Este funkeiro assinou contrato de R$ 20 milhões para levar seus hits aos EUA
O funk brasileiro se tornou um fenômeno nas redes sociais nos últimos três anos, com direito a um nome em inglês para acompanhar: brazilian phonk. Desde o hit de Bibi Babydoll, "Automotivo Bibi Fogosa", que alcançou o topo das paradas na Ucrânia e o Top 10 em Belarus e Cazaquistão, até a carreira internacional consolidada de Anitta, o ritmo está na "eminência de um boom global", nas palavras da The Economist.
Neste mês, um dos nomes de força no funk paulistano, Alessandro Venâncio da Silva, conhecido como MC Lele JP, fechou um contrato de US$ 4 milhões (R$ 19,77 milhões na cotação base) com a Vydia, empresa de mídia norte-americana que conta com Usher, Snoop Dogg e Mariah Carey no portfólio.
No horizonte, o músico acredita que há uma oportunidade concreta para a internacionalização do gênero. "Eu vejo que já tem uma sementinha lá. Quem sabe a gente seja um desses da linha de frente para representar nosso movimento lá fora", afirma à EXAME.
"A Vydia hoje está querendo ingressar no território brasileiro. A gente acredita que ela vai levar a gente com o pé mais firme pro exterior, vai ajudar a levar essa cultura periférica do funk para fora", diz à EXAME Guilherme Sérgio Ramos de Souza, conhecido como MC IG e responsável por conduzir a negociação do contrato.
O contrato com a Vydia
Financeiramente, o contrato de US$ 4 milhões funciona como uma licença do catálogo de MC Lele JP à Vydia. Em troca, a norte-americana oferece apoio logístico e tecnológico para a Gringos World, empresa de MC IG responsável por agenciar Lele.
Como garantia do negócio, a empresa adquiriu, por dois anos, os direitos do álbum "O Poderoso Chatão", que já acumula mais de 14 milhões de streams. Além disso, entram no pacote outras 31 faixas de MC Lele JP, totalizando 51 músicas.
Na prática, a Vydia ficará responsável por criar e gerenciar a página do artista na Vevo, plataforma de vídeos para a qual, segundo Polonia, nenhum outro distribuidor independente consegue acesso. Ela também cuidará da entrega do conteúdo musical às plataformas de streaming, como Spotify e Apple Music, no formato exigido por cada uma, o que é determinante para o posicionamento nas playlists curadas dos apps.
Além disso, a Vydia poderá produzir vídeos curtos para o TikTok e resolver toda a parte operacional dos lançamentos: ajustes de áudio, correções das capas e prazos de entrega. "São todas aquelas coisas intangíveis que não são a parte glamourosa da música, mas nas quais somos muito bons", diz Frank Polonia, vice-presidente da Vydia, à EXAME.
Os US$ 4 milhões não chegaram de uma vez. MC IG confirma que US$ 2,5 milhões já foram recebidos, e os US$ 1,5 milhão restantes serão pagos após a entrega completa do catálogo acordado.
"Esses 4 milhões entram para a gente custear marketing, produção e pagar os outros artistas que possam contribuir na música. É uma negociação que sai um pouco do padrão, porque geralmente fica uma parcela desse dinheiro dentro da Vydia para fazer esse repasse para os artistas. Esse valor veio em totalidade para a gente", explica MC IG.
Parte do capital já foi recebido, US$ 2,5 milhões, e o restante será liberado após a entrega completa das 17 faixas do novo álbum. O contrato também abre as portas da Gamma, empresa de mídia fundada por Larry Jackson, ex-diretor criativo da Apple Music, que foi adquirida pela Vydia em 2023 e atende nomes como Kanye West e Usher.
O retorno financeiro para a Vydia virá do streaming, de acordo com Polonia. "Poderíamos ter pago o dobro ou o triplo do valor, mas aí seríamos donos do artista, precisaríamos de parte dos shows, do merchandise e da publicidade. Não é o que fazemos."
A negociação foi conduzida pessoalmente por MC IG, que viajou aos Estados Unidos para fechar o acordo diretamente com Polonia por meio da empresa Gringos World. A conexão de IG com o mercado norte-americano vem sendo construída há alguns anos por meio de conversas com estruturas como a Roc Nation. Nos bastidores, o empresário e funkeiro conta que a naturalidade com que conduziu a negociação surpreendeu até a ele mesmo.
