EUA acusam Brasil de trabalho forçado e miram setor pecuário

Por César H. S. Rezende 3 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
EUA acusam Brasil de trabalho forçado e miram setor pecuário

Em uma nova ofensiva comercial, o governo americano acusou o Brasil de utilizar trabalho forçado na cadeia da pecuária e propôs a aplicação de tarifas adicionais de 12,5% a países que, segundo Washington, não adotam medidas suficientes para impedir a entrada de mercadorias produzidas nessas condições.

Apesar da acusação, a carne bovina está entre os produtos que devem ficar isentos da medida.

A proposta foi anunciada nesta terça-feira, 2, após uma investigação do governo americano concluir que 60 países — entre eles o Brasil — falham em barrar importações associadas ao trabalho forçado. A lista inclui ainda a China, principal destino das exportações brasileiras de carne bovina.

No capítulo dedicado ao Brasil, o documento afirma que há registros “amplamente documentados” de trabalho forçado na produção de gado no país. Para sustentar a acusação, o governo americano cita pesquisas independentes e a lista TVPRA, mantida pelos Estados Unidos.

“A lista TVPRA afirma que há razões para acreditar que existe trabalho forçado na produção de gado no Brasil. Pesquisas independentes sugerem que pecuaristas brasileiros constam na chamada ‘Lista Suja’”, afirma o relatório.

Em seguida, o documento compara o desempenho das exportações brasileiras e americanas de carne bovina para argumentar que os produtores dos EUA enfrentam uma desvantagem competitiva.

“Entre 2015 e 2025, o volume das exportações brasileiras de carne bovina congelada para as economias investigadas praticamente dobrou, enquanto as exportações americanas cresceram 21% no mesmo período”, diz o relatório.

O documento reconhece, contudo, que outros fatores também podem ter influenciado essa dinâmica, incluindo a evolução do rebanho bovino dos Estados Unidos.

O debate ocorre em um momento de forte expansão da pecuária brasileira. Em 2025, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e assumiu a liderança global na produção de carne bovina. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o país produziu 12,3 milhões de toneladas no ano passado, ante 11,8 milhões de toneladas dos americanos.

As exportações também avançaram. Em 2025, o Brasil embarcou 3,5 milhões de toneladas de carne bovina, volume 21% superior ao registrado no ano anterior. Os Estados Unidos foram o segundo principal destino da proteína brasileira, com 271,8 mil toneladas importadas, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Procurada, a Abiec disse que optou por não se manifestar sobre o assunto no momento.

Crise da carne nos EUA

A crise do gado nos EUA tem elevado o preço da carne nos EUA. O preço da carne moída, principal matéria-prima dos hambúrgueres, atingiu o recorde de US$ 6,90 por libra-peso em abril, o maior valor da série histórica do Bureau of Labor Statistics (BLS), órgão responsável pelas estatísticas trabalhistas dos Estados Unidos.

O patamar representa quase o dobro do registrado há dez anos e uma alta de aproximadamente 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Os preços da carne bovina nos Estados Unidos vêm acumulando sucessivos recordes. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.

A escalada dos preços tem levado reguladores, representantes da indústria e entidades de defesa do consumidor a buscar explicações para o movimento, além de intensificar o debate sobre os fatores que pressionam os custos ao longo da cadeia pecuária.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, inclusive, abriu uma investigação antitruste para apurar a atuação de grandes processadoras de carne, entre elas JBS, Cargill e Tyson Foods.

A alta nos preços é resultado de uma combinação de fatores, como as condições climáticas adversas, a redução do rebanho bovino e a tarifa de 50% imposta pelo próprio governo Trump sobre a carne brasileira em julho de 2025.

A crise enfrentada pelos pecuaristas americanos se intensificou nos últimos cinco anos. O setor atravessa uma fase de contração do ciclo pecuário, marcada pela redução do rebanho e pela menor oferta de animais para confinamento.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. O rebanho total de bovinos dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar caixa.

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