EXCLUSIVO: Deezer lucra 8 milhões de euros e aposta em mercado B2B e IA contra fraudes no streaming

Por Mateus Omena 18 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
EXCLUSIVO: Deezer lucra 8 milhões de euros e aposta em mercado B2B e IA contra fraudes no streaming

A Deezer alcançou pela primeira vez um resultado líquido positivo e entrou em um ciclo de rentabilidade sustentável ao registrar lucro líquido de €8 milhões no ano fiscal de 2025. Os resultados financeiros foram divulgados pela empresa de streaming de música nesta quarta-feira, 18.

A companhia francesa também reportou EBITDA ajustado de €10 milhões, superando as expectativas do mercado. No ano anterior, o indicador havia sido negativo em €4 milhões.

A receita total chegou a €534 milhões, praticamente estável em relação ao ano anterior. O desempenho foi acompanhado por evolução operacional, com lucro bruto ajustado de €135 milhões, equivalente a uma margem de 25,4%.

"O ano de 2025 foi marcante para a Deezer e nossa estratégia trouxe melhorias significativas, com um crescimento acelerado de assinantes na França e no resto do mundo. Observamos, em particular, um aumento no engajamento de fãs jovens de música", avaliou Alexis Lanternier, CEO da Deezer, em entrevista exclusiva à EXAME.

E reforçou: "Todos esses esforços levaram aos resultados financeiros positivos que apresentamos hoje. Pela primeira vez em nossa história, alcançamos EBITDA ajustado positivo e resultados líquidos positivos para o ano todo, com fluxo de caixa livre positivo pelo segundo ano consecutivo".

Alexis Lanternier: CEO da Deezer (Deezer/Divulgação)

Segundo a companhia, parte desse avanço veio do controle de despesas. As despesas operacionais foram reduzidas em €12 milhões em comparação com o ano anterior, resultado de medidas de disciplina de custos. O fluxo de caixa livre também ficou positivo, em €10 milhões, enquanto a empresa encerrou o ano com €65 milhões em caixa.

Para Lanternier, a paixão da Deezer pela música e o cuidado com a experiência dos usuários na plataforma contribuíram para a rentabilidade do negócio e o desempenho de todas as funções disponíveis no streaming. E os efeitos foram notados não apenas no país de origem, mas em outros mercados ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

"Atingir a rentabilidade em 2025 foi resultado de uma estratégia clara, na qual o nosso cuidado com a música está no centro de tudo o que fazemos. Isso claramente repercutiu positivamente entre os fãs de música na França, no Brasil e em todo o mundo, o que levou ao crescimento do número de assinantes em todas as plataformas", detalhou o executivo francês.

O crescimento de assinantes diretos também ganhou tração. Na França, o número de assinantes aumentou 8,6%, enquanto no resto do mundo o avanço foi de 7,7%.

Proteção de artistas e inteligência artificial

A Deezer atribui parte do desempenho ao reposicionamento de marca voltado para artistas e transparência no uso de inteligência artificial. Segundo a companhia, 85% dos streams fraudulentos gerados por IA foram desmonetizados por meio de sua tecnologia proprietária de detecção.

De acordo com o CEO, esse esforço vai muito além da estratégia de negócios. É um compromisso do serviço de streaming com o setor e a integridade dos profissionais da indústria da música.

"Em um mundo onde a música gerada por IA está se tornando indistinguível da música feita por humanos, é essencial para nós oferecermos transparência e fazermos a nossa parte para garantir, na medida do possível, que os artistas não sofram consequências negativas, especialmente com a diluição de suas receitas por fraudes em streaming impulsionadas por IA", afirmou.

Por outro lado, ele reconhece que a iniciativa agregou valor à marca, colocando a Deezer entre as principais representantes no combate a fraudes em IA no setor.

