Fundação Lemann lança iniciativa global com vencedores do Nobel de Economia
A Fundação Lemann lança nesta quarta-feira, 25, o Lemann Collaborative, uma nova iniciativa global destinada à excelência na formulação de políticas públicas, em parceria com a Universidade de Zurique e o Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab (J-PAL). O projeto será liderado pelos economistas Esther Duflo e Abhijit Banerjee, vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2019, e terá como eixo central o uso de evidências para orientar decisões de governos.
O lançamento será celebrado em evento na Pinacoteca de São Paulo, reunindo autoridades, acadêmicos e especialistas em políticas públicas. A iniciativa nasce com ambição global, mas com foco relevante no Brasil, tanto na produção de conhecimento quanto na formação de lideranças.
Em entrevista à EXAME, Duflo e Banerjee apontaram que a proposta vai além de um centro tradicional de pesquisa. “É uma iniciativa global pela excelência em políticas públicas", afirmou Duflo. Segundo ela, o objetivo é criar uma rede colaborativa internacional. “Você precisa pensar nisso como uma forma de unir muitas pessoas trabalhando juntas para alcançar resultados positivos globalmente — e, em particular, entre o Brasil e a Suíça", disse.
A iniciativa será um esforço conjunto entre a Fundação Lemann, a Universidade de Zurique e o J-PAL — organização fundada pelos próprios economistas e referência em avaliação de políticas públicas contra pobreza.
Além da produção acadêmica, o Lemann Collaborative terá foco na formação de lideranças e na conexão entre pesquisa e implementação de políticas públicas. A iniciativa prevê bolsas, intercâmbios e programas de capacitação para gestores e pesquisadores, reforçando a estratégia da Fundação Lemann de investir em capital humano.
Com início das atividades previsto para julho de 2026, o projeto amplia a rede internacional da fundação — que já mantém parcerias com universidades como Harvard, Stanford, Columbia, Illinois e Oxford — e busca posicionar o Brasil como protagonista no uso de evidências para políticas públicas.
Brasil no centro da agenda
O Brasil terá papel central no novo projeto, tanto como objeto de estudo quanto como polo de formação. A ideia é ampliar o uso de evidências na formulação de políticas públicas em diferentes níveis de governo. “Em termos do que estamos tentando fazer e do que faremos especificamente, há naturalmente um forte foco no Brasil. A ideia é realmente ajudar a compartilhar evidências de toda a experiência da rede do J-PAL com formuladores de políticas públicas brasileiros em todos os níveis, das cidades ao governo federal", afirmou Duflo.
A ideia também é ajudar estudantes e pesquisadores brasileiros a se tornarem participantes ativos da iniciativa e das metodologias dos professores, seja por meio de cursos online ou presenciais. O plano inclui formação de pesquisadores e gestores públicos, com parcerias já em andamento com instituições brasileiras.
“Acontecerá trabalhando com instituições de ensino superior no Brasil, incluindo o Insper, ou a Escola Nacional de Administração Pública (Enap), com quem assinamos um memorando de entendimento na semana passada para treinar estudantes no tipo de trabalho que estamos fazendo", disse a economista.
Além disso, o projeto prevê programas de mestrado, educação executiva e bolsas para brasileiros estudarem na Suíça. Segundo Denis Mizne, CEO da Fundação Lemann, o fortalecimento das políticas públicas no Brasil passa, necessariamente, pela produção e aplicação de conhecimento de excelência.
"Por isso, há mais de duas décadas apoiamos o desenvolvimento de lideranças, conectando talentos brasileiros a universidades e centros de excelência no exterior. A construção de iniciativas como o Lemann Collaborative, em Zurique, se soma a outras parcerias internacionais e reflete essa visão de preparar lideranças diversas e engajadas para enfrentar os principais desafios do país, especialmente na educação, com base em conhecimento de ponta e impacto real e escalável”, afirmou Mizne, em nota.
Um país “à frente” em uso de dados
Na avaliação de Banerjee, o Brasil já parte de uma posição avançada no uso de dados para políticas públicas — um diferencial importante para o sucesso da iniciativa. “Tendo estado e trabalhado em muitos países, eu diria que o Brasil é um país muito avançado. Um país em que há dados bons e independentes e instituições independentes que olham para esses dados", afirmou Banerjee, em entrevista à EXAME.
