Google inaugura centro de engenharia em SP e põe Brasil no mapa global da IA
O Google inaugura nesta quarta-feira, 27, seu novo centro de engenharia em São Paulo, instalado no prédio 1 do IPT, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, próximo à USP, em uma expansão que transforma o Brasil em uma operação técnica com dois polos integrados.
A nova unidade se soma ao centro de Belo Horizonte, origem da engenharia do Google no país, e faz parte de uma estratégia de crescimento iniciada há cerca de três anos e meio. A operação paulista já vinha sendo formada antes da abertura oficial do espaço, mas passa agora a ter uma sede própria em um dos principais ambientes de pesquisa aplicada do país.
O movimento aprofunda uma trajetória que começou em 2005, quando o Google comprou uma pequena empresa mineira de tecnologia. O primeiro escritório de engenharia foi inaugurado em 2006, em Belo Horizonte, e se tornou a base para a atuação técnica da companhia no Brasil.
Em 2005, o Google tinha 12 pessoas trabalhando na área técnica no Brasil; hoje, a operação reúne mais de 400 profissionais de engenharia envolvidos em produtos de escala global. Ao longo de duas décadas, os times brasileiros passaram a contribuir para áreas como Busca, Family Link, Google Lens, Android, segurança, privacidade, combate a abuso digital e infraestrutura de agentes de inteligência artificial.
A companhia não detalha o valor do investimento no novo centro, mas trata a unidade como parte de um compromisso de longo prazo com o país. O desenho operacional prevê que São Paulo e Belo Horizonte funcionem como uma única engenharia brasileira, e não como centros concorrentes.
Para Bruno Possas, vice-presidente global de Engenharia para a Busca do Google, e responsável pela nova empreitada da empresa, foi a consistência da equipe de Belo Horizonte que abriu caminho para a expansão.
"Foi uma longa trajetória de excelência que agora culmina com a inauguração desse novo centro de engenharia".
A divisão dos times mostra como a empresa pretende equilibrar os dois polos. Na área de Busca, cerca de dois terços dos engenheiros estão em Belo Horizonte, enquanto um terço fica em São Paulo. Em segurança e privacidade, a distribuição é diferente: três quartos do time estão em São Paulo e um quarto em Belo Horizonte.
A operação de São Paulo nasce com foco maior em segurança, privacidade e inteligência artificial, enquanto Belo Horizonte preserva a maior concentração de engenheiros ligados à Busca. A operação geral da empresa da Alphabet, não haverá diferença regional de times.
Imaginação gráfica da fachada do novo centro de engenharia do Google, instalado no prédio 1 do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo. (Google/Reprodução)
Brasil ganha peso em IA, segurança e privacidade
A abertura em São Paulo ocorre em um momento em que o Google reorganiza produtos e equipes em torno de IA, segurança digital, automação por agentes e privacidade. O novo centro foi planejado para atuar nessas frentes e para aproximar a empresa de universidades, pesquisadores, startups, empresas e órgãos públicos ligados ao ecossistema do IPT Open, programa de inovação do instituto.
O prédio 1 do IPT foi construído em 1940 e passou por uma revitalização para receber a operação. O projeto preservou traços arquitetônicos externos e modernizou o espaço interno, com soluções de sustentabilidade como ventilação natural por sensores e janelas automatizadas, placas fotovoltaicas, captação de águas pluviais e sistemas de controle de enchentes.
A localização também tem função estratégica. O centro fica próximo à Cidade Universitária, onde estão unidades da USP ligadas a computação, engenharia, matemática, física e outras áreas relevantes para a formação de profissionais de tecnologia. A proximidade tende a facilitar eventos técnicos, programas de capacitação, circulação de pesquisadores e recrutamento de talentos.
A empresa planeja promover intercâmbios técnicos, workshops e eventos de inovação para conectar engenheiros do Google a pesquisadores, universidades e outras empresas do ecossistema. A unidade também terá um espaço público para aproximar estudantes e profissionais da companhia.
"Vamos ter um espaço público onde estudantes poderão conviver mais diretamente com quem estiver trabalhando no centro de engenharia em São Paulo. Isso ajuda a fortalecer a produção científica e tecnológica no Brasil", diz Possas.
O Brasil ocupa uma posição relevante nessa estratégia por reunir alta adoção de smartphones, uso intenso de serviços digitais, um sistema financeiro sofisticado e um ambiente de fraude considerado complexo. Essa combinação torna o país um mercado útil para desenvolver e validar soluções de segurança que depois podem ser aplicadas em outros países.
Um exemplo recente é a participação de equipes brasileiras no desenvolvimento e na avaliação de funcionalidades antirroubo do Android. A lógica é que problemas vividos com intensidade no Brasil, como golpes digitais, roubo de aparelhos e tentativas de invasão de contas, ajudam a orientar produtos de proteção para mercados com desafios semelhantes.
No Gmail, as equipes locais também atuam em tecnologias antiabuso. Segundo informações divulgadas anteriormente pela empresa, essas soluções ajudam a defender usuários do serviço de 15 bilhões de emails com ataques de phishing, malware e spam diariamente.
Centro reforça disputa por talentos em tecnologia
A instalação em São Paulo também amplia a presença do Google em um mercado disputado por bancos, fintechs, empresas de tecnologia, consultorias, universidades e centros de pesquisa. A capital paulista concentra parte importante dos profissionais de engenharia, produto, segurança, dados e IA do país.
A escolha da cidade foi influenciada por três fatores: proximidade de universidades, concentração de talentos e relevância de São Paulo como centro de negócios. A distância curta em relação a Belo Horizonte, com voos de menos de uma hora e mesmo fuso horário, também facilita o funcionamento integrado entre os dois polos.
A companhia afirma ter vagas abertas para a operação brasileira. O perfil procurado acompanha a mudança do setor. Fluência em inteligência artificial passou a ser vista como diferencial relevante, mesmo para profissionais que não trabalham diretamente no desenvolvimento de modelos.
A expectativa é que engenheiros, gerentes de produto e especialistas em experiência do usuário, usabilidade, segurança e privacidade saibam usar ferramentas de IA para acelerar desenvolvimento, testar hipóteses, automatizar tarefas e criar produtos mais eficientes.
"Ter fluência em inteligência artificial é um diferencial muito grande. Isso não vale só para o Google, vale para o mercado como um todo", afirma Possas.
O avanço de agentes de IA também deve alterar rotinas de trabalho dentro e fora da engenharia. Em vez de apenas responder perguntas ou executar comandos isolados, esses sistemas passam a organizar etapas, buscar informações, cruzar dados e apoiar tarefas mais complexas.
A operação também tem peso simbólico. O Google entrou no Brasil pela engenharia, a partir de uma relação com o ambiente universitário de Minas Gerais. Duas décadas depois, a empresa inaugura uma nova estrutura, novamente tentando vincular recrutamento, desenvolvimento tecnológico e proximidade acadêmica. Possas espera que isso solidifique a operação de engenharia no Brasil como algo de longuíssimo prazo. "O país não deve nada a nenhum outro em capacidade técnica e intelectual".
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