"Até o momento, somos a única plataforma de streaming a detectar e etiquetar músicas geradas por IA. Isso, em conjunto com nossa luta contra a fraude em streaming, definitivamente teve um impacto positivo em nossa marca, e percebemos que os usuários fizeram uma escolha consciente ao se juntarem à Deezer por causa dos nossos valores".

Para 2026, uma das metas da Deezer é impulsionar a monetização da tecnologia de detecção de conteúdos de IA e tornar esse produto um componente relevante na receita da companhia. O CEO adianta que esse projeto deve funcionar por meio de acordos com outras empresas no setor, mas os detalhes operacionais serão anunciados em breve.

"A partir de 2026, nossa tecnologia estará disponível para qualquer organização no ecossistema musical que deseje detectar e rastrear músicas geradas por IA. Estamos em negociações com diversas empresas e pretendemos anunciar novas parcerias nos próximos meses", explica Alexis Lanternier.

A preocupação com os profissionais da música também se mostra em projetos de remuneração. Em 2023, a Deezer lançou o sistema de pagamento centrado no artista (ACPS), para que uma parcela maior do valor pago pelos assinantes seja destinada aos artistas e compositores que eles admiram. Em 2026, 75% dos parceiros da Deezer estão inseridos nesse modelo de pagamento, segundo um relatório da empresa.

Ao olhar para os efeitos de longo prazo, Lanternier ressalta que esse modelo estreita os laços da companhia com os artistas, garante maior credibilidade e diferencial diante dos concorrentes.

"São mecanismos que recompensam artistas reais e atuantes, que cultivam sua base de fãs, ao mesmo tempo que minimizam fraudes. Nossa ambição é migrar para um modelo totalmente centrado no usuário, o que significa que a taxa de assinatura de cada usuário será destinada exclusivamente aos artistas que ele ouve. Essa abordagem nos diferencia da concorrência".

Parcerias e expansão no B2B

A estratégia de distribuição por meio de parceiros também foi ampliada ao longo do ano. A Deezer renovou 10 acordos de distribuição, incluindo parcerias com empresas como TIM e Sonos, e firmou seis novos contratos, entre eles com EDF e Chippu.

Além disso, a empresa começou a desenvolver novas frentes de receita no mercado corporativo, com o lançamento do serviço Deezer for Professionals e da oferta de Music-as-a-Service.

"As parcerias continuam sendo um motor fundamental para o crescimento futuro da Deezer. No ano passado, renovamos colaborações importantes, principalmente com a TIM e a Sonos, firmamos novas parcerias em novos segmentos, como Molotov, Fitness Park e EDF, e estabelecemos uma base sólida para continuar ajudando empresas a transformar música em oportunidades de negócios e construir relacionamentos significativos com os consumidores. Estamos ansiosos para anunciar muitas novas e empolgantes parcerias em 2026", explica Alexis Lanternier.

A hora e a vez do Brasil

Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina (Deezer/Divulgação)

Diante deste cenário, o Brasil se apresenta como um dos mercados mais atrativos para a Deezer, o 2º mais importante da companhia em todo o mundo.

Embora a empresa não revele o balanço financeiro e o número de assinantes da operação brasileira, a companhia registrou crescimento consistente no país em sua base de usuários, segundo Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina.

"A missão da Deezer é aproximar fãs dos seus artistas favoritos. E o Brasil é um dos lugares do mundo onde essa missão faz mais sentido. Os brasileiros vivem a música intensamente, quando acordam para malhar, no transporte, no trabalho, na escola, em casa no fim do dia. A música está em todo lugar, o tempo todo", enfatiza o executivo em entrevista à EXAME.

No Brasil, a expansão do alcance da plataforma está ancorada não apenas no interesse orgânico, mas principalmente em parcerias estratégicas com grandes empresas brasileiras. Recentemente, a Deezer fechou acordos com o banco Itaú visando a extensão de seus serviços para o ambiente corporativo e os clientes dessas companhias com vantagens exclusivas.

