Flexibilidade ou estabilidade? Funcionários PJ querem cada vez mais benefícios de CLT
Mesmo sem carteira assinada, os profissionais contratados como PJ estão cada vez mais interessados em benefícios tradicionalmente associados ao regime CLT. Assistência médica, vale-alimentação e vale-refeição lideram a lista de prioridades desses trabalhadores, segundo o Anuário de Benefícios e Práticas Corporativas 2026, realizado pela Swile em parceria com a Leme Consultoria e apoio da Poli Júnior da USP.
O levantamento mostra uma mudança importante no comportamento dos profissionais autônomos: a busca por flexibilidade já não exclui a demanda por segurança financeira, previsibilidade e cuidado com a saúde.
Entre os entrevistados, 75% afirmam valorizar assistência médica, 62,5% destacam o vale-refeição e 60% o vale-alimentação. A assistência psicológica também aparece em alta, reforçando a consolidação da saúde mental como prioridade no mercado de trabalho.
Os dados revelam ainda que os benefícios ligados à proteção continuam no topo das preferências gerais dos trabalhadores. Assistência médica aparece como o benefício mais valorizado entre todos os respondentes, com 81,2% das menções, seguida por vale-alimentação (77,6%) e vale-refeição (72,4%).
Para Any Genovez, diretora de Legal e Compliance da Swile Brasil, esse movimento exige cautela das empresas, especialmente diante dos riscos jurídicos relacionados à contratação de profissionais autônomos.
“O primeiro e mais crucial cuidado que as empresas devem ter é não contratar um profissional autônomo para prestar serviços nos moldes da CLT, pois isso pode caracterizar fraude, e trazer muitos prejuízos em eventuais reclamações trabalhistas e fiscalizações”, afirma a executiva.
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Empresas ainda resistem a equiparar benefícios
Apesar da crescente expectativa dos profissionais PJ por mais proteção, a prática das empresas ainda é desigual. O estudo, realizado com 1.064 empresas de diferentes portes em todas as regiões do país, mostra que 36% das companhias com mais de mil funcionários não oferecem qualquer benefício a profissionais autônomos. Apenas 17% afirmam conceder os mesmos benefícios para CLTs e PJs.
Nas empresas menores, a diferença é ainda maior. Entre organizações com até 100 funcionários, 47% não oferecem benefícios para profissionais PJ e somente 9% equiparam os pacotes aos funcionários contratados pelo regime formal.
Na avaliação da diretora jurídica da Swile, a discussão vai além do modelo contratual e passa também pela retenção de talentos.
“O estudo aponta que, em um cenário de escassez de talentos, a diferenciação rígida entre CLT e PJ pode impactar diretamente o engajamento e o chamado vínculo psicológico desses profissionais com as organizações”, diz.
Any Genovez, diretora de Legal e Compliance da Swile Brasil: “O primeiro e mais crucial cuidado que as empresas devem ter é não contratar um profissional autônomo para prestar serviços nos moldes da CLT, pois isso pode caracterizar fraude” (Swile Benefícios /Divulgação)
Segurança antes de “mimos”
O levantamento também mostra que, apesar do avanço de benefícios mais modernos, como auxílio home office e mobilidade, os profissionais seguem priorizando aquilo que consideram essencial para estabilidade e qualidade de vida. Benefícios ligados a lazer, cultura, pets ou automóveis aparecem com menor relevância.
Para Genovez, as necessidades mudam conforme o modelo de trabalho e o tipo de vínculo profissional.
“Um empregado que trabalha 8 horas de segunda a sexta, com subordinação e pessoalidade, deve ter um pacote de benefícios que reflita sua necessidade de alimentação e saúde, que certamente é uma necessidade diferente de um trabalhador que desempenha seu trabalho sem habitualidade e de acordo com as suas próprias regras e horários”, afirma.
Ela também destaca que os formatos remoto, híbrido e presencial alteram diretamente as demandas dos profissionais.
“O empregado que trabalha no modelo presencial tem necessidades distintas daquele que trabalha num modelo remoto ou híbrido. Os gastos relacionados a deslocamentos são distintos, um tem a oportunidade de preparar sua alimentação e comer em casa enquanto o outro tem a necessidade de adquirir comida pronta num restaurante”, afirma.
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Debate deve avançar no STF
O avanço dos modelos híbridos de contratação também aumenta a pressão sobre as áreas jurídicas das empresas. Segundo Genovez, o tema ainda está em evolução no Brasil e segue em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF).
“O ordenamento jurídico brasileiro ainda é tradicional. O tema é quente, e está em discussão no STF, por meio do julgamento do ARE nº 1532603, Tema de Repercussão Geral nº 1389, que promete nos dar maior visibilidade do que é lícito ou não na contratação de profissionais autônomos e PJs”, afirma.
A executiva reforça que os critérios clássicos da legislação trabalhista continuam sendo decisivos para diferenciar uma relação de emprego de uma prestação de serviço.
“Os chamados requisitos do vínculo de emprego: pessoalidade, continuidade/habitualidade, subordinação e onerosidade, seguem sendo centrais para distinguir o que é uma relação de emprego, do que é uma relação de trabalho ou prestação de serviço”, afirma.
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