Ele citou evidências concretas de impacto do uso de informação por gestores públicos. “Houve um estudo conduzido por pesquisadores do J-PAL no qual prefeitos de diferentes cidades do Brasil foram aleatoriamente selecionados para receber informações sobre o que funciona. Houve um aumento de 33% na adoção desse tipo de programa”, disse o economista.
Duflo reforçou a percepção de qualidade dos dados brasileiros: “Agora que está difícil obter dados nos Estados Unidos, todos os economistas americanos de comércio e de trabalho estão começando a trabalhar com o Brasil, porque o país é conhecido por ter dados de excelente qualidade."
Bolsa Família: sucesso com espaço para evolução
Ao analisar políticas públicas brasileiras, os economistas destacaram o Bolsa Família como um caso de sucesso, mas com potencial de aprimoramento. “O Bolsa Família foi um enorme sucesso no Brasil em relação ao seu objetivo imediato, que era reduzir a pobreza extrema”, afirmou Duflo.
Banerjee destacou que a qualidade dos dados sobre o programa permitiu avaliações robustas mesmo sem experimentos controlados. “O fato de os dados serem muito bons fez com que avaliações não randomizadas ainda fossem viáveis”, disse o pesquisador.
Para os dois, o debate não deveria ser sobre manter ou extinguir o programa, mas sobre sua evolução.
“Acho que seria muito mais útil começar a pensar no que seria o Bolsa Família 2, 3 ou 4”, afirmou Banerjee.
Clima e inovação em políticas públicas
Entre as frentes de pesquisa, o Brasil aparece como laboratório relevante para políticas ligadas às mudanças climáticas. Duflo citou como exemplo a ideia de transferências automáticas em eventos extremos. “Uma das coisas que temos tentado incentivar é o que chamamos, na verdade, de ‘Pix do Clima’, transferências automáticas para famílias em períodos de calor extremo”, disse Duflo.
Segundo ela, o mecanismo pode funcionar como um seguro automático e com menor custo administrativo.
“Isso acaba funcionando como uma espécie de seguro automático em momentos adversos e, ao mesmo tempo, ajuda as regiões mais afetadas pelo clima de uma forma comparável ao Bolsa Família. Tem custos administrativos muito menores e pode ajudar as pessoas a se adaptar e a lidar com as mudanças climáticas. Portanto, é algo que gostaríamos muito de ter a oportunidade de testar em projetos-piloto", afirmou a pesquisadora.
Além disso, Duflo e Banerjee estudam uma iniciativa de transferências automáticas para comunidades, na forma de blocos de recursos (chamados de block grants), especialmente para aquelas mais afetadas pelo clima, com o objetivo de ajudá-las a se adaptar e investir em infraestrutura de adaptação.
Nobel de Economia
Banerjee, Duflo e o americano Michael Kremer foram premiados com o Prêmio Nobel de Economia de 2019 em razão da maneira experimental que criaram para aliviar a pobreza global. "Os premiados deste ano introduziram uma nova abordagem para obter respostas confiáveis sobre as melhores formas de combater a pobreza global", frisou a academia ao apresentar os escolhidos à época.
BREAKING NEWS:The 2019 Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel has been awarded to Abhijit Banerjee, Esther Duflo and Michael Kremer “for their experimental approach to alleviating global poverty.”#NobelPrize pic.twitter.com/SuJfPoRe2N
— The Nobel Prize (@NobelPrize) October 14, 2019
Naquele momento, Duflo se tornou a segunda mulher ganhadora do Nobel de Economia nos 50 anos de história do prêmio — além da mais nova, aos 46 anos.
O comitê Nobel ressaltou as novas abordagens adotadas por eles para buscar os melhores caminhos para o combate à pobreza global, com foco em aspectos concretos e manejáveis, como a busca das intervenções mais eficazes para melhorar a saúde infantil e a educação. Concentrados em campos concretos, os pesquisadores encontraram métodos mais eficazes para resolver problemas específicos.
Na prática, o trabalho deles representou uma mudança de paradigma na forma de estudar — e formular — políticas públicas para combater a pobreza. Os economistas ajudaram a consolidar o uso de experimentos randomizados (os chamados randomized controlled trials, ou RCTs) na economia do desenvolvimento.
Na prática, em vez de depender apenas de análises teóricas ou correlações observacionais, os pesquisadores testam políticas públicas na prática, comparando grupos semelhantes que recebem — ou não — determinada intervenção. Isso permite identificar com mais precisão o que de fato funciona — ou inferir causalidade aos programas estudados.
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