Fim do minimalismo? A moda agora quer se divertir — começando pelas calças

Por Marina Semensato 15 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Fim do minimalismo? A moda agora quer se divertir — começando pelas calças

Após anos em que o minimalismo e a sobriedade do quiet luxury ditaram o tom da moda, o clima começa a mudar. Em um momento de tensão global, marcado por guerras e reviravoltas políticas, o setor parece buscar um refúgio no caminho oposto: peças leves e coloridas, com texturas exageradas, tecidos volumosos e materiais inusitados, que formam peças expressivas e divertidas.

Segundo a consultoria de tendências WGSN, 2026 deve ser o ano em que a moda se permite ser mais descontraída. Já existiam sinais dessa virada no último ano, como o retorno das estampas de animais e o revival de acessórios como boinas, lenços, cintos e broches.

"Os consumidores buscam escapismo, diversão e alegria, e essa mentalidade está cada vez mais visível no que vestem", explica Mia Jacobs, estrategista de moda jovem da WGSN, ao Financial Times. Segundo ela, esse espírito deve aparecer em materiais cada vez mais experimentais, de superfícies brilhantes ou multissensoriais.

Para a analista de tendências e criadora de conteúdo Maggie Klimuszko, o fenômeno é uma reação ao período recente dominado pelo minimalismo e pela ideia de guarda-roupa cápsula. "Esse conceito foi tão fortemente imposto aos consumidores que a sociedade chegou a um ponto de saturação", diz. "O resultado é um impulso cultural em direção à individualidade".

A mudança começa de baixo

E essa mudança tem se expressado principalmente através das calças. Em alguns casos, as peças chegam a ficar engraçadas e a lembrar objetos de decoração, com franjas, superfícies felpudas ou tecidos ricos em relevo.

As passarelas já apontavam para essa direção em 2026: nos desfiles de primavera/verão daquele ano, várias marcas mergulharam no experimental. Louise Trotter, na Bottega Veneta, apresentou peças que lembravam "peles" feitas com fibra de vidro.

Esse tipo de proposta também apareceu em coleções recentes. Nos desfiles de inverno das últimas semanas, a Chloé trouxe looks com tricôs volumosos contrastados com calças leves, enquanto a japonesa Anrealage apostou em peças mais estruturadas, mas com recortes que traziam movimento. A Zimmermann aproveitou para misturar várias coisas: uma única peça tinha renda, babados, estampas, saias sobrepostas e franjas.

Como costuma acontecer na moda, essa tendência chegou rapidamente ao varejo — no mês passado, uma calça da H&M com franjas off-white que lembram pele sintética viralizou no TikTok. Também já é possível encontrar calças com franjas por cerca de R$ 180 na Shein.

Para Blanca Miró, estilista e cofundadora da marca espanhola La Veste, a mudança tem relação direta com o desejo por roupas mais expressivas. "As pessoas procuram roupas que as façam sentir algo", afirma ao FT. "Elas querem peças divertidas, táteis e expressivas, quase como uma pequena fuga".

Isso não significa que essas calças precisam ser difíceis de usar. Para Klimuszko, a melhor forma de incorporá-las ao dia a dia é justamente equilibrar o visual. "Gosto da ideia de usar uma calça marcante de forma simples, com uma camiseta ajustada e um mocassim, por exemplo."

Além do impacto visual, tecidos mais pesados ou texturizados também trazem um benefício prático durante o inverno, quando grande parte do look fica escondida sob o casaco. Materiais como tweed, veludo ou até versões com lantejoulas discretas aparecem como porta de entrada para quem quer experimentar a tendência sem exagerar. Quem quiser seguir um caminho mais ousado, as versões com pele sintética — como as vistas na marca AKNVAS — prometem criar um verdadeiro "momento après-ski", segundo o designer Christian Juul Nielsen.

Calças viram peça-chave no guarda-roupa masculino

No universo masculino, por exemplo, peças mais largas — principalmente as calças — vêm dominando vitrines e desfiles em cidades como Paris e Milão. Segundo Sophie Jordan, diretora de compras de moda masculina do e-commerce de luxo Mytheresa, as vendas de calças masculinas cresceram 78% neste ano em relação ao anterior.

No Brasil, as tendências costumam levar mais tempo para se consolidar. Ainda assim, o movimento já começa a aparecer: o estilista Ricardo Almeida apresentou recentemente cerca de 40 looks em um desfile realizado em seu estúdio na Cidade Matarazzo, em São Paulo. Em todos eles, as calças apareciam mais leves e soltas. O mesmo ocorreu no desfile verão/2026 de João Pimenta na São Paulo Fashion Week nº 60.

Desfile João Pimenta na SPFW 2026 trouxe uma alfaiataria pensada no público brasileiro (Reprodução/Zé Takahashi/Agência Fotosite)

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