Fim da era Powell redefine debate sobre independência do Fed nos EUA

Por Ana Luiza Serrão 11 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Fim da era Powell redefine debate sobre independência do Fed nos EUA

Jerome Powell chega ao fim de seu mandato no Federal Reserve (Fed) cercado por uma disputa que extrapolou a política monetária e virou um debate sobre independência institucional nos Estados Unidos.

Nos últimos meses, ele havia virado um alvo direto de ataques públicos e pressões por cortes de juros vindos do presidente Donald Trump.

O episódio acabou redefinindo o legado de Powell no comando do Fed, já que antes sua gestão era lembrada, principalmente, pelas medidas adotadas durante a pandemia e pela reação à disparada da inflação.

O próprio Powell chegou a afirmar que ameaças legais contra o Fed poderiam comprometer decisões tomadas com base no interesse da economia, e não em objetivos políticos do governo.

Relação com Trump deteriorou

A relação entre Powell e Trump já vinha desgastada desde o primeiro mandato do republicano, mas piorou de forma significativa após o retorno do presidente à Casa Branca.

Fontes consultadas pela agência apontam que Trump chamou Powell de "atrasado" e "idiota" por manter os juros elevados enquanto o governo tentava acelerar o crescimento econômico.

Trump defendia uma política monetária mais agressiva para estimular a atividade econômica, enquanto o Fed mantinha cautela diante dos riscos inflacionários ainda presentes na economia do país.

Powell até evitou entrar em confrontos públicos diretos durante boa parte de sua gestão, mas a postura mudou nos meses finais de mandato, quando ele passou a reagir de maneira mais firme à política.

Inflação virou principal ponto de crítica

Ainda assim, a inflação continuou sendo o principal ponto de crítica ao trabalho de Powell. O Fed encerrará o período sob seu comando com a inflação acima da meta oficial de 2% por cinco anos consecutivos.

Grande parte das críticas relatadas pela Bloomberg se concentra na leitura feita pelo banco central em 2021, quando Powell classificou a inflação pós-pandemia como "transitória".

A avaliação era de que a alta dos preços seria temporária e perderia força naturalmente com a normalização das cadeias globais de produção. O problema é que os preços continuaram subindo de maneira persistente.

Gargalos logísticos, falta de mão de obra, estímulos fiscais trilionários e o aumento da demanda após o período pandêmico acabaram pressionando ainda mais a inflação nos EUA.

Powell e suas ações na pandemia

Uma reação mais dura do Fed só veio em março de 2022, quando iniciou uma das campanhas de alta de juros mais agressivas desde os anos 1980, elevando a taxa básica em 4,25 pontos percentuais apenas naquele ano.

Powell, porém, ganhou certo reconhecimento em março de 2020. O Fed reduziu os juros para perto de zero, lançou programas emergenciais de liquidez e apoiou medidas fiscais que somaram cerca de US$ 5 trilhões.

As ações ajudaram a evitar um colapso mais profundo da economia no auge da pandemia nos EUA. A economia desacelerou após o ciclo de alta de juros, mas o desemprego não disparou como muitos analistas previam.

Transição no Fed preocupa investidores

Agora, Powell deixará a presidência do Fed, mas continuará como governador da instituição até janeiro de 2028, em uma tentativa de dificultar interferências políticas mais agressivas sobre o banco central.

A decisão é incomum e foi interpretada em Washington como uma forma de preservar a independência da autoridade monetária, de acordo com dados divulgados pela Bloomberg.

O novo indicado de Trump para a presidência do Fed, Kevin Warsh, é crítico da demora do banco central em reagir à inflação pós-pandemia. Ele classificou a resposta como um erro grave de política monetária.

A nomeação foi aprovada pelo Comitê Bancário do Senado dos EUA no dia 29 de abril e, nesta semana, deve ir para votação no plenário da Casa, onde é esperada mais uma aprovação devido à maioria republicana.

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