Google ameaça trono da Nvidia como empresa mais valiosa do mundo
A corrida pela inteligência artificial (IA) parecia resolvida até recentemente. A Nvidia fabricava os chips mais disputados do planeta, abastecia OpenAI, Microsoft, Meta e Google, e acumulava valor de mercado em uma velocidade inédita em Wall Street.
Agora, o mercado começou a fazer outra pergunta: quem ganha mais dinheiro com a IA — quem vende os chips ou quem transforma a tecnologia em produto?
Os resultados da Alphabet no primeiro trimestre colocaram essa discussão no centro do Vale do Silício. No período, a controladora do Google registrou lucro líquido 81% maior na comparação anual e receita total de US$ 109,9 bilhões, superando em US$ 2,7 bilhões as projeções. As ações subiram 10% após o balanço.
Agora, nesta quinta-feira, 7, a diferença de valor de mercado entre as duas, que chegava a US$ 600 bilhões no início do ano, encolheu para cerca de US$ 330 bilhões, segundo os números mais recentes. Às 12h11, o Google era avaliado a US$ 4,8 trilhões, enquanto a Nvidia chegava a US$ 5,13 trilhões.
Na terça-feira, 5, a Alphabet chegou a ultrapassar brevemente a Nvidia nas negociações após o fechamento do mercado. O Google atingiu valor de mercado de US$ 4,83 trilhões, contra US$ 4,80 trilhões da rival, antes de a fabricante de chips recuperar a liderança.
A última vez que o Google ocupou o topo global foi em 2016. Naquele momento, a IA generativa ainda era restrita a laboratórios acadêmicos.
O mercado mudou a narrativa da IA
A ascensão da Nvidia virou símbolo da explosão da inteligência artificial. A empresa de Jensen Huang passou anos construindo domínio quase absoluto sobre o mercado de GPUs para data centers — os processadores usados para treinar modelos avançados de IA.
Esse domínio transformou a Nvidia na companhia que mais rapidamente acumulou valor na história recente do mercado americano. Em menos de três anos, a empresa saiu de cerca de US$ 360 bilhões em valor de mercado para mais de US$ 5 trilhões.
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A lógica era a de que, sem chips, não existe IA. Só que a nova leitura de Wall Street começa a separar duas camadas do setor. De um lado estão as empresas que fornecem infraestrutura. Do outro, as que conseguem transformar IA em receita recorrente.
E é justamente nessa segunda camada que o Google começou a ganhar força.
Google Cloud vira protagonista
O dado mais importante do trimestre da Alphabet não foi o lucro recorde nem a receita consolidada, mas o desempenho do Google Cloud.
A divisão cresceu 63% em relação ao mesmo período de 2025 e ultrapassou US$ 20 bilhões em receita trimestral pela primeira vez.
O crescimento acelerou em relação ao trimestre anterior, quando havia avançado 48%.
Segundo o CEO Sundar Pichai, as soluções corporativas baseadas em IA se tornaram o principal motor do negócio de cloud pela primeira vez.
A carteira de contratos futuros da divisão chegou a US$ 460 bilhões, quase o dobro do trimestre anterior. O dado mostra que a demanda já contratada por serviços de IA segue em expansão.
A receita de produtos construídos sobre modelos generativos cresceu quase 800% na comparação anual.
O Gemini Enterprise, plataforma corporativa de IA do Google, também avançou rapidamente. O número de usuários ativos pagantes cresceu 40% em apenas um trimestre.
Os números reforçam uma percepção crescente entre investidores: enquanto parte do mercado ainda aposta na infraestrutura da IA, o Google começou a monetizar aplicações em larga escala.
Em 2025, a Alphabet registrou receita anual de US$ 402,8 bilhões. A Nvidia fechou seu último ano fiscal com US$ 215,9 bilhões.
A diferença nos lucros líquidos é menor: US$ 132,2 bilhões para a Alphabet e US$ 120,1 bilhões para a Nvidia.
Nvidia ainda domina a infraestrutura
A mudança de percepção do mercado não significa enfraquecimento da Nvidia, já que a empresa segue dominante na corrida por chips avançados de IA. No trimestre mais recente, registrou US$ 68,1 bilhões em receita, com crescimento de 75% na divisão de data centers.
A expectativa de analistas é que o próximo balanço, marcado para 20 de maio, mostre receita próxima de US$ 78 bilhões.
O recuo recente das ações ocorreu após reportagens indicarem que a OpenAI, uma das principais clientes da Nvidia, ficou abaixo de metas internas de crescimento e faturamento.
Receita Q1US$ 68,1 bi
Data centers+75% a/a
Market share GPUs~80%
Próximo balanço20 mai
Receita Q1US$ 109,9 bi
Google Cloud+63% a/a
Lucro líquido+81% a/a
Backlog cloudUS$ 460 bi
O episódio reacendeu dúvidas sobre o ritmo de monetização da IA generativa em algumas empresas do setor.
Mesmo assim, a Nvidia ainda controla mais de 80% do mercado de GPUs para data centers empresariais. Nenhuma concorrente conseguiu igualar sua capacidade computacional em larga escala.
O desafio agora surge de outro lugar: os próprios clientes.
Google, Amazon, Microsoft e Meta passaram a investir no desenvolvimento de chips próprios para reduzir dependência da Nvidia e diminuir custos operacionais.
Sundar Pichai confirmou que o Google começou a vender suas TPUs — os chips internos da companhia — para clientes externos, entrando diretamente na disputa com a Nvidia.
A corrida da IA entra em nova fase
Nos últimos dois anos, o mercado premiou empresas que construíam infraestrutura para IA. Agora, investidores tentam identificar quem conseguirá capturar o valor econômico gerado por essa infraestrutura.
A discussão deixou de ser apenas tecnológica. A Nvidia continua sendo a principal fornecedora do setor, mas a Alphabet passou a ser vista como uma das empresas mais preparadas para transformar IA em produtos corporativos, publicidade e serviços digitais em escala global.
Em 2026, as ações da Alphabet acumulam alta de aproximadamente 24%. Os papéis da Nvidia sobem cerca de 7%.
No mercado de opções, investidores chegaram a atribuir mais de 50% de probabilidade de a Alphabet ultrapassar a Nvidia antes da divulgação do próximo balanço da fabricante de chips.
A disputa, porém, vai além de quem ocupa temporariamente o topo de Wall Street. O que está em jogo agora é quem ficará com a maior parcela de valor da economia da inteligência artificial: a empresa que vende os processadores ou a que vende os serviços construídos sobre eles.
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