Fim da escala 6x1: essa cafeteria de São Paulo cresce 35% com três de folga
Enquanto o Senado discute o fim da escala 6x1, uma pequena cafeteria em São Paulo decidiu testar uma jornada mais curta: quatro dias de trabalho e três de folga. O resultado foi um aumento de 35% no faturamento desde agosto de 2025. A aposta foi feita pela Coffee Lab, fundada pela barista Isabela Raposeiras.
“O ramo de alimentos e bebidas muitas vezes é pesado, os clientes acabam sendo grosseiros com o atendente. A redução da escala também contribui para uma maior disposição e melhor atendimento da equipe”, diz Isabela em entrevista à Exame.
Como funciona a escala 4x3
Fundada em 2009, a Coffee Lab sempre adotou a escala 5 x 2. “Eu já trabalhei na escala 6x1 e ela nunca foi uma opção quando fundei o negócio próprio, porque pressupõe um abuso de mão de obra”, diz Isabela.
Como já adotavam uma escala reduzida, a transição para o formato de três folgas não foi tão desafiadora – não exigiu grandes ajustes operacionais, apenas mudanças de organização. “É um esforço de gestão, treinamento e organização de processos”, afirma.
Para que o novo modelo fosse instaurado, ela fez uma votação entre os funcionários do atendimento, e 100% dos votos foram a favor da mudança. Foram feitos novos contratos e a mudança se oficializou com a montagem da primeira escala.
O tempo de trabalho encaixa com o horário de funcionamento das cafeterias, de 9h às 18h, além do período de abertura e fechamento das lojas. As escalas variam a cada semana, sempre privilegiando dois dias seguidos de descanso, com a rotação de quem fica três dias consecutivos de folga.
No total, são 20 funcionários nas duas unidades em Pinheiros e não houve necessidade de contratar novos funcionários.
Ela conta que, no setor administrativo, a empresa ainda segue a escala 5x2, mas os funcionários têm liberdade para organizar o próprio horário. “Nos bastidores estão as pessoas que fazem a torra do café e as atividades administrativas. Se eles conseguirem realizar todas as tarefas em quatro dias, têm a liberdade de tirar o dia livre”, diz.
Além do aumento no faturamento, a mudança também trouxe impactos diretos na rotina dos funcionários. Segundo Isabela, o principal ganho foi a qualidade de vida da equipe.
Com três dias de folga por semana, os colaboradores passaram a ter mais tempo para descanso, lazer e cuidados pessoais. “As pessoas estão mais felizes, mais descansadas e mais concentradas”, afirma a empreendedora.
Para quem depende de transporte público, o benefício também é significativo — já que a equipe deixa de enfrentar um dia de deslocamento por semana, muitas vezes em trajetos longos.
A mudança também ajuda na retenção de funcionários, que passam por treinamentos de otimização e aprimoramento a cada mês, com temas que passam por métodos de preparo de café, extração de espresso e hospitalidade.
Isabela Raposeiras, fundadora da Coffee Lab: “É possível reduzir jornada e manter lucro: o segredo está na gestão detalhada e no bem-estar da equipe" (Divulgação)
Segundo Isabela, esse bem-estar tem reflexo direto na produtividade e no atendimento ao cliente, o que contribui para o crescimento de 35% no faturamento. “No ano passado, tivemos que fechar alguns dias por causa de obra e problemas de esgoto e não houve outras mudanças além da escala. Então posso associar o crescimento a essa mudança”, afirma.
No último ano, o faturamento mensal estava em cerca de R$ 500 mil — o que representa R$ 6 milhões anuais. Neste ano, a receita já se aproxima de R$ 600 mil por mês.
A expectativa da empreendedora é de que o horário de trabalho ainda possa reduzir. Segundo Isabela, se a equipe conseguir otimizar as tarefas de abertura e fechamento das lojas, será possível cortar mais uma hora de trabalho por dia e chegar a uma carga semanal de 36 horas.
Atualmente, essas atividades levam cerca de uma hora, mas seria possível reduzir o tempo. “Se conseguirmos fazer o abre e o fecha em meia hora cada, a gente consegue reduzir mais uma hora por dia”, diz. A decisão, segundo a empreendedora, depende da própria equipe.
A repercussão nas redes e o impacto nas vendas
Na última semana, Isabela compartilhou a iniciativa nas redes sociais do negócio e o caso viralizou – entre pessoas questionando o formato e outras parabenizando. “Não esperava a repercussão, o objetivo era incentivar que outros empreendedores adotassem a escala”, diz.
A publicação gerou milhares de comentários e abriu espaço para um debate sobre jornadas de trabalho no setor de serviços. Segundo a empresária, muitas pessoas também compartilharam experiências de empresas que já adotam modelos semelhantes, como as escalas 5x2 ou 4x3. “Eu não estou dizendo que é fácil, mas estou dizendo que é possível”, afirma.
O aumento do engajamento nas redes sociais também impulsionou o movimento nas lojas. No último fim de semana, após a repercussão do tema online, a unidade de Pinheiros registrou faturamento cerca de 60% maior do que a média para o período.
A demanda por jornadas mais curtas
Além de tocar as cafeterias, Isabela também presta consultoria para outros pequenos negócios do setor de alimentos e bebidas. Segundo ela, muitos empreendedores demonstram interesse em adotar jornadas mais curtas.
“A maioria já abre no 5x2, porque entende que ninguém consegue descansar com apenas um dia de folga”, diz. Para quem ainda opera em escalas mais longas, a recomendação é reorganizar processos e cardápios para tornar a operação mais eficiente.
Em cafeterias, por exemplo, ela defende que o cardápio priorize itens já preparados previamente, finalizados rapidamente no momento do pedido. “Quando você tem uma cozinha de produção e não precisa preparar tudo na hora, a operação fica mais simples”, afirma.
Como nasceu a Coffee Lab
A relação de Isabela com o café começou há mais de duas décadas. Ela passou a trabalhar profissionalmente na área em 2000 e, dois anos depois, venceu o primeiro campeonato de baristas realizado no Brasil.
A partir daí, criou uma escola voltada para a formação de profissionais do setor, inaugurada em 2004. A torrefação surgiu depois, com a proposta de selecionar e torrar cafés de pequenos produtores brasileiros.
A cafeteria veio quase por acaso. Inicialmente, o espaço era usado para degustações e atividades ligadas à escola, até que o negócio passou a atrair cada vez mais clientes. Em 2009, a empresa assumiu de vez a vocação de cafeteria.
Hoje, a Coffee Lab mantém a frente de educação e conta duas cafeterias na capital paulista.
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