino, responsável por levantamento do instituto Retail Think Tank Brasil. “A situação demográfica, a complexidade logística e tributária e os diferentes estilos de vida nas regiões fazem a execução local se destacar”, afirma.
Qual é a história da Koerich
A história da família Koerich começa muito antes da rede atual. Descendente dos pioneiros alemães que chegaram a São Pedro de Alcântara em 1829, Eugênio Koerich tinha uma fiambreria em São José, na Grande Florianópolis. Nos anos 1960, ao lado dos filhos, abriu atacados e um supermercado na capital catarinense. Em 1964, o negócio foi transformado em uma loja de eletrodomésticos.
Ao longo das décadas seguintes, o sobrenome foi se consolidando no estado. A família esteve por trás do primeiro supermercado e do primeiro shopping center, centro comercial, de Florianópolis. Também se tornou patrocinadora tradicional do Avaí. Mas foi no varejo de eletrodomésticos e móveis que a marca ganhou escala de massa.
Hoje, a Koerich continua sob comando da família. Antônio Koerich preside a empresa. Nas gerações seguintes, nomes como Rafael e Eduardo Koerich assumiram áreas estratégicas ligadas a inovação, pessoas e comercial. É essa combinação entre continuidade familiar e ajuste de operação que ajuda a explicar a fase atual.
As megalojas e a busca por margem num varejo mais apertado
Nos últimos dois anos, a receita da empresa cresceu mais de 25%.
A Koerich também passou a abrir cerca de dez lojas por ano e intensificou a aposta nas megalojas, unidades maiores, com mais categorias e maior potencial de tíquete médio. Já são oito nesse formato.
A lógica é financeira. Com uma operação maior, a empresa consegue vender mais itens por cliente e aumentar a rentabilidade por visita.
“Além de vender o fogão, podemos vender a panela. Além de vender o colchão, podemos vender a roupa de cama”, diz Eduardo Koerich. Cada nova megaloja exige investimento em torno de 5 milhões de reais.
Nessa expansão, entra também a marca própria. A Koerich Casa, linha de decoração, cama, mesa e banho, ajuda a aumentar margem e ampliar sortimento sem depender apenas da revenda de grandes fabricantes. É um movimento cada vez mais comum no varejo, especialmente em categorias de casa e construção.
“Neste ano, produtos com marcas de varejistas devem somar 153 bilhões de reais em vendas no Brasil, um crescimento de 9,2% em relação ao ano anterior”, diz Neide Montesano, presidente da associação de marcas próprias no Brasil. “Vemos aumento de vendas em praticamente todos os canais, mas principalmente em farma, casa e construção e home centers”, afirma.
Para a Koerich, isso não substitui o modelo central do negócio. Funciona como complemento. A empresa amplia o carrinho, protege margem e tenta reduzir dependência de categorias mais pressionadas por concorrência digital.
O e-commerce avança, mas ainda tropeça onde o varejo regional é forte
A Koerich cresceu dentro de um território relativamente protegido, mas essa proteção encolheu. O comércio eletrônico brasileiro faturou cerca de 351 bilhões de reais entre 2023 e 2024, segundo levantamento citado na reportagem. O Mercado Livre sozinho movimentou aproximadamente 138 bilhões de reais no país. O Magazine Luiza somou cerca de 46 bilhões. A Shopee já gira perto de 40 bilhões.
O avanço não está só no volume. Está na infraestrutura. Em 2024, o Mercado Livre investiu 23 bilhões de reais em logística no Brasil, incluindo novos centros de distribuição no Sul. Um deles foi instalado em Governador Celso Ramos, a cerca de 20 quilômetros da sede da Koerich, em Biguaçu. Isso encurta prazo de entrega, melhora eficiência tributária e pressiona categorias de giro rápido, como smartphones, notebooks e eletroportáteis.
No mundo, a pressão é ainda maior. A Ásia lidera o comércio eletrônico global. Na Coreia do Sul, metade das vendas já acontece online. Nos Estados Unidos, esse índice chega a 22,7%. No Brasil, ainda está em 14,5%, mas segue em alta.
Esse cenário aperta as redes regionais por todos os lados. O digital já consegue entregar rápido, parcelar, anunciar com precisão e operar com escala de negociação incomparável. Para empresas como a Koerich, sobra defender os pontos que os gigantes ainda não reproduzem com a mesma qualidade: relacionamento, contexto local e crédito adaptado ao perfil do consumidor.
Como a Koerich atravessou os juros altos com menos dano do que rivais
A Koerich passou pelos últimos ciclos de juros altos com menos sobressaltos do que parte dos concorrentes. A explicação está em duas frentes: controle operacional e desenho de capital.
