Fenômeno ‘BookTok’ estimula leitura entre jovens e muda mercado editorial, diz estudo
O BookTok, comunidade do TikTok que se organiza em torno de livros, tem impactado o mercado editorial e estimulado a leitura entre jovens. É o que revela o estudo BookTok Brasil: uma nova cultura de leitura, publicado pelo centro de pesquisas Reglab, especializado em tecnologia, mídia e regulação. O levantamento combinou a análise de dados digitais com observação em livrarias físicas de São Paulo para entender a dimensão offline desse fenômeno.
Dados do TikTok mostram que, em 2025, a hashtag #BookTokBrasil ultrapassou 3 bilhões de visualizações, enquanto o conteúdo literário geral na plataforma somou mais de 12 bilhões de views.
O impacto desse movimento extrapola os números, segundo a pesquisa. “Nossa investigação revelou que o BookTok pode funcionar como uma infraestrutura de descoberta literária, na qual usuários do TikTok entram em contato com histórias e títulos de livros de maneira espontânea e, por vezes, não planejada, sendo então estimulados a buscar mais informações sobre as obras e se engajar na leitura”, diz Natália Ribeiro, pesquisadora do Reglab e uma das autoras do estudo.
“Nesse sentido, a experiência ainda acaba permitindo o alcance de novos leitores, que se identificam com o conteúdo e procuram as obras”, afirma Ribeiro. Ela também aponta que a personalização de conteúdos pelo feed Para Você permite ampliar as descobertas de gêneros e autores.
De acordo com o estudo, a comunidade tem transformado a forma como livros são recomendados, reconhecidos e validados coletivamente. Os vídeos do BookTok costumam ter características comuns: a promessa de emoções (com destaque aos livros “que fazem chorar”); a exploração de elementos visuais, como capas e edições com design especial; e o destaque a afinidades e identificações com outros leitores que tendem a ter gostos semelhantes. Segundo a pesquisa do Reglab, há uma presença significativa de leitores LGBTQIAP+ dentro dessa comunidade, o que se reflete em recomendações de livros representativos desse público.
Além disso, os conteúdos aparecem em formatos característicos, como listas temáticas (Ex: "5 livros de fantasia que você precisa ler"); resenhas curtas e autênticas; e a chamada fofoca literária, em que os criadores do Booktok trazem elementos da trama com intriga e curiosidade – alimentando, em alguns casos, discussões literárias demarcadas por hashtags, como no caso #CapitutraiuounãooBentinho.
“Dentro dessa comunidade, existe um elemento importante de performance, tanto nos conteúdos em si quanto na leitura como um ato de pertencimento a esta dinâmica social”, diz Pedro Ramos, diretor executivo do Reglab. “Ainda assim, o estudo mostra que o BookTok mudou a forma como as pessoas indicam e conhecem livros, funcionando como um clube do livro com milhões de pessoas, que atinge principalmente jovens da Geração Z”.
Os efeitos desse ecossistema de recomendação também são observados no universo das lojas físicas. A pesquisa de campo feita pelo Reglab constatou que a plataforma influencia a visibilidade de títulos nos espaços físicos, a recomendação de vendedores e a própria circulação de obras quando são indicadas dentro da comunidade BookToker.
Um dos vendedores de livraria entrevistados pelo Reglab afirmou: “Quando chegam esses livros [recomendados no BookTok] nas livrarias, ficam entre os mais vendidos ou esgotados”. Até por isso, a comunidade da plataforma funciona como uma espécie de termômetro para as editoras, que monitoram o aplicativo para antecipar tendências e autores que devem entrar em alta.
“Esse efeito observável nas livrarias e editoras é mais um sinal de como o BookTok tem transformado o ato de ler, que costuma ser solitário, em uma atividade coletiva, uma experiência compartilhada”, diz Ribeiro.
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