"Construímos aqui uma operação sólida, com parcerias B2B de alto impacto, como Itaú e TIM, que nos permitem levar música para milhões de brasileiros de forma integrada à sua rotina. Essas parcerias são referência dentro da companhia e mostram o quanto o Brasil é um mercado estratégico, não só em tamanho, mas em capacidade de inovação".

Para Vicentini, essa tática adotada pela companhia no Brasil e na América Latina contribuiu para que a empresa alcançasse crescimento consistente no segmento.

"Quando o maior banco privado da América Latina ou uma das maiores operadoras do país oferecem a Deezer como benefício aos seus clientes, a música chega de forma natural à vida das pessoas. Não é uma venda forçada, é a música entrando pela porta certa", reforça o executivo.

A Deezer também está de olho nas experiências dos usuários que possam ir além do serviço de streaming. O General Manager explica que as apostas em eventos e ativações foram certeiras na missão de fisgar o público.

"O brasileiro não quer só ouvir música, ele quer viver música. A Deezer sabe exatamente quem são os super fãs de cada artista e usa isso para criar experiências hiperpersonalizadas, que reconhecem e recompensam quem realmente vive aquela música no dia a dia. Nosso investimento em shows, em ativações com artistas e em experiências exclusivas para superfãs cria um vínculo que vai muito além do app. E quando o fã vive uma experiência real com o seu artista favorito, ele não abandona a plataforma".

Essa frente de negócios ganha tração com o alto consumo de músicas de artistas nacionais dentro do streaming, o que, segundo Vicentini, é fruto da valorização do conteúdo local. "Mais de 75% dos streams no Brasil são de artistas brasileiros. Apoiar a música local não é só um posicionamento — é o que mantém o fã engajado e fiel à Deezer".

A fase de consolidação

Para 2026, a Deezer planeja manter o nível de receita registrado em 2025 enquanto investe seletivamente em áreas com maior potencial de crescimento.

Entre as prioridades estão acelerar a expansão de assinantes diretos, fortalecer o posicionamento da marca e ampliar a distribuição por meio de novos modelos de parceria, incluindo soluções white label para outras empresas.

A empresa também projeta EBITDA ajustado positivo e fluxo de caixa livre positivo no próximo exercício, dando continuidade ao ciclo de rentabilidade iniciado em 2025. "Entramos em 2026 em uma posição de força, com maior visibilidade e uma base de custos mais enxuta. Após uma fase disciplinada de testes e aprendizado, estamos agora expandindo o que funciona", declara Lanternier.

E acrescenta: "Temos um roteiro claro, um forte foco na execução e a ambição de tornar a Deezer a plataforma de música mais confiável para fãs, artistas e parceiros em todo o mundo — continuando a liderar o caminho para ajudar a música a prosperar".

Do lado do Brasil, Rodrigo Vicentini está confiante na extensão de parcerias com grandes marcas ao longo do ano, para ampliar a base de usuários e outras oportunidades de negócios. Segundo ele, o ano de 2026 marca a consolidação desta operação, em meio ao alto interesse de empresas de diversos setores na indústria da música.

"As marcas perceberam o valor que a música pode agregar, e muito, aos seus negócios. E temos inúmeros exemplos disso, no Brasil e no mundo. Empresas do setor financeiro, telecom, seguradoras, mídia, serviços. Independente do segmento, a música tem um poder único: aumentar o LTV dos clientes (valor do ciclo de vida do cliente), fortalecer retenção e impulsionar aquisição", explica.

Ele também pontua que a decisão da companhia em jogar suas fichas no segmento B2B considera a crescente demanda do público por praticidade no digital e experiências únicas.

"Hoje, o B2B é um dos motores de crescimento mais consistentes da Deezer no Brasil. E o que mais nos entusiasma é que ainda estamos no começo. Vemos um enorme potencial para seguir expandindo essa vertical por aqui, chegando a novos segmentos e construindo novas histórias junto com parceiros que acreditam, como a gente, no poder da música", finaliza.

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