Exclusivo: Instituto Baccarelli vence edital e assumirá a gestão do Theatro Municipal de São Paulo
O mercado de gestão cultural de São Paulo acaba de passar por uma das viradas mais históricas. O Instituto Baccarelli, organização social (OS) sem fins lucrativos, venceu o edital público para assumir a gestão do Theatro Municipal de São Paulo pelos próximos cinco anos.
A conquista consolida uma trajetória construída ao longo de três décadas na comunidade de Heliópolis. Também representa um marco político para a capital: a instituição é quem administra a orquestra sinfônica de Heliópolis, que tem feito várias parcerias com outros artistas em grandes festivais, como Lollapalooza e The Town ao longo dos últimos anos.
"Quando começamos em Heliópolis, muitos diziam que era impossível. Hoje, a nossa organização assume a responsabilidade de gerir o complexo cultural mais importante de São Paulo", afirma Edilson Ventureli, maestro e CEO do Instituto Baccarelli, em entrevista à Casual EXAME. "Temos o compromisso de realizar uma gestão exemplar, transparente e de altíssima qualidade. Vamos entregar à cidade um Theatro Municipal artisticamente impecável, mas conectado ao seu tempo, mais democrático e próximo da população."
A musculatura por trás do palco
Atualmente, a instituição atende gratuitamente 1.650 alunos em sua estrutura de formação musical de alta performance, e atua como um celeiro de talentos para as principais orquestras do Brasil e do mundo.
Ao assumir o complexo do Theatro Municipal, o Instituto herdará o desafio de coordenar uma máquina complexa, que engloba corpos artísticos históricos — como a Orquestra Sinfônica Municipal, o Coro Lírico e o Balé da Cidade —, além de uma extensa programação de óperas, concertos e manutenção patrimonial do edifício histórico inaugurado em 1911.
A meta do Baccarelli para o próximo quinquênio é usar a expertise adquirida na periferia para oxigenar o centro cultural da cidade.
O plano envolve descentralizar o acesso, fortalecer a estabilidade técnica dos corpos estáveis e criar pontes mais fluidas entre a programação clássica e a diversidade demográfica de São Paulo.
"Excelência é algo que o Baccarelli pratica há 30 anos no dia a dia. No Municipal não será diferente", conclui Ventureli.
Entenda o embate jurídico para a gestão do Theatro Municipal
Embora o Instituto Baccarelli tenha sido declarado vencedor pela Comissão Especial de Seleção da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, a transição de comando não deve acontecer sem barulho.
A Sustenidos Organização Social de Cultura, atual gestora do complexo, apresentou um recurso administrativo questionando o parecer técnico. O Baccarelli, por sua vez, já protocolou um contrarrecurso defendendo o resultado.
A queda de braço jurídica e administrativa gira em torno de alguns pontos de atrito.
A matemática do edital, por exemplo, é uma delas. A Sustenidos alega que o edital continha um "vício" estrutural em um critério que analisava a eficiência da prestação de contas. A comissão identificou um erro de pontuação e, em vez de anular o certame, optou por desconsiderar o critério para as duas partes. A atual gestora pede a anulação total do processo por isso.
O Baccarelli rebate dizendo que a decisão foi equilibrada e legítima, já que afetou as duas concorrentes por igual.
Outro detalhe é o equilibro entre Música, Ópera e Balé. A Sustenidos argumenta que o Baccarelli tem foco predominantemente musical e educacional em Heliópolis, sem experiência comprovada em áreas vitais do Municipal, como ópera, teatro e dança. O Instituto se defende apontando que o edital exigia experiência compatível em quaisquer das áreas listadas — e que suas três décadas gerindo orquestras, corais e o Teatro Baccarelli dão estofo suficiente para o cargo.
Por fim, havia também uma guerra de documentos. A atual gestora reclama que a comissão foi rígida demais ao zerar algumas de suas notas por falta de papelada. O Baccarelli contra-ataca no processo, e pontua que a concorrente deixou de entregar portfólios obrigatórios de dirigentes e artistas, enviando apenas currículos simples, e que aceitar novos documentos agora violaria a isonomia da disputa.
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