Esta família quase quebrou plantando batata. Hoje fatura R$ 212 milhões com salgadinhos e congelados
Plantar batata no Brasil é um negócio um tanto quanto desafiador. Em anos bons, enriquece o produtor. Em anos ruins, pode quebrar uma empresa inteira.
Os irmãos Auler, da serra gaúcha, viveram os dois lados antes dos 30 anos. Em 2011, depois de uma safra desastrosa, tiveram que vender propriedades para pagar dívidas. Foi naquele ano, em um congresso do setor, que Diego — o filho do meio — ouviu uma palestra sobre o futuro da industrialização da batata no Brasil. Levou a ideia para casa.
Quinze anos depois, o grupo MDA Alimentos é a terceira maior fábrica de batata congelada do país, atrás apenas da multinacional McCain e da brasileira Bem Brasil.
A companhia, sediada em São Francisco de Paula, a 120 quilômetros de Porto Alegre, fechou 2025 com faturamento de 212 milhões de reais e projeta entre 250 milhões e 300 milhões de reais para 2026. A meta para 2030 é faturar 1 bilhão de reais.
O grupo é tocado pelos três irmãos — Márcio, Diego e Alã, que dão nome à marca — e opera duas frentes industriais: salgadinhos e batata chips, em operação desde o fim de 2017, e batata congelada, que começou a rodar há cerca de um ano e oito meses e já responde por metade da receita.
Em 2024, a companhia abandonou de vez o mercado de batata in natura — o negócio fundador da família, iniciado pelo patriarca Elando Auler em 1999 dentro da Ceasa de Porto Alegre. Hoje, 100% da operação está na indústria.
“Em 2011, a gente passou por uma crise muito forte no setor, inclusive tendo que vender propriedades e áreas para pagar as dívidas que a batata gerou naquele ano”, diz Diego Auler, CEO do grupo. “Foi aquele momento que a gente entendeu que tinha que sair do negócio só da instabilidade. A indústria traz mais estabilidade. Não traz rentabilidade tão alta, mas trazia estabilidade.”
A aposta para os próximos cinco anos passa por ampliar a fábrica de congelados, possivelmente com uma nova unidade fora do Rio Grande do Sul, e avançar em mercados onde a marca ainda não está presente.
A indústria de congelados deve puxar o crescimento, com expansão de capacidade prevista para 2026 e 2027. O grupo também avalia construir uma segunda fábrica fora do Rio Grande do Sul, mais próxima do centro do país, para encurtar a logística até mercados como Minas Gerais — onde estão instaladas as duas concorrentes diretas — e o Nordeste.
Qual é a história do Grupo MDA
A trajetória do MDA começa em 1999, quando Elando Auler montou um ponto de venda de batata na Ceasa de Porto Alegre.
Vindo de uma família de origem alemã, ele plantava em São Francisco de Paula e abastecia supermercados do Rio Grande do Sul. Nos primeiros anos, entre 75% e 80% da produção era de batata de mesa, voltada para o consumo in natura. Uma fatia menor ia para indústrias de fora do estado.
Em 2005, a família perdeu o patriarca. Os filhos assumiram o negócio. Seis anos depois, veio o golpe que mudou a estratégia. A crise de 2011 obrigou os Auler a vender propriedades para honrar dívidas. Foi naquele ano, no congresso de batata, que Diego ouviu a palestra sobre industrialização e levou a ideia para casa.
O projeto da primeira fábrica saiu do papel em 2016. A unidade de salgadinhos e batata chips começou a operar no fim de 2017. A linha de congelados, mais complexa por exigir logística refrigerada, foi inaugurada em 2023.
Além disso, a indústria de batata congelada no Brasil tem uma dinâmica diferente da de salgadinhos. O consumo per capita é maior, a demanda do food service — bares, restaurantes, redes de fast food — é constante, e a oferta nacional não cobre o mercado.
O Brasil importa entre 35% e 40% de toda a batata congelada que consome, vinda principalmente do Egito, da Argentina e da Europa.
“O snacks eu levei oito, dez anos para construir esse faturamento”, afirma Diego. “Na indústria do congelado é muito mais rápido, porque o Brasil é um grande importador de batata congelada e ao mesmo tempo a gente tem um consumo muito alto.”
