Fundos reforçam fundamentos e evitam 'apostas binárias' na eleição do Brasil

Por Clara Assunção 9 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Fundos reforçam fundamentos e evitam 'apostas binárias' na eleição do Brasil

A proximidade das eleições gerais de 2026 já aparece no radar dos gestores de ações no Brasil, ainda que, segundo eles, o cenário político não esteja plenamente refletido nos preços dos ativos.

Diante de um ambiente marcado por incerteza, excesso de informação, mudanças rápidas no cenário macro e, há pouco mais de um mês, uma guerra, a estratégia predominante de algumas das principais casas do país tem sido "reduzir a dependência de apostas binárias e reforçar a análise de fundamentos".

Para André Lion, sócio e gestor de potfólio da Ibiuna Investimentos, o principal desafio hoje está na filtragem das informações que chegam ao mercado. "A nossa grande obrigação é fazer a separação do que é sinal e o que é ruído", afirmou. A visão do gestor foi compartilhada em evento do Bradesco BBI nesta terça-feira, 7, em São Paulo.

Segundo Lion, a evolução tecnológica e o barateamento do acesso à informação ampliaram o volume de dados disponíveis, mas também aumentaram a volatilidade de curto prazo. "Ruído é ruído, fica lá fazendo volatilidade no mercado, mas o que é sinal é o que realmente a gente tem que tomar decisão".

"Você tem que entender profundamente o ativo, mas você tem que ter uma área de segurança", disse o gestor da Ibiuna. Para ele, o ambiente atual exige capacidade de adaptação, diante de mudanças rápidas nos fatores que movem o mercado. "Não podemos pode manter a cabeça que tinhamos em janeiro achando que é tudo igual. Aquele cenário no mundo não existe mais".

Apesar das incertezas, o gestor vê espaço para alocação em Brasil. "O Brasil hoje tem uns 20% a 25% de desconto em relação à média que o próprio Brasil tinha", afirmou. Ao mesmo tempo, destacou a mudança recente no cenário global, especialmente com o impacto da guerra sobre os preços de energia, que levou a casa a aumentar a exposição no setor de óleo e gás.

Estratégia diante das eleições: portfólio equilibrado

Se por um lado o foco está nos fundamentos, por outro as eleições seguem como um fator relevante de risco. "Eleição é um evento binário: você pode ganhar muito, mas você também pode perder muito",  afirmou Sara Delfim, sócia da Dahlia Capital.

Diante disso, a gestora evita apostas concentradas. "Não dá para ir ‘all-in’", disse a investidores e executivos durante o evento do Bradesco.

A estratégia, segundo Delfim, combina uma carteira de empresas resilientes com o uso de derivativos para capturar cenários específicos. "Temos uma carteira de ações que podem se beneficiar de um cenário de mudança [no atual governo], mas que também, se não houver mudança política, nada muda significativamente na vida dessas empresas".

O posicionamento mais direcional fica concentrado no mercado de opções. "Você tem ali um nível de perda que é calculado e, se der certo, você pode ganhar bastante", afirmou. "A gente usa o mercado de opções para, de fato, fazer uma aposta mais direcional, mas ter um nível de perda bem controlado e previsível".

Na mesma linha, Rodrigo Santoro, head of Equities da BRAM, destaca a construção de portfólios mais equilibrados para atravessar o período de incerteza. "Temos optado por ter uma carteira mais equilibrada, com exposição em energia e com boas empresas, com bons balanços", disse. Segundo ele, esse perfil tende a performar tanto em um cenário de juros elevados quanto em um eventual ciclo de queda.

O gestor também vê oportunidades em empresas com capacidade de repasse de preços. "No cenário inflacionário vão ter capacidade de repassar preços adiante, mas também vão se beneficiar no movimento de fechamento da curva de juros".

Além disso, Santoro diz que a casa mantém parte do portfólio em caixa para aproveitar momentos de maior volatilidade. "As oportunidades, sem dúvida, vão aparecer nesses momentos".

Estatais estão precificadas, diz gestor

Para André Caldas, sócio e gestor de ações na Springs Capital, o atual ciclo eleitoral apresenta uma dinâmica diferente de pleitos anteriores, especialmente no caso das estatais.

"Em outras eleições, os ativos estatais tinham descontos muito grandes, esse cenário hoje não é verdade", afirmou no evento. Segundo o gestor, empresas como Petrobras já estão “razoavelmente precificadas”, o que reduz o potencial de ganhos associados apenas ao resultado eleitoral.

Na sua avaliação, o principal canal de transmissão da política para o mercado está na curva de juros. “Num caso de centro-direita, tem um fechamento brutal [da curva], e isso vai se refletir na bolsa também”, disse, indicando que o impacto tende a ser mais amplo, via custo de capital, do que concentrado em empresas específicas.

Na visão de Caldas, os títulos públicos atrelados à inflação (NTNs) capturam melhor o prêmio de risco político e um eventual cenário de queda de juros do que as ações individuais neste ciclo.

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