Farmácia de cannabis medicinal do PR mira escala em mercado de R$ 1,1 bi

Por Rafael Martini 26 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Farmácia de cannabis medicinal do PR mira escala em mercado de R$ 1,1 bi

A Cannabis Company, farmácia dedicada exclusivamente à cannabis medicinal com produtos à pronta-entrega, nasceu em novembro de 2025, em Curitiba (PR), com um modelo inovador no setor farmacêutico. Apenas cinco meses após a abertura da primeira unidade, a empresa já coloca em operação o plano de expansão nacional, estruturado desde a concepção do modelo de negócio.

O movimento ocorre em um novo setor da saúde no Brasil que já movimenta cerca de R$ 971 milhões, com crescimento anual superior a 8%, e que pode ultrapassar R$ 1,1 bilhão em 2026, segundo dados do anuário da Kaya Mind, consultoria brasileira especializada em dados e inteligência de mercado sobre cannabis na América Latina.

A estratégia começa por São Paulo e região metropolitana, com a implementação dos chamados “consultores canábicos” — profissionais responsáveis por conectar médicos prescritores, pacientes e a operação central da empresa.

A proposta é reduzir barreiras de acesso ainda existentes no país, especialmente em um mercado que exige prescrição médica, conhecimento técnico e navegação regulatória.“O consultor terá papel fundamental na educação do mercado, apoiando médicos e pacientes em todas as etapas do processo”, afirma Michele Farran, sócia fundadora da companhia.

A entrega dos produtos segue centralizada, diretamente ao paciente, mantendo controle logístico e padronização da experiência — um ponto crítico em um setor ainda em consolidação.

Uso terapêutico

A expansão da empresa acompanha um movimento estrutural mais amplo. O número de pacientes em tratamento com cannabis medicinal no Brasil já chega a aproximadamente 873 mil, com crescimento de cerca de 30% em um ano. Hoje, cerca de 85% dos municípios brasileiros registram ao menos um paciente em uso terapêutico, evidenciando a interiorização da demanda.

O avanço ocorre por múltiplos canais — importação, farmácias autorizadas e associações de pacientes — e por uma base médica em expansão, com dezenas de milhares de profissionais já habilitados a prescrever.

A projeção de crescimento do uso medicinal nos próximos anos é impactante. Segundo a Kaya Mind, o mercado pode alcançar até R$ 9,5 bilhões no médio prazo, à medida que a regulação evolui e o acesso se amplia no país.

Mais do que um nicho, o setor começa a se organizar como um ecossistema que envolve indústria farmacêutica, saúde, regulação e novos modelos de varejo. E, nesse contexto, iniciativas que combinam acesso, educação e escala tendem a ganhar protagonismo.

Apesar de já projetar uma rede de franquias, a Cannabis Company optou por uma abordagem gradual. A fase atual funciona como um laboratório operacional para validar demanda, logística e padronização antes da expansão física.“Começamos com os consultores porque esse formato permite ganhar capilaridade com controle e proximidade com médicos e pacientes. É uma etapa essencial antes do franchising”, explica Michele.

.Os consultores passam por um processo rigoroso de seleção e capacitação, com apoio jurídico especializado e exigência de dedicação exclusiva — um indicativo de que o modelo busca profissionalização em um mercado ainda sensível.

Experiência pessoal

A Cannabis Company nasceu em novembro de 2025, com a abertura da primeira unidade física em Curitiba (PR), no bairro Bigorrilho. Mais do que uma farmácia, o espaço foi concebido como um hub de saúde e informação, conectando pacientes, médicos e ciência.

A origem do negócio está na experiência pessoal da fundadora. Diagnosticada com artrite reumatoide, Michele encontrou no canabidiol uma alternativa terapêutica após anos de tratamentos convencionais.“Recuperei minha energia, mobilidade e qualidade de vida. E percebi que havia um espaço enorme para oferecer esse tipo de cuidado de forma segura e orientada”, afirma.

Desde o início, a proposta foi estruturar uma operação enxuta, replicável e alinhada às exigências regulatórias — um ponto central para a credibilidade do setor. O modelo segue integralmente as diretrizes da RDC 327/2019, da ANVISA, que regula a comercialização de produtos à base de cannabis no Brasil. Os medicamentos são vendidos exclusivamente com prescrição médica e rastreabilidade completa, provenientes de laboratórios autorizados.

Segundo a farmacêutica responsável técnica, Tarsila Tomaz Lins Couto, o canabidiol tem se consolidado como um recurso terapêutico relevante em diferentes frentes.“Os resultados clínicos são expressivos em casos de dor crônica, epilepsia, esclerose múltipla e doenças neurológicas como Alzheimer e Parkinson, além de distúrbios como ansiedade e insônia”, afirma.

Trata-se de um segmento que combina inovação, evidência científica e, ao mesmo tempo, desafios importantes — como custo elevado para pacientes, lacunas de informação e evolução regulatória ainda em curso.

A entrada da Cannabis Company em uma estratégia nacional reforça um ponto central: o mercado de cannabis medicinal no Brasil deixou de ser marginal e passa a disputar espaço como uma nova fronteira da saúde e dos negócios.

Ainda cercado de tabus e complexidade regulatória, o setor exige responsabilidade, educação e estrutura. Mas os números indicam um caminho claro: a demanda cresce, se espalha pelo país e começa a atrair modelos mais sofisticados de operação.

Ao priorizar capilaridade antes de escala, a Cannabis Company sinaliza que, mais do que crescer rápido, o desafio agora é ajudar a organizar um mercado que já existe — e que dificilmente voltará atrás.

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