Exportações de carnes do Brasil avançam no 1º tri, mas margens entram em pressão em 2026
O Brasil começou 2026 reafirmando seu papel como protagonista global no mercado de proteínas, mas esse cenário corre o risco de não se sustentat o longo do ano. Esse é o diagnóstico do Bank of America (BofA), em relatório das analistas Isabella Simonato e Julia Zaniolo.
O documento mostra que as exportações de carne bovina, frango e suína avançaram no primeiro trimestre, sustentadas por uma oferta global apertada e demanda resiliente. De janeiro a março deste ano, os embarques de carne bovina cresceram 20% na comparação anual, enquanto o frango avançou 5%, mesmo após uma base elevada, e a carne suína subiu 15%.
O movimento dá continuidade a uma década de crescimento consistente. Em 2025, o país exportou um recorde de 9,4 milhões de toneladas de proteínas, com taxa média de crescimento anual próxima de 5%. Agora, o impulso segue forte — ainda que com sinais crescentes de pressão no horizonte, avalia o banco.
“O forte desempenho das exportações ressalta um equilíbrio apertado entre oferta e demanda global, com o Brasil bem posicionado como um mercado-chave de origem”, afirmam Simonato e Zaniolo.
A China segue como principal vetor dessa demanda, especialmente para a carne bovina. Os preços já refletem esse apetite: atingiram US$ 5,83/kg em março, com média de US$ 5,58/kg no trimestre, alta de 15% em um ano.
Mais relevante, porém, é o ritmo de utilização da cota de importação chinesa. No fim de 2025, o país asiático impôs tarifas adicionais de 55% sobre as importações de carne bovina de países como Brasil, Austrália e Estados Unidos, caso os embarques ultrapassem determinadas cotas.
A cota total para 2026 ficou em 2,7 milhões de toneladas. O Brasil, principal fornecedor da proteína ao país asiático, ficou com a maior fatia: 41,1%, ou 1,1 milhão de toneladas. Em seguida vêm a Argentina, com 19,0%, e o Uruguai, com 12,1%. Para a Austrália e os Estados Unidos, foram alocadas cotas de 205 mil e 164 mil toneladas, respectivamente.
A medida impacta especialmente o mercado brasileiro, que enviou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina à China em 2025 — o equivalente a 48,3% do volume exportado, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
Segundo as projeções do BofA, cerca de 43% da cota anual já teria sido consumida até março. “O volume sugere que a cota pode ser totalmente utilizada entre agosto e setembro”, dizem as analistas.
Além disso, avalia o banco, mesmo com tarifas elevadas fora da cota, fatores como o ciclo de baixa do rebanho chinês e surtos sanitários devem manter o incentivo à importação.
Margens na carne
Se o lado da demanda sustenta volumes e preços em dólar, o mesmo não pode ser dito das margens. Segundo a análise do BofA, os custos de produção, especialmente na pecuária estão mais altos e comprimem a rentabilidade do agricultor.
O relatório mostra que os preços do gado no Brasil subiram 5,8% no primeiro tri de 2026 na comparação anual e 6,3% frente ao trimestre anterior, impactando diretamente os frigoríficos. Como resultado, as margens de exportação de carne bovina caíram quase 5 pontos percentuais no período.
Já no frango, o cenário é mais equilibrado. Custos de ração — que representam 63% do total — caíram 9% no período, ajudando a sustentar margens mais estáveis.
“Apesar de preços mais altos em dólar, a valorização do real e os custos mais elevados têm pressionado as margens, especialmente na carne bovina”, diz o relatório.
O bom desempenho das proteínas é acompanhado por uma oferta robusta de grãos. As exportações de soja do Brasil cresceram 6% no primeiro tri, totalizando 29,6 milhões de toneladas, enquanto o milho avançou 15%.
A China importou 16,2 milhões de toneladas de soja brasileira no trimestre — queda anual de 5%, mas alta expressiva de 27% frente ao trimestre anterior, refletindo a sazonalidade da colheita.
O desafio agora será sustentar esse ritmo diante de comparações mais exigentes e riscos crescentes, diz o banco. Segundo o BoFa, quatro pontos merecem atenção, como as restrições chinesas, o ciclo pecuário no Brasil, o reequilíbrio global na oferta de frango e potenciais impactos logísticos e de demanda ligados à guerra no Irã.
Para o BofA, o Brasil segue como peça central no abastecimento global de alimentos, mas enfrenta um novo ciclo — menos marcado por expansão de margens e mais dependente de eficiência operacional e gestão de riscos.
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