Estapar volta ao azul, fatura R$ 1,9 bilhão e aposta em assinatura para crescer

Por Daniel Giussani 27 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Estapar volta ao azul, fatura R$ 1,9 bilhão e aposta em assinatura para crescer

O motorista paulistano que entra no aplicativo da Estapar para pagar a zona azul vai encontrar, em breve, uma nova opção: assinar um plano mensal e estacionar em qualquer uma das 840 operações da rede sem precisar pagar na hora.

O Zul+ Pass, ainda em fase de testes, é a aposta da companhia para travar o motorista dentro do ecossistema digital que já responde por um em cada quatro reais do faturamento.

A Estapar é hoje a maior operadora de estacionamentos do Brasil e da América Latina, com 840 operações em 115 cidades, 21 estados e cerca de 7.000 funcionários.

A empresa faz a gestão da Zona Azul de São Paulo e de outras 19 cidades, opera os estacionamentos dos principais aeroportos do país — incluindo Congonhas, Viracopos, Galeão, Fortaleza e Belém — e tem contratos com arenas como a MRV, em Belo Horizonte, shoppings como o Center Norte, em São Paulo, e prédios corporativos do Bradesco, Santander e BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).

Em 2025, faturou 1,9 bilhão de reais, alta de 18,2% sobre 2024. A empresa também teve um lucro líquido de 14,1 milhões de reais em 2025, revertendo um prejuízo de 8,7 milhões de reais em 2024 — e manteve o resultado positivo no início deste ano, com lucro de 3,6 milhões de reais no primeiro trimestre.

Para o presidente Emílio Sanches, à frente da empresa desde o fim de 2022, a virada é consequência de uma decisão tomada anos antes: deixar de ser uma empresa só de estacionamento.

"É fácil falar da Estapar, porque todos associam ao estacionamento, e ao mesmo tempo a gente fala o que fazemos além disso", afirma Sanches. "A gente saiu daquele mundo físico, começou a ir para produtos digitais."

A plataforma digital — composta pelo aplicativo Zul+, pelo Zona Azul de São Paulo e pelo site — respondeu por 25,3% da receita total no primeiro trimestre de 2026. Em março, o Zul+ tinha 9,3 milhões de usuários cadastrados e 2,7 milhões de usuários ativos por mês.

O próximo passo é justamente o plano de assinatura. "Vai ser o Zul+ Pass. A gente quer começar, devemos lançar agora nos próximos dois meses, vamos começar a testar os passes", diz Sanches.

A ideia é dar ao assinante acesso a um conjunto de serviços e à entrada e saída automática em qualquer operação da Estapar.

Hoje, os mensalistas — que pagam um valor fixo para usar uma vaga em prédios comerciais e residenciais — representam entre 10% e 12% da receita total. A aposta é ampliar essa fatia de recorrência.

"Pode não dar certo, mas vamos testar. Estamos animados aqui com isso", afirma.

Qual é a história da Estapar

A Estapar nasceu em 1981, em Curitiba, fundada por dois irmãos que tinham sido executivos de uma empresa de estacionamento que fechou as portas.

Um deles montou a Estapar — sigla para Estacionamento do Paraná — e o outro abriu a Rio Park, no Rio de Janeiro. As duas operações acabaram se unindo sob a marca Estapar e migraram para São Paulo, onde a empresa cresceu rápido.

Em 2009, o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) comprou 50% da companhia, que tinha cerca de 300 operações na época. Em 2020, fez a oferta pública inicial na B3, sob o código ALPK3.

Sanches entrou na empresa no fim de 2010 como diretor financeiro, vindo do setor de comunicação — passou dez anos no SBT, cinco na DirecTV e mais cinco em uma produtora. Em dezembro de 2022, foi promovido a CEO.

Como a Estapar virou autotech

A aposta na digitalização começou em 2022, quando a empresa adquiriu a operação que viria a se tornar o Zul+. A integração foi concluída em 2023.

