Gestora do ano no prêmio Melhores do Mercado, SPX surfou em alta inesperada da bolsa
A Asset do Ano do Prêmio Melhores do Mercado 2026 parte de uma filosofia simples, mas trabalhosa: o cuidado para não perder o foco. “Isso explica muito da nossa performance recente”, afirma Daniel Schneider, um dos três pilares fundadores da SPX ao lado de Rogério Xavier e Bruno Pandolfi. O ano passado foi de rearranjos estratégicos para a gestora. A SPX desistiu de criar produtos com mandatos próprios para investidores institucionais, mas não deixou de atender a esse tipo de cliente. Pelo contrário. “A gente aumentou a quantidade de institucionais da nossa base e continuamos bastante ativos”, disse Schneider à EXAME em um fuso horário bem adiantado. Eram quase 3 da manhã em Abu Dhabi.
Esse foi o principal marco da gestora em 2025: a abertura de um escritório próprio nos Emirados Árabes. Para Schneider, o Oriente Médio deixou de ser uma fronteira distante para se tornar o epicentro da liquidez mundial. O sócio da SPX diz que, em um mundo cada vez mais fragmentado, a região se diferencia pela ausência de “viés doméstico” na alocação. “Afinal de contas, todo mundo que está aqui é estrangeiro.” A casa optou por fazer uma atuação in loco, e não à distância. “A presença física faz diferença. O investidor se pergunta ‘quem que está aqui comigo toda hora? Quem que foi jantar comigo ontem?’ A SPX.”
A SPX enfrentou resgates bilionários em 2024 e ganhou traquejo para enfrentar a maré de volatilidade e incerteza que foi o ano passado, com cenário de juros altos e incertezas relacionadas ao futuro da política fiscal. O contexto não era dos mais favoráveis para apostar em ações, mas o feeling de que a bolsa brasileira estava barata demais foi o pulo do gato que levou a gestora a tomar esse risco que poucos estavam dispostos a assumir.
“A gente entrou num mercado por achar que tudo estava muito barato, mesmo não estando otimista na época. Mas o preço falou mais alto e achamos que as condições técnicas estavam muito boas”, afirma Leonardo Linhares, gestor por trás dos três fundos que ficaram em primeiro lugar em categorias da premiação Melhores da Exame: SPX Hornet (Long Short), SPX Falcon (Long Bias) e SPX Patriot (Long Only). “Estavam todos pessimistas. O local, o estrangeiro”, lembra o gestor. “Havia muita gente muito machucada que tinha errado, principalmente no segundo semestre de 2024. A gente estava com a cabeça muito boa”, complementa. Confira, a seguir, trechos da entrevista do gestor à EXAME.
Para além dos dados de tela, existiu algum sinal “subliminar” ou de bastidores que fez a SPX perceber que o apetite dos investidores globais pelo Brasil estava mudando?
Os indícios estavam lá e a gente começou a notar sinais importantes por canais fora do Brasil. Em 2025, a gente nunca teve tanta consulta de estrangeiro para fazer mandato long only. Eu mesmo conversei com vários deles; eram consultas vindas dos Estados Unidos, de Endowments e de Family Offices. Isso acaba sendo um indicador muito relevante: quando o investidor estrangeiro começa a ligar e perguntar, mesmo que ele ainda não tenha fechado o investimento, já é um sinal para ficarmos mais atentos. A gente estava preocupado com muitas questões internas, mas o estrangeiro estava olhando para cá com interesse em fazer mandatos de longo prazo, o que era um sinal de que havia algo mudando na percepção de valor do Brasil.
A bolsa brasileira iniciou o ano com um rali expressivo que chamou a atenção de todo o mercado. Esse movimento estava no radar de vocês ou surpreendeu?
Eu fui surpreendido. A gente teve uma entrada recorde de dinheiro, mais 30 bilhões de reais no ano. Sendo sincero, eu não via algo desse tamanho e não vi essa possibilidade de ganho, não vi mesmo. Neste início de ano a gente descolou, e o tamanho do fluxo está sendo tão grande que ele passa por cima de todas as preocupações internas, seja a discussão fiscal, seja a própria discussão de eleição. Para mim foi uma surpresa a magnitude da alta, a quantidade de dinheiro, e acho que surpreendeu quase todo mundo.
O mercado tem falado muito em uma realocação global de capital, com recursos saindo dos Estados Unidos em direção a mercados como o Brasil. De que forma as dúvidas sobre o retorno da inteligência artificial e as incertezas do governo Trump estão impulsionando esse movimento?
O que a gente viu foi um movimento de diversificação de ativos; os investidores têm muitos dólares em seus portfólios porque a bolsa americana foi a grande vencedora das últimas décadas. Mas o prêmio histórico do S&P em relação aos outros mercados parecia muito elevado, um mercado caro. Quando você junta isso com a discussão de IA, percebe que estamos entrando numa parte mais perigosa desse ciclo. O mercado não duvida de que o investimento será feito, mas começa a questionar o retorno: saímos de um capex estimado de 200 bilhões de dólares para 800 bilhões de dólares em poucos anos. Essa incerteza ajuda no movimento de saída para outros locais. Soma-se a isso o governo Trump e uma política externa extremamente incerta ou não previsível, o que faz com que quem está “cheio de dólar” repense a alocação. O Brasil acaba fechando bem nessa narrativa porque, além de ser um produtor de commodities, parece barato no valor bruto quando o investidor estrangeiro olha para cá.
Qual é o impacto real da expectativa de queda de juros para a bolsa brasileira? Isso deve ser o gatilho para a volta do investidor local?
O estrangeiro, quando olha para os juros, acha primeiro positivo, porque ajuda pelo lado do balanço das empresas e aumenta as chances de haver uma animação e entrada de fluxo em bolsa. Mas a notícia ruim, que eu vejo, é que a gente ainda vai terminar esse ciclo, provavelmente, com juros nominais ainda bem elevados, de 11% a 12%. Então, se você me perguntar se essa queda de juros vai fazer com que haja uma volta relevante ou muito grande do investidor local, eu acho que não. Ele está bem machucado pelos últimos anos e vai ser muito mais sensível à discussão de eleição e ao cenário eleitoral do que o estrangeiro. Além disso, em 2027, o governo que for eleito vai ter que dar algum endereçamento à sustentabilidade da dívida e da discussão fiscal.
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