Fundos de ações renderam mais no 1º tri — não tanto quanto o Ibovespa

Por Clara Assunção 14 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Fundos de ações renderam mais no 1º tri — não tanto quanto o Ibovespa

Os fundos de ações e multimercados encerraram o primeiro trimestre de 2026 com desempenho majoritariamente abaixo de seus referenciais de mercado, em um cenário de forte volatilidade global, pressão geopolítica e aumento de pedidos de recuperação extrajudicial de empresas, de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Mesmo com alguns destaques pontuais dentro das categorias, os retornos não acompanharam os principais benchmarks, como o Ibovespa e o Certificado de Depósito Interbancário (CDI), e os resgates voltaram a ganhar força em março, refletindo a piora do ambiente para a indústria de fundos.

Nos fundos de ações, a classe registrou a maior rentabilidade média do período, de 10,7%, mas ainda assim ficou abaixo do Ibovespa, que avançou 16,3% no trimestre.

O destaque positivo dentro da categoria foi dos fundos de "ações índice ativo", com alta de 13,9%, o melhor desempenho entre os tipos, embora também insuficiente para superar o índice de referência. Já os fundos de "ações livre" tiveram retorno de 6,4%, enquanto os de "ações investimento no exterior" praticamente ficaram estagnados, com avanço de apenas 0,2%.

Apesar da rentabilidade relativamente elevada na comparação histórica da classe, o comportamento dos fluxos seguiu pressionado. Os fundos de ações registraram resgates líquidos de R$ 6,4 bilhões no acumulado até março, ainda assim, um resultado bem menos negativo do que o observado no mesmo período de 2025, quando as saídas somaram R$ 32,4 bilhões.

Ao mesmo tempo, a indústria mostrou expansão estrutural, o patrimônio líquido da classe cresceu 25,9% em 12 meses, alcançando R$ 709,5 bilhões em fevereiro de 2026, acompanhado por aumento no número de contas de investidores pessoas físicas.

O cenário de multimercados também refletiu a deterioração de parte das estratégias no trimestre. A classe teve rentabilidade média de 1,7%, abaixo do CDI, que ficou em 3,4% no período. Entre os subsegmentos, os fundos "trading" foram os que mais se destacaram, com retorno de 2,7%, ainda assim insuficiente para superar o benchmark de curto prazo.

Na outra ponta, os fundos de "multimercados investimento no exterior" registraram desempenho negativo de -1,1%. O IHFA, índice que mede a performance dos hedge funds da Anbima, praticamente ficou estável, com avanço de apenas 0,05% no acumulado do ano até março.

A captação da classe multimercados foi positiva no trimestre, com entrada líquida de R$ 11,2 bilhões, mas cerca de R$ 11 bilhões desse total estão concentrados em um único fundo do tipo "multimercado investimento no exterior". O patrimônio líquido total da classe permaneceu estável em R$ 1,5 trilhão.

Março foi mais desafiador para os fundos de ações e multimercados

O mês de março, em especial, foi apontado pela Anbima como mais desafiador para a indústria. A combinação entre volatilidade nos mercados globais, impactos da guerra no Oriente Médio e episódios de estresse corporativo contribuiu para deteriorar a performance e intensificar os resgates, especialmente em estratégias mais sensíveis a risco.

Para o diretor da Anbima, Pedro Rudge, o principal choque para os fundos ocorreu justamente na fase inicial de volatilidade, quando as posições estavam desalinhadas com o novo cenário macroeconômico.

"O impacto inicial foi maior porque muitos dos fundos estavam posicionados para uma expectativa de queda de juros. E aí, depois dessa primeira volatilidade, muitos ajustaram suas carteiras e estratégias", afirmou Rudge.

Segundo o diretor, o choque de preços, especialmente com a alta do petróleo e a reprecificação de juros, foi determinante para o desempenho mais fraco observado em março. "A maioria das carteiras estava posicionada para um movimento de queda de juros e não estava no radar esse aumento de preço de petróleo tão impactante. Foi o maior impacto que vimos no mês de março", disse.

Pior momento, porém, pode ter ficado para trás

Apesar do cenário ainda incerto, Rudge avalia que o pior momento de ajuste pode ter ficado para trás, ainda que a volatilidade siga presente. "O impacto tende a ser menor agora porque muitos gestores já ajustaram suas exposições. Mas o ambiente de maior incerteza ainda traz dispersão de retornos nas próximas semanas e meses", acrescentou.

Ele também destacou que o desempenho abaixo de benchmarks como o CDI não é, necessariamente, uma anomalia estrutural em determinadas classes, especialmente em fundos conservadores e multimercados com maior custo ou complexidade operacional. "O fundo de renda fixa, ele intrinsecamente vai dar abaixo do CDI porque ele tem taxa, tem custo. Isso não é surpresa", afirmou.

No caso dos multimercados e ações, segundo ele, o momento é de maior pressão competitiva e necessidade de diferenciação entre gestores. "Os gestores estão passando por um momento mais desafiador e precisam se provar para que a captação volte", disse.

Ainda assim, o diretor da Anbima reforça que a fotografia agregada da indústria esconde diferenças relevantes entre estratégias. "Não é que todo fundo de ações e todo fundo multimercado esteja naquela média. Existem casas que conseguem oferecer bons retornos e proteção. Mas, quando a gente olha o agregado, várias classes passam por um momento mais conturbado".

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