Esta gigante francesa tem 350 mil vagas de estacionamento no Brasil — agora quer os estádios
Os estádios brasileiros deixaram de ser apenas palco para 90 minutos de jogo. Apenas as receitas de bilheteria e operação dos principais clubes do país superaram 1,6 bilhão de reais em 2024, segundo o Relatório Convocados, da Galápagos Capital.
Somado a isso, o mercado de eventos — shows, festivais, atrações culturais — movimenta cerca de 75 bilhões de reais por ano no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape).
O estacionamento, antes tratado como serviço acessório, virou peça relevante dessa nova equação.
A Indigo, multinacional francesa de gestão de estacionamentos com mais de 350 mil vagas no Brasil e faturamento de 1,7 bilhão de reais no último ano, está de olho nisso.
Reconhecida por operar áreas em shoppings, aeroportos, parques e centros comerciais, a empresa abriu uma nova frente de crescimento: as arenas esportivas. A operação brasileira é a terceira maior do grupo no mundo, atrás de França e Espanha.
A Indigo fechou contratos para operar os estacionamentos do Mineirão, em Belo Horizonte, e do Serra Dourada, em Goiânia. Os dois ativos se somam à Neo Química Arena, do Corinthians, no portfólio desde 2018. Juntos, somam mais de 11.000 vagas.
No Mineirão, a empresa estreia um modelo inédito no Brasil: operação 100% digital, sem recebimento de dinheiro em espécie no local. Mais de 92% dos visitantes do estacionamento em dias de jogo já chegam com vaga reservada pelo aplicativo.
"Arenas que concentram futebol, shows e grandes eventos deixaram de tratar o estacionamento como um serviço acessório e passaram a incorporá-lo como parte relevante do modelo de receita", afirma Thiago Piovesan, CEO da Indigo no Brasil.
Para 2026, a meta da empresa é chegar a 2 bilhões de reais em faturamento no Brasil. A aposta em arenas se conecta a uma frente comercial dedicada, com representantes de desenvolvimento de vendas focados na prospecção desse tipo de ativo. Outras conversas estão em andamento, condicionadas aos prazos contratuais das concessões existentes.
Da Neo Química ao Mineirão
O contrato com a Neo Química Arena, assinado em 2018, foi o laboratório da Indigo no segmento.
A operação original era limitada: em dia de jogo, o estacionamento central, acessado pela rodovia, tinha o fluxo de pedestres do metrô passando à frente dos veículos, o que travava o acesso. A pandemia abriu espaço para uma reformulação. A empresa construiu uma passagem alternativa e refez o desenho de fluxo da arena.
"Se a gente pegar faturamento do primeiro ano com faturamento de hoje, ele já é um outro patamar, é uma outra realidade", diz Piovesan.
Foi essa experiência que abriu portas para os contratos recentes.
No Serra Dourada, a Indigo entrou desde o início do projeto de concessão, junto com a empresa vencedora, para desenhar a operação a partir do zero. No Mineirão, assumiu uma operação madura, em substituição ao concessionário anterior.
A tese das arenas multiuso
A lógica por trás da aposta tem nome: arenas multiuso. O conceito traduz a transformação dos estádios em espaços que recebem diferentes públicos, em diferentes dias, por diferentes motivos.
Um show de um festival musical tem perfil de permanência diferente de uma partida de futebol. Um evento corporativo tem fluxo distinto de um festival gastronômico. Cada formato exige uma resposta diferente do estacionamento em capacidade, em tarifa, em experiência.
"A gente precisa ter vários estacionamentos dentro do mesmo estacionamento, de diferentes modelos ao longo da jornada", diz Piovesan.
A solução passa por uma ferramenta de tarifação dinâmica que a empresa já roda em aeroportos. O sistema lê variáveis como sazonalidade, previsão do tempo, preço de aplicativo, eventos na cidade e tempo médio de permanência.
A partir daí, sugere ajustes de precificação e de configuração da operação. Em aeroportos, a aplicação rendeu aumento de 10% a 15% na receita das operações onde foi implementada. Agora, a ferramenta começa a ser adaptada para o universo das arenas.
O modelo 100% digital do Mineirão é o ponto mais avançado dessa transição. A reserva antecipada pelo aplicativo permite à empresa dimensionar a operação antes do evento: quantos funcionários alocar, quantas vagas liberar, quais áreas priorizar.
Também elimina o atrito de filas em guichês de entrada e saída.
Mas a aposta digital tem outra função, menos visível: gerar dados. A recorrência do usuário, o trajeto, o tempo de permanência, a preferência por determinada área. Tudo isso vira insumo para personalizar a oferta.
A empresa estuda, por exemplo, criar áreas premium customizadas, com box exclusivo, identificação do torcedor, acesso direto à arquibancada, em estádios onde a demanda existe.
"Eu tenho 95% do público com toda essa riqueza de comportamento. Quando começarem a ter eventos ou algumas outras coisas de uso diferencial da arena, eu já tenho uma base de informação que vai me ajudar a ser muito mais preciso", afirma Piovesan.
A expansão tem ritmo próprio. Boa parte das arenas brasileiras tem contratos de concessão em vigor com outros operadores, o que limita o avanço imediato da Indigo. A empresa aposta na entrada em projetos de reformulação ou em novas concessões, como foi o caso do Serra Dourada.
Há também um obstáculo de base cultural. Mesmo com a tecnologia de gestão remota disponível, o Brasil ainda não opera com o mesmo nível de automação dos mercados maduros.
"A gente tem tecnologia igualzinha à que se tem lá fora para fazer gestão remota ou praticamente sem funcionários. No Brasil, o problema é que a gente ainda não tá com um desenho social, cultural, enfim, estruturado para dar essa guinada", diz Piovesan.
Dos 10.000 funcionários do grupo no mundo, 5.000 estão no Brasil.
A meta de 2 bilhões de reais em 2026 depende, em parte, da capacidade de a empresa transformar essa frente de arenas em receita recorrente. O grupo Indigo, no mundo, faturou 1 bilhão de euros no último ano, com margem de Ebitda de 500 milhões de euros e investimentos anuais de 200 milhões de euros.
O Brasil é hoje o segundo país em volume de capital alocado, atrás apenas da França.
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