Esta rede de academias fatura R$ 448 milhões indo para cidades que as gigantes ignoram

Por Daniel Giussani 16 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Esta rede de academias fatura R$ 448 milhões indo para cidades que as gigantes ignoram

Garanhuns, no agreste pernambucano. Serra Talhada, no sertão. Petrolina, no Vale do São Francisco. Santa Cruz do Capibaribe, também no agreste. Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife. São cidades de 60 mil a 150 mil habitantes que raramente entram no radar das grandes redes de academia do país.

Em todas elas, a Selfit Academias opera há pelo menos um ciclo de expansão e fatura.

A rede, fundada em 2012 pelos pernambucanos Nelson Lins e Leonardo Pereira, fechou 2025 com receita de 448 milhões de reais, alta de 36% sobre 2024 e crescimento acumulado de quase 160% em três anos. Em 2022, o faturamento era de 173 milhões de reais.

A operação chegou a 183 unidades, entre lojas próprias e franquias, com mais de 80% concentradas no Nordeste.

A próxima meta é chegar a 250 academias até dezembro de 2026. Para isso, a Selfit acelera aberturas em municípios pequenos e médios do Norte e Nordeste, regiões onde a penetração de academias está muito abaixo da média nacional.

Enquanto as capitais do Sudeste ultrapassam 10% da população matriculada, a média brasileira gira em torno de 7%, e o Norte e Nordeste ficam abaixo desse patamar. A aposta, que parece contraintuitiva para um setor acostumado a brigar pelos grandes centros, virou o motor de crescimento da empresa.

"Tô lá com 93% das pessoas no Brasil ainda sentadas no sofá. Meu desafio é que, quando a oferta chega, eu tenho certeza que a demanda está lá", diz Fernando Menezes, CEO da Selfit.

O plano para 2026 prevê 50 franquias e 200 lojas próprias.

Qual é a história da Selfit

A Selfit começou em 2012, em Salvador, com uma única unidade.

Os fundadores, ambos pernambucanos, queriam replicar no Nordeste um modelo que começava a se consolidar no Sudeste com redes como a Smart Fit: academias amplas, climatizadas, com equipamentos de marcas internacionais e mensalidade compatível com a renda local.

O conceito, conhecido no setor como high value low price, ou alto valor a preço baixo, propõe oferecer infraestrutura de academia premium a um terço do preço.

A operação ficou com uma loja por cerca de um ano e cresceu devagar nos anos seguintes, com capital próprio e de familiares. Em 2015, quando estava na quarta unidade, a Selfit recebeu o aporte do fundo de private equity H.I.G. Capital, com sede em Miami.

O dinheiro acelerou a expansão. Antes da pandemia, a rede já operava mais de 60 academias.

A crise sanitária travou o plano. Entre 2020 e o início de 2022, a Selfit praticamente manteve o tamanho. A retomada veio com uma decisão estratégica: começar a franquear. "Em 2022 a gente tinha um negócio muito novo para a gente, abrimos poucas franquias para aprender. A partir de 2023, decidimos acelerar", diz Menezes.

A matemática só fecha porque o modelo não depende de ticket médio, e sim de volume. Quanto mais gente paga, mais a unidade dilui custos fixos.

A consequência é uma operação cheia, muitas vezes acima da capacidade nominal. Quando isso acontece, a resposta da Selfit é abrir outra unidade no mesmo entorno, em alguns casos a 100 ou 200 metros da primeira. "As pessoas falam que sou maluco, como é que você abre uma academia aqui e já vai abrir outra do outro lado da rua. Eu tenho demanda comprovada de que naquela região eu preciso de mais de uma", afirma o CEO.

O investimento médio para abrir uma loja gira entre 3,5 milhões e 4 milhões de reais. Boa parte vai para máquinas. A Selfit trabalha com fornecedores internacionais como Nautilus, Matrix e Life Fitness, marcas usadas por redes globais como Crunch, nos Estados Unidos, e Basic-Fit, na Europa. A compra é feita já nacionalizada, o que reduz a exposição ao câmbio.

A franquia como atalho para o interior

A entrada no modelo de franquias mudou o ritmo da expansão. Em 2023, a rede tinha 13 franquias e 78 lojas próprias. Em 2024, foram 23 franquias e 107 próprias. Em 2025, a Selfit fechou com 37 franquias e 146 unidades próprias, somando 183 academias. Em Pernambuco, estado que o CEO chama de "cozinha" da operação, a rede chegou a 48 unidades em 2025, presente em praticamente todas as cidades acima de 60 mil habitantes.

A lógica da franquia é simples: para chegar em cidades pequenas, fora dos grandes adensamentos urbanos, o capital próprio limitaria o ritmo.

Com o franqueado local, que conhece o mercado e assume parte do risco, a Selfit ganha velocidade. "A franquia veio para complementar nossa estratégia. Vou alcançar cidades menores com franquias nesse curto prazo, porque o Brasil ainda é muito fragmentado", diz Menezes.

A estratégia também serve como teste de mercado. Quando uma franquia em cidade pequena entrega retorno semelhante ao de uma unidade em capital, a rede confirma o potencial daquele recorte e replica o modelo em municípios parecidos.

Os desafios pela frente

Apesar da expansão, a Selfit ainda concentra mais de 80% da operação no Nordeste. O cálculo é que ainda há muito espaço no próprio território onde a rede já opera. As capitais do Norte e Nordeste, segundo Menezes, têm penetração de academias bem abaixo de São Paulo e Rio de Janeiro, onde o índice supera 10% da população.

O maior obstáculo, diz o CEO, não é a concorrência. É o sedentarismo. Convencer alguém que nunca pisou em uma academia a pagar uma mensalidade depende mais de oferta de qualidade e proximidade do que de marketing. "Existe muita academia de bairro precária, muitas vezes mais cara que a nossa, que não motiva as pessoas a sair do sofá", afirma.

O segundo desafio é manter a percepção de valor com a operação cheia. A Selfit persegue um NPS, métrica que mede a satisfação do cliente, acima de 70 pontos, considerado alto para o setor de serviços. Quando o índice cai em alguma unidade, é sinal de que a academia operou acima do limite e que outra precisa ser aberta perto.

A meta de 250 unidades em 2026 representa um salto de 37% sobre o número atual, em linha com o ritmo dos últimos dois anos. O plano também inclui levar o número de franquias de 37 para 50, o que pressupõe acelerar a captação de franqueados em cidades médias do Norte e Nordeste.

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