Fundador da maior empresa privada da China diz que robôs vão substituir 700 mil entregadores

Por Tamires Vitorio 22 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Fundador da maior empresa privada da China diz que robôs vão substituir 700 mil entregadores

Richard Liu, fundador e presidente do conselho da JD.com, uma das maiores empresas de comércio eletrônico da China, afirmou neste domingo que robôs vão substituir os 700 mil entregadores da companhia "mais cedo ou mais tarde".

A declaração, feita no Fórum de CEOs da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em Pequim, expõe a tensão entre a adoção acelerada de tecnologia no país e o já fragilizado mercado de trabalho chinês.

"No futuro, quando os robôs estiverem entregando pacotes, mais cedo ou mais tarde, vai chegar um dia em que os entregadores basicamente não serão mais necessários", disse Liu, segundo o Financial Times. "Vai ser definitivamente robôs entregando pacotes. Mas eu realmente não quero que nossos 700 mil irmãos fiquem sem comida, sem emprego."

Um plano de requalificação em andamento

Para lidar com a transição, a JD.com já firmou contratos com cerca de 120 escolas para requalificar parte de seus entregadores para novas funções, como manutenção e reparo de robôs.

Liu argumentou que esses empregos vão se tornar comuns, já que "robôs são máquinas... eles sempre, em algum momento, vão ter defeitos".

A iniciativa de requalificação integra o chamado Projeto Nirvana, anunciado pela companhia em maio.

Segundo a agência BigGo Finance, a meta da JD.com é converter cerca de 10 mil trabalhadores braçais em técnicos de manutenção de robôs em três anos — o equivalente a apenas 2% da base atual de 500 mil funcionários de funções operacionais.

O pano de fundo financeiro

A promessa de proteger empregos ocorre em um momento delicado para as finanças da empresa.

O lucro líquido da JD.com despencou 53% no primeiro trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior, para 5,1 bilhões de yuans (cerca de US$ 752,6 milhões), segundo o balanço da companhia.

Ainda assim, os custos anuais com a folha de pagamento de seus quase 900 mil funcionários somam cerca de 120 bilhões de yuans (US$ 17,7 bilhões).

Apesar da queda no lucro, Liu já havia dito, em discurso interno vazado em maio, que nenhum funcionário deslocado por robôs seria demitido — e chegou a declarar que a JD.com continuará sendo a maior empregadora privada da China dentro de 20 anos.

A empresa já opera o que descreve como a primeira estação de entrega totalmente automatizada do mundo, integrando drones, veículos autônomos e robôs domésticos capazes de depositar encomendas em residências por meio de fechaduras inteligentes autorizadas.

Um problema que vai além de uma empresa

O número de trabalhadores informais na China — empregados temporários em funções como fábricas, motoristas de aplicativo e entregadores — deve chegar a 320 milhões de pessoas este ano, contra 200 milhões há cinco anos, segundo o Centro de Pesquisa de Novas Formas de Emprego da China.

Esses trabalhadores já representam cerca de 40% de todo o emprego urbano do país.

A ameaça da automação a empregos de baixa qualificação — e da inteligência artificial a cargos de escritório — ocorre num momento em que o desemprego entre jovens chineses chegou a 16,3% em abril, segundo dados oficiais do governo.

Em resposta, o Ministério de Recursos Humanos e Segurança Social da China afirmou em março que o governo está "explorando formas eficazes" de ampliar a cobertura de seguridade social para esses trabalhadores, além de acompanhar o surgimento de novas profissões, como treinadores de inteligência artificial e pilotos de drone.

A organização Human Rights Watch pediu que o governo chinês proteja os direitos desses trabalhadores, conforme previsto na convenção da Organização Internacional do Trabalho sobre "Trabalho Decente na Economia de Plataformas", aprovada pela China neste mês. "Promessas no papel vão significar pouco, a menos que os trabalhadores possam se organizar, se manifestar e responsabilizar tanto as plataformas quanto o governo", afirmou a entidade.

A automação já é realidade na operação da JD.com

A JD.com não é uma espectadora nesse debate: já é uma das empresas mais avançadas do país em automação logística. A companhia abriu, em 2018, um armazém totalmente automatizado capaz de processar 200 mil pedidos por dia com apenas quatro funcionários humanos, todos dedicados à manutenção dos próprios robôs. A divisão de logística da empresa também já usa modelos de inteligência artificial para otimizar rotas e opera veículos autônomos, drones e robôs entregadores em escala em diversas cidades chinesas.

A automação no setor de transporte é uma prioridade declarada do governo chinês, que colocou a robótica no centro de seu próximo plano quinquenal, aprovado oficialmente em março. Segundo a Federação Internacional de Robótica, o plano chinês busca redirecionar a pesquisa em inteligência artificial para aplicações físicas, com robôs como principais motores de crescimento econômico.

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