Negociação nos EUA: MC IG encontrou Frank Polonia para fechar o contrato entre Vydia e Gringos World (Gringos World/Divulgação)
"Eu estava lá visitando os donos da empresa. Tenho muito amigo que mora fora, nos Estados Unidos, mas muitos não têm nem documento. A gente conseguir estar lá e, além disso, fazer negócios e trazê-los para cá, para mim, é muito fora da curva. A gente olhava e dizia: 'Olha, o American Dream aí'", conta ele à EXAME.
Por que MC Lele JP?
Em uma cena musical com tantos casos de sucesso quanto o funk paulistano, nomes como MC Hariel, MC Livinho, Kevinho e o próprio MC IG poderiam ter sido os artistas a assinar um contrato desse tipo. A escolha específica de MC Lele JP se deve, antes de tudo, aos números que o artista consegue movimentar nas plataformas de streaming e nas redes sociais, diz Frank Polonia.
O MC tem mais de 14 milhões de ouvintes mensais no Spotify, 2,9 milhões de seguidores no Instagram e mais 315 mil no TikTok. No Youtube, ele tem mais de 1 milhão de inscritos, além de vídeos como "O Amor não Paga as Conta", "Eu Sou Cantor não Bandido" e "Saca da Twin" com, respectivamente, 73 milhões, 65 milhões e 51 milhões de vizualições cada.
"Ele está indo muito bem. E, ao analisar mais a fundo, ele é bem estruturado, sua equipe é organizada e tudo parece meticulosamente orquestrado. A Vydia foi construída para ficar nos bastidores e dar à Gringos World a capacidade de florescer e crescer. Nosso negócio é potencializar empresas como a Gringos, e eles precisavam de nós", afirma Polonia.
Para MC IG, a parceria com Lele JP nasceu de uma amizade e de um olhar atento. Há dois anos, ele percebeu que o Lele estava passando por um momento pessoal difícil. "Todo dia que eu ligava para ele, ele estava chorando, estava triste. Aí comecei a pensar que tinha que ajudar. Falei: 'Vamos conversar'. Combinamos um valor para eu entrar na carreira dele e fui pagando. Ele é um moleque de ótimo caráter, escuta bastante. Quando fala que é necessário fazer algo, ele faz", conta.
Lele JP reconhece a virada que a parceria com MC IG representou. "Só de eu estar vivendo de novo os bastidores, respirando o que eu realmente gosto, para mim já era uma vitória. O que viesse a mais ia ser lucro. Acabou que veio esse bônus. Tô feliz, mas com o pé no chão", diz o artista, que define seu diferencial com clareza: "É o flow e a melodia. Algo que o fã vai ouvir e falar: 'Isso aqui é do Lelê'."
O funk poderá ser o novo reggaeton?
A ambição do projeto é clara: otimizar a entrada do funk no mercado norte-americano.
Para isso, a estratégia será semelhante à que Anitta usou na última década. O time busca conquistar o público de língua espanhola dos EUA por meio de colaborações com artistas de rap, trap e reggaeton hispânico. "Nossa estratégia é partir para a música latina. Nosso som é latino. Já temos contato com artistas conectados a Porto Rico e uma sociedade com pessoas da Roc Nation nos Estados Unidos. É uma realidade", afirma MC IG.
O próprio Lele JP confirma a aposta no espanhol como primeiro passo. "Se a gente se desligar hoje das línguas latinas para focar no inglês, pode ter algum desfalque. O espanhol é o foco agora", diz. Entre os artistas internacionais que o MC monitora de perto estão Post Malone, Jack Ruiz e Daniel César, nomes que, segundo ele, influenciam diretamente sua criatividade melódica.
Para Frank Polonia, o momento é estratégico e o precedente histórico é claro. "O mundo está começando a focar no Brasil. As grandes gravadoras já inundaram a região, abriram operações físicas, espalharam dinheiro — e é exatamente isso que acontece quando algo está prestes a explodir. Quanto mais organizado você estiver nessa conjuntura, mais presente você estará quando isso acontecer."
Além da distribuição de novos lançamentos, a empresa também demonstrou interesse em outro movimento do mercado brasileiro: a regularização de catálogos antigos de artistas que, segundo Polonia, "foram tirados vantagem pelas grandes gravadoras" e cujos direitos seguem mal remunerados.
MC IG acredita que o funk tem potencial de repetir a trajetória do reggaeton, mas reconhece que falta ainda um nome que centralize esse movimento nos Estados Unidos da mesma forma que Bad Bunny o fez para o gênero caribenho. "Até me arrepia. A Anitta já é a cara do funk lá fora. A gente deu um passo também. Daqui a um ano, com essa parceria, essa conversa vai fazer muito mais sentido", diz.
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