Fed muda o tom, dólar sobe: o que está por trás da nova pressão sobre o real
Juros mais altos atraem capital para os Estados Unidos — o que fortalece o dólar. E é exatamente essa a fotografia do atual momento. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) manteve pela quarta vez consecutiva a taxa de juros, os fed funds, na faixa entre 3,50% e 3,75%. Mas o que realmente chamou a atenção do mercado foi o tom do comunicado e as declarações do presidente da instituição, Kevin Warsh.
A mensagem foi interpretada como um sinal de que o BC não tem pressa para iniciar um ciclo de afrouxamento monetário. Em seu primeiro discurso, Warsh demonstrou preocupação com a inflação, que segue acima da meta de 2% e destacou o foco das autoridades em estabilizar os preços.
"Essa alta nos preços nos Estados Unidos, impulsionada principalmente por um mercado de trabalho ainda aquecido e pela pressão recente nos preços do petróleo, é o principal fator por trás dessa postura da autoridade monetária", diz Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI investimentos.
Warsh também evitou oferecer um guidance claro sobre os próximos passos da política monetária, sinalizando que o Fed se comunicará menos, como avalia Gustavo Rostelato, economista da Armor capital. "Essa menor previsibilidade e a sinalização de que será um Fed que se comunicará menos tende a elevar a incerteza de curto prazo e, consequentemente, favorece o fortalecimento global do dólar", afirma.
A primeira decisão do Fed sob o comando de Kevin Warsh trouxe ainda uma revisão das projeções dos membros do Fed para os juros nos próximos anos. A mediana para o fim de 2026 passou de 3,4% para 3,8%, enquanto a de 2027 avançou de 3,1% para 3,6%.
O chamado ”dot plot” também evidenciou divergências dentro do comitê sobre a trajetória das taxas. Enquanto oito dirigentes projetam a manutenção dos juros nos níveis atuais até o fim de 2026, nove ainda veem necessidade de novos aumentos ao longo do período.
No sucinto comunicado, as autoridades citaram a Guerra no Irã como um dos pontos de preocupação. No domingo, 14, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um acordo de paz com Teerã, que deve ser selado formalmente em cerimônia neste sexta, 19.
Mas o que os especialistas avaliam é que, mesmo diante do fim dos conflitos iniciados há quatro meses, as cadeias globais de suprimento tendem a permanecer pressionadas, prolongando os efeitos sobre os preços das commodities energéticas, um ponto de atenção observado pelo Fed.
"Nesse contexto, vejo pouco espaço para que o Fed adote uma postura menos contracionista no curto e médio prazo", diz Viotto. Por isso, segundo o chefe de banking da EQI, a tendência é de fortalecimento da moeda americana frente às demais divisas globais, com o real sendo impactado de forma indireta.
Decisão do Copom também influencia no dólar
Por aqui, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa de juros em 0,25 ponto percentual (p.p.), levando a Selic para 14,25%. Assim como nos Estados Unidos, todas as atenções estavam voltadas para o comunicado — que foi interpretado de forma mista pelo mercado.
Para Cristiane Quartaroli, economista chefe do Ouribank, o documento adotou tom cauteloso e não trouxe indicações claras sobre os próximos passos da política monetária.
"A decisão de agosto dependerá da evolução dos indicadores econômicos e do cenário externo até lá", afirma.
Já Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, afirma que a decisão do Copom reforçou as expectativas de novos cortes na Selic. Esse movimento tende a reduzir a atratividade dos ativos brasileiros e pressionar o dólar para cima, à medida que diminui o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. Com uma vantagem menor dos juros domésticos, o investimento em reais perde parte de seu apelo para investidores estrangeiros.
Porém, Mattos também concorda que a decisão foi pouco clara. "A decisão do Copom causou ruído ao sinalizar a continuidade do ciclo de cortes à Selic ao mesmo tempo em que reconheceu que as projeções de inflação estão acima da meta e ao utilizar um horizonte relevante para a política monetária mais alongado que o habitual".
Para o futuro, é possível que o real ganhe algum fôlego com o acordo entre EUA e Irã, previsto para ser assinado na Suíça nesta sexta-feira, 19. Caso os sinais sejam positivos, o mercado tende a voltar gradualmente sua atenção para os fundamentos macroeconômicos.
"Nesse contexto, as decisões de política monetária devem ganhar maior peso, especialmente diante de um Fed com uma nova postura e com um modus operandi diferente", diz.
De olho nos comitês, os agentes do mercado financeiro devem se mostrar mais sensíveis a dados ou falas que influenciem essas expectativas para a trajetória dos juros tanto nos EUA como no Brasil, explica o analista de inteligência de mercados da StoneX. No caso brasileiro, o ambiente político também deve passar a ter importância crescente, com as eleições entrando cada vez mais no radar dos investidores.
"O cenário atual sugere uma leve desvalorização do real frente ao dólar nos próximos meses. Além dos fatores monetários, também não se pode negligenciar o impacto da corrida eleitoral sobre o humor dos investidores e a precificação dos ativos brasileiros", destaca Viotto.
É hora de comprar dólar?
Para quem pensa em comprar dólar, o chefe de banking da EQI afirma que a decisão não deve depender apenas da cotação atual. Segundo Viotto, a moeda americana deve fazer parte de uma estratégia permanente de diversificação patrimonial, seja por meio de investimentos no exterior ou como proteção para gastos futuros. Por isso, a compra gradual de ativos dolarizados continua fazendo sentido mesmo em momentos de volatilidade.
Já para quem precisa da moeda para viagens ou despesas de curto prazo, Flávio Conde, head de ações da Levante Investimentos, recomenda cautela. Na avaliação dele, a moeda pode recuar na próxima semana caso haja avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã.
Conde acrescenta que a trajetória da inflação nos Estados Unidos será determinante para o dólar. Para ele, a queda do petróleo pode ajudar a aliviar a inflação global e reduzir a pressão sobre o Federal Reserve para manter juros elevados. Se esse cenário se confirmar, a moeda americana pode perder força frente a outras divisas, incluindo o real.
"Com o petróleo caindo e tendo realmente uma trégua entre Estados Unidos e Irã, o dólar tende a se desvalorizar, porque o mundo fica menos averso ao risco e, portanto, os investidores não precisam correr para o dólar como um porto seguro", afirma Conde.
Na EQI, a expectativa é que o cenário contribua para manter o câmbio mais próximo de R$ 5,20 por dólar do que dos R$ 5 projetados por parte dos importadores mais otimistas.
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