Exames de sangue podem prever o Alzheimer? Testes avançam, mas há limites

Por Marina Semensato 21 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Exames de sangue podem prever o Alzheimer? Testes avançam, mas há limites

Há anos, a ciência busca formas de prever o Alzheimer antes dos primeiros sintomas. Agora, os exames de sangue começam a se aproximar desse objetivo. A proposta ainda está em desenvolvimento, mas ganhou tração com uma nova geração de testes baseada em biomarcadores, segundo reportagem do New York Times.

Dois desses exames já foram aprovados nos Estados Unidos para ajudar no diagnóstico de pacientes com sintomas. Agora, pesquisadores testam se eles também conseguem indicar quem pode desenvolver a doença no futuro. A ideia é promissora: um estudo recente descobriu que eles podem ser capazes de prever o início dos sintomas de demência com até 20 anos de antecedência.

A expectativa cresce em um momento de avanço dos casos de demência no mundo. Especificamente no Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais vive com a condição, o equivalente a 1,8 milhão de pessoas. A projeção é que esse número chegue a 5,7 milhões até 2050.

Como funcionam os exames?

O Alzheimer está ligado a duas proteínas no cérebro: a beta-amiloide e a tau. Com o tempo, elas deixam de funcionar como deveriam e começam a se acumular, formando placas e emaranhados que danificam os neurônios.

Esse processo começa muito antes dos sintomas. As placas de amiloide podem surgir até 20 anos antes dos primeiros sinais de perda de memória. Já as alterações na proteína tau aparecem depois e estão mais diretamente associadas ao avanço da doença.

"A tau e a neurodegeneração são o incêndio que causa o maior dano. A amiloide seria a faísca inicial", explica o neurologista Eric Reiman, diretor do Banner Alzheimer’s Institute, ao NYT.

Hoje, o diagnóstico costuma depender da identificação dessas placas no cérebro, por meio de exames como o PET ou a análise do líquido cefalorraquidiano, dois procedimentos caros e invasivos, características que fortalecem a busca por um exame de sangue que também traga essas respostas.

O desafio inicial era medir a amiloide fora do cérebro, já que ela também é produzida por outros órgãos, o que dificulta a leitura. A saída, então, foi focar na proteína tau. Pesquisadores notaram que versões modificadas dessa proteína no sangue podem indicar, de forma indireta, o acúmulo de amiloide no cérebro.

Segundo Reisa Sperling, professora de neurologia da Harvard Medical School, esses exames ajudam a captar quando algo já está em curso. "Eles indicam que há um processo ligado ao Alzheimer em andamento e um risco maior de declínio cognitivo", afirmou.

Onde os testes já funcionam?

Entre pessoas com sintomas, os exames têm mostrado cerca de 90% de precisão para detectar sinais associados ao Alzheimer. Isso ajuda a direcionar o diagnóstico e evitar confusão com outras doenças.

Para Suzanne Schindler, professora de neurologia da Washington University em St. Louis, "existe a possibilidade de fornecer um diagnóstico para muito mais pessoas".

A leitura do exame depende do nível de tau no sangue. Quando está baixo, a chance de haver Alzheimer é pequena. Quando está alto, a probabilidade aumenta.

Ainda assim, resultados intermediários deixam dúvidas — e, nesses casos, os médicos costumam recorrer a exames mais complexos, como o PET ou a análise do líquido cefalorraquidiano, para confirmar o diagnóstico.

Ressalvas e perspectivas

Christopher Rowe, da Universidade de Melbourne, afirmou que um resultado positivo nem sempre indica a doença. "Há uma boa chance de ser um falso positivo", disse. Além disso, mesmo quando há sinais no cérebro, isso não garante que a demência vai se desenvolver.

Por enquanto, a ciência está mais avançada no desenvolvimento de tratamentos capazes de retardar a doença. Ensaios clínicos estão em andamento, com resultados esperados nos próximos anos.

A prevenção, considerando o que já se sabe hoje, é cuidar da saúde física e mental ao longo da vida. É importante levar isso em conta, visto que, no Brasil, até 45% dos casos de demência podem ser evitados ou adiados, segundo o Ministério da Saúde.

Entre os fatores de risco estão hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, depressão e isolamento social, condições para as quais já existem tratamentos robustos.

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