Hoje, 80% da batata congelada do MDA vai para supermercados e atacados, atendendo o consumidor final. Os outros 20% vão para distribuidores que abastecem food service. A empresa não trabalha diretamente com bares e restaurantes.
A capacidade industrial atual é de 3,5 toneladas por hora de batata congelada e 500 quilos por hora de chips e snacks. A operação roda 24 horas. Mesmo assim, há espaço para crescer dentro da estrutura existente — segundo Diego, uma indústria leva entre três e quatro anos para atingir o pico de produção, e a fábrica de congelados ainda está nesse caminho.
Quais são os desafios no meio do caminho
A maior dor do MDA hoje não está no campo, mas no porto. Com o dólar em queda e a oferta global aquecida, a batata congelada importada chega ao Brasil com preços competitivos, especialmente em estados onde os portos facilitam a entrada do produto.
“Logisticamente tu vai ter batatas chegando pelo porto, um exemplo do Rio de Janeiro, diretamente”, diz Diego. “Fica difícil de competir com uma batata que logisticamente vem direto e cai no porto.”
Até São Paulo, o grupo se mantém competitivo a partir do Rio Grande do Sul. Em Minas Gerais, a competição aperta. Não só pela logística, mas porque é onde estão sediadas Bem Brasil e McCain. O Nordeste, atendido hoje em operações pontuais, depende de uma decisão estratégica: ampliar a fábrica gaúcha ou abrir uma segunda unidade no centro do país.
A diferenciação do MDA na gôndola, segundo Diego, está em ser uma marca brasileira com presença constante. "A nossa maior aposta é ter estabilidade de produtividade na gôndola, a gente estar presente sempre com a nossa marca, sempre com um produto de qualidade.”
Como é o modelo de negócio
O MDA cultiva cerca de 300 hectares de batatas, milho e soja por safra. Toda a produção própria vai para a indústria. Desde 2024, nenhuma batata da empresa é vendida in natura. Para complementar a demanda, o grupo compra de produtores parceiros, com foco em fomentar a cadeia gaúcha.
A janela de produção dentro do Rio Grande do Sul cobre nove meses do ano, distribuída entre regiões como São Francisco de Paula, Bom Jesus, São José dos Ausentes, Cambará do Sul, Vacaria, Ibiraiaras, Lagoa Vermelha e Muliterno. Nos três a quatro meses restantes, a empresa busca matéria-prima no Paraná e em São Paulo. A capacidade da indústria absorve até 1.200 hectares por ano.
“É uma necessidade hoje também do próprio produtor gaúcho, porque é o que a gente viveu em 2011, o produtor também vive, que é a instabilidade dos preços”, afirma Diego. “O setor está a dois anos vendendo batata abaixo do custo de produção no mercado de batata fresca.”
Para o produtor que fecha contrato com a indústria, a equação muda. A rentabilidade é menor que a da batata in natura em anos bons, mas a estabilidade compensa em anos ruins.
Qual é a estrutura e os próximos passos
O grupo opera com 479 funcionários diretos. Além da fábrica e das plantações em São Francisco de Paula, mantém centros de distribuição em Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul, onde fica o escritório administrativo, e uma unidade de distribuição em Tubarão, em Santa Catarina. A frota própria tem mais de 110 veículos.
No portfólio, além das batatas chips, pré-fritas e congeladas, estão as marcas Deutschips, Sense e Batataria, e a vodka de batata IchBin. A empresa também atua no segmento de private label, fabricando para outras marcas.
A meta de 1 bilhão de reais até 2030 depende de três frentes: ampliar a capacidade da fábrica de congelados, abrir mercado em estados onde o MDA ainda não tem presença consolidada — Minas Gerais, Rio de Janeiro e Nordeste — e avançar na exportação. Hoje, o grupo já vende para Uruguai e Cabo Verde, e estuda entradas em outros países da América, África, Oriente Médio e Ásia.
“O nosso crescimento nos últimos anos é resultado de um modelo de negócio sólido e consistente, com uma estratégia focada em eficiência, verticalização e gestão de longo prazo”, diz Diego. “É fruto também da combinação entre tradição, controle do processo produtivo e inovação.”
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