Expansão imobiliária e economia prateada levam elevadores da Atlas Schindler a patmares mais altos
Durante décadas, os elevadores brasileiros sobem e descem dentro de prédios que envelheceram junto com as cidades. Muitos ainda carregam tecnologias das décadas de 1970 e 1980 — máquinas pesadas, sistemas analógicos e estruturas que continuam funcionando quase como cápsulas do tempo da urbanização brasileira.
Agora, à medida que os edifícios envelhecem e as cidades ficam mais altas, modernizar esses equipamentos virou uma nova avenida de crescimento para empresas como a Atlas Schindler, que vem testemunhando todo esse avanço no Brasil nos últimos 100 anos.
A companhia, que já instalou mais de 260 mil elevadores no país desde 1918, encerrou 2025 com receita bruta de R$ 3,9 bilhões, alta de 11,8%, receita líquida de R$ 3,3 bilhões, crescimento de 11,5%, e lucro líquido de R$ 331 milhões, avanço de 70,6%. O Ebit somou R$ 473,2 milhões, crescimento de pouco mais de 37%.
A Atlas mantém sua sede histórica no Cambuci, em São Paulo, desde 1930 — complexo que agora ganha um novo prédio anexo de dez andares. A empresa encerrou o ano com cerca de 5 mil funcionários diretos e entre 2,5 mil e 3 mil terceirizados.
Mesmo em um mercado imobiliário pressionado por juros altos, a leitura da companhia é que urbanização, envelhecimento da população e digitalização devem continuar sustentando a demanda estrutural por mobilidade vertical nos próximos anos.
Para Flavio Silva, presidente da Atlas Schindler no Brasil, os números do ano passado refletem um processo de transformação operacional e tecnológica iniciado nos últimos anos — e sustentado por uma leitura de longo prazo sobre urbanização e mobilidade vertical.
“Não há substituto para o elevador”, afirma o executivo à EXAME. “A gente viu tecnologias convergirem. O celular substituiu a câmera, parte do computador, uma série de dispositivos. Mas o elevador continua sendo um elemento intrínseco à vida urbana.”
A fala ajuda a explicar a aposta da companhia em um setor diretamente ligado à verticalização das cidades. Segundo Silva, a expectativa de que mais de 70% da população mundial viva em áreas urbanas até 2050 reforça uma lógica simples: “A única solução é para cima”.
Além da urbanização, a empresa também enxerga o envelhecimento populacional como vetor estrutural para o negócio. O chamado silver aging aumenta a demanda por acessibilidade, mobilidade e infraestrutura adaptada em edifícios residenciais, comerciais e hospitais.
O CEO descreve 2025 não como um ponto fora da curva, mas como “a consolidação de um filme” construído desde a pandemia. A crise expôs gargalos logísticos globais e levou a Atlas Schindler a acelerar a nacionalização de componentes.
A companhia aumentou significativamente o índice de nacionalização de peças para reduzir exposição às rupturas das cadeias internacionais de suprimento. Embora alguns componentes ainda venham da China e da Suíça, o produto final é descrito pela empresa como “majoritariamente nacional”.
Outro eixo importante foi eficiência operacional. A empresa revisou processos industriais utilizando metodologia Lean, reorganizando linhas de produção, logística e gestão de estoques.
Esse movimento também incluiu a consolidação do Centro de Serviços Compartilhados (CSC) em Londrina, criado há cinco anos para concentrar operações administrativas, tecnologia e automação. Segundo Silva, o objetivo do centro é “melhorar a eficiência do Brasil inteiro”.
Hoje, a Atlas Schindler possui cerca de 160 postos de atendimento espalhados pelo país, atuando em três frentes principais: novas instalações, manutenção e modernização de elevadores e escadas rolantes.
Do Minha Casa, Minha Vida ao altíssimo luxo
A empresa opera em diferentes segmentos do mercado imobiliário, indo da habitação popular aos arranha-céus de luxo.
No Minha Casa, Minha Vida, a Atlas Schindler desenvolveu o Schindler 1000, modelo voltado ao mercado de habitação social. Silva classifica o programa federal como “bem-sucedido” por ampliar acesso à moradia e afirma que o equipamento foi desenhado para tornar a companhia competitiva nesse nicho.
Na outra ponta, a empresa atua em projetos de altíssimo padrão e supertorres corporativas e residenciais.
Balneário Camboriú, em Santa Catarina, se tornou um dos principais símbolos dessa transformação. Segundo o executivo, o “padrão médio” da cidade já envolve edifícios com cerca de 56 paradas.
Quanto mais altos os prédios, mais complexa se torna a engenharia da mobilidade vertical. A velocidade dos elevadores passa a ser decisiva para evitar longos tempos de deslocamento interno.
A companhia também participa da disputa pela participação no Senna Tower, megaprojeto residencial que promete se tornar um dos edifícios mais altos do mundo. Questionado sobre a presença da Atlas Schindler no empreendimento, Silva cita apenas que a empresa “está em concorrência”.
O elevador virou plataforma digital
Mais do que fabricar equipamentos, a Atlas Schindler tenta reposicionar o elevador como infraestrutura tecnológica dos edifícios. “O elevador do futuro é digital, não mais analógico”, diz Silva.
A companhia investe em plataformas de conectividade como o Schindler Ahead, sistema que monitora equipamentos em tempo real, permite manutenção preditiva e intervenções remotas.
Outra frente envolve integração entre elevadores e robôs de entrega, por meio do Schindler CoLiv, solução já utilizada em hospitais e hotéis brasileiros.
Na prática, o elevador deixa de ser um equipamento isolado e passa a funcionar como parte da inteligência operacional dos prédios.
Esse conceito aparece em projetos como o World Trade Center Uberlândia, complexo corporativo de 50 mil metros quadrados que utilizará elevadores integrados a sistemas digitais de gestão de tráfego e reconhecimento facial.
O Brasil também ganhou relevância dentro da operação global da Schindler. A empresa mantém no país um dos seis centros mundiais de pesquisa e desenvolvimento do grupo suíço e inaugurou recentemente um novo prédio de P&D em Londrina, voltado ao desenvolvimento e exportação de soluções tecnológicas.
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