Desde 2003, a empresa usa um ERP, sistema de gestão empresarial, próprio, desenvolvido internamente para integrar vendas, crédito e operação. O efeito prático é velocidade de leitura do negócio. “Fechamos o DRE no primeiro dia do mês. Se alguma loja começa a sair do rumo, a gente sabe imediatamente”, diz Rafael Koerich.
Essa cultura de controle se estende ao braço financeiro do grupo. A Kredilig, operação de crédito da companhia, tem ativos superiores a 400 milhões de reais e carteira acima de 350 milhões. Em 2024, entregou retorno sobre patrimônio de 18,3%.
O ponto central, segundo a reportagem, é que a financeira não depende do mercado aberto para captar recursos. Ela se apoia nos próprios acionistas e em um patrimônio líquido robusto, equivalente a quase metade do ativo. Isso reduz a vulnerabilidade a choques de custo financeiro e dá mais previsibilidade para a concessão de crédito.
Ao mesmo tempo, a empresa tenta modernizar essa estrutura. A Kredilig passou por transformação digital e virou Kab, plataforma online que permite ao cliente contratar, acompanhar e pagar parcelas pelo ambiente digital. Ou seja: a Koerich tenta manter o carnê, mas quer tirar dele a imagem de processo atrasado.
O laboratório de inovação e a tentativa de modernizar sem descaracterizar o negócio
Grande parte dessas iniciativas nasce dentro do KLab, laboratório de inovação do grupo. É ali que a empresa testa soluções para crédito, pagamentos e experiência de loja. O desafio não é pequeno. A Koerich precisa atualizar sua infraestrutura tecnológica sem dissolver o diferencial que construiu ao longo de décadas.
No papel, isso parece simples. Na prática, exige escolhas delicadas. Uma digitalização mal executada pode afastar o cliente que ainda valoriza o atendimento presencial. Uma operação excessivamente tradicional pode perder produtividade, margem e capacidade de competir. O KLab funciona justamente para reduzir esse risco, testando antes de escalar.
A inteligência artificial também entrou no radar do grupo, especialmente na análise de crédito e em melhorias de processo. Mas a empresa trata o tema sem deslumbramento. A leitura que sai da NRF e volta para Santa Catarina é direta: tecnologia serve para reforçar a operação, não para esconder falha básica.
Esse equilíbrio é uma das apostas mais relevantes da companhia. O varejo regional brasileiro precisa ganhar densidade tecnológica para sobreviver. Mas, no caso da Koerich, isso só fará sentido se vier acompanhado do mesmo café na loja, do mesmo vendedor conhecido e do mesmo entendimento local que sustentou o crescimento até aqui.
Por que Santa Catarina ainda oferece espaço para a próxima fase da Koerich
A vantagem de operar em um único estado poderia sugerir limite de expansão. No caso catarinense, a leitura da empresa é outra. Santa Catarina foi o estado que mais atraiu novos moradores no Brasil entre 2017 e 2022, com saldo migratório superior a 350.000 pessoas, segundo dados do Censo citados na reportagem.
Esse movimento muda o tamanho do mercado consumidor e espalha novas oportunidades pelo estado. Santa Catarina tem polos econômicos fortes além da capital. Joinville e Jaraguá do Sul, no norte, Chapecó, no oeste, e Criciúma, no sul, sustentam renda, emprego e crescimento populacional.
“Como Santa Catarina está se desenvolvendo e crescendo muito, nossa estratégia ainda é consolidar o estado”, diz Eduardo Koerich.
Essa frase resume o plano da companhia. Em vez de correr para outros mercados, a família segue apostando que ainda há muito espaço para ocupar melhor o próprio quintal. Em tese, faz sentido: expansão geográfica exige nova logística, nova leitura tributária, nova marca e nova estrutura de liderança. Consolidar Santa Catarina pode render mais retorno com menos dispersão.
No fundo, a Koerich quer provar que ainda existe escala para quem opera perto do cliente. Num varejo que fala cada vez mais de algoritmos, automação e entregas em horas, a empresa catarinense continua defendendo uma tese antiga: gente entra em loja por preço, prazo e produto, mas volta quando encontra confiança. Para a família, esse continua sendo o melhor negócio do estado.
1/10 (1º lugar: Nvidia (NVDC34))
2/10 (2º lugar: Tesla (TSLA34))
3/10 (3º lugar: Advanced Micro Devices (A1MD34))
4/10 (4º lugar: KLA (K1LA34))
5/10 (5º lugar: Tokyo Electron (TYO: 8035))
6/10 (6º lugar: Pinduoduo (Nasdaq: PDD))
7/10 (7º lugar: Cadence Design Systems (C1DN34))
8/10 (8º lugar: Lam Research (L1RC34))
9/10 (9º lugar: Synopsys (S1NP34))
10/10 (10º lugar: Shopify (S2HO34))
Se você quiser, eu também posso fazer uma segunda versão ainda mais “site EXAME”, com título alternativo, intertítulos mais agressivos e um fechamento mais forte.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: