Fundos tem melhor 1⁰ trimestre em cinco anos e captam R$159 bi
A indústria de fundos de investimento abriu 2026 com forte captação para um primeiro trimestre, mesmo em meio a um cenário de maior incerteza nos mercados. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a captação líquida somou R$ 159,2 bilhões no primeiro trimestre, o maior volume para o período nos últimos cinco anos e bem acima dos R$ 8,3 bilhões registrados nos três primeiros meses de 2025.
Entre janeiro a março deste ano, a indústria já superou a captação líquida de anos completos, como no ano passado, quando o total captado foi de R$ 137,3 bilhões, e de 2024, de R$ 124 bilhões. O movimento nesse primeiro trimestre também mostra uma forte reversão em relação à saída líquida observada em 2023, de cerca de R$ 75 bilhões.a
O dado chama ainda mais atenção porque o trimestre foi marcado por um ambiente desafiador, especialmente em março.
A eclosão da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã elevou o risco global, pressionou o preço do petróleo, com o tipo Brent, referência mundial, acima de US$ 100, e trouxe temores sobre inflação e crescimento econômico global.
No Brasil, o período também foi marcado pelo primeiro corte de juros em dois anos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), mas em um contexto de expectativas mais cautelosas para a trajetória da Selic.
O que está por trás dessa captação recorde dos fundos?
Para Pedro Rudge, diretor da Anbima, parte relevante dessa captação é explicada por uma realocação de recursos após a atuação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
"Apesar de todo esse momento desafiador, a indústria ainda assim foi capaz de atrair mais de R$ 150 bilhões. Uma parte disso pode ser explicada pelos pagamentos do FGC relacionados aos bancos que foram liquidados, o Master, o Willbank e o Pleno", afirmou durante coletiva à imprensa nesta segunda-feira, 13, sobre os dados.
"Os investidores receberam quantias relevantes que estavam aplicadas em CDBs e precisaram realocar esses recursos. Possivelmente, uma parte importante migrou para fundos, principalmente os mais conservadores", acrescentou.
Em meio a esse recorde de captação, a renda fixa foi o principal motor da indústria no período. A classe captou R$ 130,3 bilhões até março, com destaque para fundos de baixa duração e crédito livre, que concentraram R$ 61,8 bilhões.
Segundo o diretor da Anbima, em um ambiente de incerteza, esses produtos mais conservadores ganharam protagonismo, combinando liquidez, previsibilidade e retorno competitivo, com rentabilidade média de até 3,4% no trimestre em alguns casos. Os dados mostram ainda que a recuperação dos ativos foi mais ampla, ainda que desigual entre as classes.
Os fundos multimercados voltaram ao campo positivo, com captação líquida de R$ 11,2 bilhões no trimestre e rentabilidade média de 1,7%, sinalizando uma retomada gradual após um período mais desafiador.
Já os ETFs, fundos de índice, registraram entrada de R$ 17,8 bilhões, sendo a maior parte, R$ 15,5 bilhões, direcionada para estratégias de renda fixa, reforçando a preferência do investidor por menor risco no período.
Por outro lado, os fundos de ações seguiram na contramão em termos de fluxo. Apesar de liderarem em rentabilidade, com ganho médio de 10,7% no trimestre, a classe teve resgates líquidos de R$ 6,4 bilhões. Ainda assim, o patrimônio líquido desses fundos cresceu 25,9% em 12 meses, refletindo a valorização dos ativos.
Rudge destacou que essa diferença reflete o momento do ciclo. "O período mais desafiador é para as classes mais arriscadas, que ainda vêm de um ambiente difícil nos últimos meses. Mas elas já mostram sinais de melhora", disse.
O que esperar da indústria de fundos
Para os próximos trimestres, a tendência é de normalização gradual, ainda que cercada de incertezas. "Quando a gente olha para frente, ainda há dúvidas importantes: a guerra, a velocidade de queda dos juros e as eleições no Brasil. Mas os fundos estão se recuperando. Os fundos de ações tiveram uma performance interessante no trimestre, e os multimercados também começam a reagir", afirmou.
Na avaliação do diretor, esse movimento pode abrir espaço para uma mudança no comportamento do investidor. "A tendência, ao longo dos próximos meses, é uma realocação gradual de produtos mais conservadores para instrumentos um pouco mais arriscados. A aversão ao risco deve diminuir, mas o ritmo dessa mudança vai depender desses fatores macro", finalizou.
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