Hoje, o aplicativo funciona como uma espécie de marketplace para o motorista: paga zona azul, faz reserva de vaga em aeroporto ou arena, contrata seguro auto, financia débitos veiculares em até 12 vezes, paga multas, contrata consórcio e empréstimo, compra tag de pedágio e usa pontos de recarga para carros elétricos.

Os parceiros estão por trás de cada serviço. O seguro é vendido por uma corretora da Estapar, com a Porto Seguro como uma das seguradoras — uma parceria comercial que já passa de 30 anos. O empréstimo é do Banco Pan. A tag é a Zul+, em parceria com a ConectCar — em março, a empresa tinha 198.400 tags ativas, alta de 35,4% em um ano.

"O que a gente quer é cada vez mais oferecer mais benefícios para o cliente", afirma Sanches. "Vai ser aquele negócio que você vai começar a falar para o seu irmão, para o seu amigo: 'Contratei aqui, tem essa vantagem'."

A Zletric, investida da Estapar no setor de recarga de veículos elétricos, encerrou o primeiro trimestre de 2026 com 1.396 estações em 85 cidades de 14 estados, incluindo 41 pontos de recarga rápida. A Estapar tem 59% da operação.

"Tecnologia, digitalização e eletrificação", diz Sanches. "Hoje a Zletric é uma das maiores do Brasil de carregadores, graças a eles e ao nosso impulso aqui."

Tecnologia para destravar prédios pequenos

A digitalização também mudou a equação dos estacionamentos físicos.

Antes, prédios menores eram inviáveis para a Estapar porque o custo de manter funcionários — caixa, supervisão, manutenção — comia a receita. Hoje, com leitura automática de placa, o motorista entra e sai sem precisar interagir com ninguém.

"Antigamente era um prédio pequeno que faturava pouco e tinha dois, três funcionários. Hoje eu não preciso mais", afirma Sanches. "Você põe a tecnologia lá, lê a placa, o cara sai. O estacionamento que era um custo passou a ser uma receita."

Esse modelo, que a empresa chama de asset light, permitiu acelerar a expansão. No primeiro trimestre de 2026, a Estapar inaugurou 19 operações — incluindo os aeroportos de Fortaleza e Belém, o shopping Itaboraí, no Rio de Janeiro, e o estacionamento do prédio do Bradesco na Cidade de Deus, em Osasco.

Em 2025 inteiro, foram 107 inaugurações, 30,5% acima de 2024. O churn — taxa de saída de operações — fechou o primeiro trimestre em 0,22%.

A inteligência de dados também sustenta uma operação de preços dinâmicos, em que o valor do estacionamento varia conforme demanda, dia da semana e tipo de evento.

"A gente tem a previsão de tudo que vai acontecer no ano inteiro" no Allianz Parque, em São Paulo, diz Sanches. "Sabemos se vai chover, se vai ter show. Se é um show infantil, a demanda é maior. Se é Bocelli, o público é mais qualificado, vai de carro, o preço acompanha. Um jogo de Palmeiras contra um time da Série B do Paulista é outro ticket."

Atualmente, 95% dos preços dinâmicos são aplicados em reservas antecipadas, feitas pelo aplicativo. Na operação física, a empresa adota o modelo apenas quando o contratante autoriza.

Os planos da Estapar

Sanches define quatro frentes de crescimento. A primeira é o estacionamento tradicional, o chamado off-street, com cerca de cem novas operações abertas por ano.

A segunda são as zonas azuis — hoje, dos 5.000 municípios brasileiros, apenas 300 cobram pelo estacionamento na rua, e a Estapar opera em 20 cidades. A terceira são os produtos digitais — tag, débitos veiculares, seguros, consórcio. A quarta é a monetização do ecossistema, que inclui justamente o Zul+ Pass.

A ambição declarada é dobrar de tamanho.

"A brincadeira que eu fiz aqui quando me perguntaram qual é o nosso objetivo é dobrar a empresa", diz Sanches. "Tem espaço, tem mercado, tem pessoas, tem competência, tem tecnologia." A empresa não dá projeção formal ao mercado, mas o presidente diz esperar manter o ritmo recente de expansão. "A gente tem crescido quase 20% todo ano. Esperamos continuar nesse crescimento de 15%, 20%."

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