Google I/O 2026: o Mountain View e o que muda quando você está presencialmente neste evento

Por Leo Candido 25 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Google I/O 2026: o Mountain View e o que muda quando você está presencialmente neste evento

O Google I/O 2026 aconteceu nos dias 19 e 20 de maio no Shoreline Amphitheatre, em Mountain View. Quem assistiu pelo YouTube viu o que era pra ser visto: Gemini 3.5 Flash, Gemini Omni, Antigravity 2.0, Gemini Spark, óculos com Android XR e mais um caminhão de anúncios que vou listar daqui a pouco.

Mas eu fui presencialmente. E além de ver de perto os grandes lançamentos desse ano, também conheci uma outra camada do Google I/O.

A primeira fila tinha sotaque brasileiro

Leo Candido no Google I/O 2026 | Acervo Leo Candido

Quando você está dentro do Shoreline e olha pro palco principal, as primeiras filas são um termômetro honesto de alguns grupos que o Google considera relevante naquele momento. Em ambos os palcos onde Sundar Pichai e Demis Hassabis falaram, os builders brasileiros estavam ali. Não como público. Como interlocutores.

Por anos a comunidade de IA no Brasil olhou pro Vale muito como espectadora. Lê release, assiste keynote, traduz, comenta no LinkedIn. O Google I/O 2026 inverteu essa lógica para um grupo específico de pessoas: os Builders que ao longo do último ano testaram features do Gemini ainda em desenvolvimento e devolveram feedback estruturado pro time de produto.

Eu fazia parte desse grupo, e é dessa parte que esse artigo trata.

A área dos Builders e o que isso significa

O Google reservou um espaço separado dentro do evento pros Builders. Não era um lounge corporativo com café e wi-fi. Era uma área onde você encontrava, lado a lado, gente que está construindo coisas reais em IA hoje, no Brasil e em outros mercados. Gente de literalmente todos os cantos do mundo.

Os stands e demos espalhados pelo Shoreline cumprem o papel de mostrar o que foi anunciado. Você testa Gemini 3.5 Flash gerando código em tempo real, usa o Gemini Omni editando vídeo por comando de voz, vê os protótipos dos óculos Android XR funcionando. Tudo bem feito, tudo polido e tudo pensado com muito cuidado.

A área dos Builders era diferente. O foco ali era integração e troca entre quem está construindo.

Builders, time Google  e área dedicada dentro do Google I/O 2026 em Mountain View, Califórnia.

É uma diferença simples, mas que muda a experiência do evento: você não está só consumindo conteúdo, está numa conversa em que, eventualmente, parte do que se discute vira versão de produto lá na frente.

O palco principal, o Dialogues e a frase que ficou

O keynote principal durou mais de duas horas. Sundar Pichai abriu, conduziu a maior parte dos anúncios e foi passando a palavra pros líderes de cada produto. Quem fechou foi Demis Hassabis. E foi no fechamento dele que saiu a frase que rodou o mundo: "estamos nos sopés da singularidade".

Em entrevista logo depois à Semafor, Demis contou que debateu internamente se devia ou não terminar o keynote daquele jeito. Decidiu que sim. Queria ser autêntico sobre o que ele mesmo está pensando sobre AGI.

Achei honesto. E achei importante.

Quando o CEO da DeepMind, ganhador do Nobel de Química por AlphaFold, fala em singularidade no fechamento em uma das maiores conferências de desenvolvedores do mundo, ele não está fazendo marketing. Está calibrando expectativas. E quem trabalha com IA dentro de empresas precisa entender que essa calibragem tem efeito sobre o que vai ser cobrado de cada um nos próximos 18 meses.

Além do keynote principal, o I/O tem um segundo palco chamado Dialogues, onde executivos do Google sentam com jornalistas e construtores externos pra conversas mais longas e menos roteirizadas. Sundar Pichai sentou ali com Matt Berman, criador do Future Forward, pra destrinchar a visão por trás dos anúncios. Demis Hassabis sentou com Mike Allen, da Axios, e a conversa foi pra outro lugar: em vez de produto, ele falou sobre IA como parceira de pesquisa científica, sobre AlphaFold, sobre como começou a se interessar por IA observando que a física parou de avançar do mesmo jeito desde os anos 1970.

Mike Allen (Axios) e Demis Hassabis (CEO Google Deepmind) | Acervo Leo Candido

São duas conversas que valem ser assistidas. Estão no canal do Google no YouTube e dão mais leitura sobre para onde a empresa está apontando do que qualquer corte de keynote.

O jantar no Googleplex

Na noite do dia 19, parte do grupo de Builders foi convidada para um jantar no Googleplex. Era um recorte menor, focado em quem deu feedback consistente sobre os produtos de IA do Google ao longo do ano. Esse foi um momento que mudou minha leitura do evento.

Não era um típico coquetel com a famosa placa de "networking". Era uma sessão de perguntas e respostas com líderes do time de produto do Gemini, sentados na mesma mesa que a gente, comendo a mesma comida, respondendo perguntas que ninguém tinha combinado antes.

A primeira parte da noite teve Q&A aberto. Pergunta de Builder, resposta de quem decide. Sem moderação intermediária, sem assessoria filtrando.

Depois da sessão, consegui uma conversa de alguns minutos com Josh Woodward, VP de produto do Gemini, AI Studio e Google Labs. É o cara que, em palco, anunciou Gemini Spark, Daily Brief e a maior parte das mudanças no app do Gemini. Sob a gestão dele, o app passou de 400 milhões de usuários no I/O do ano passado para mais de 900 milhões em 230 países e 70 idiomas.

Esperava encontrar alguém mais defensivo e talvez até um pouco evasivo nas perguntas mais difíceis. Encontrei o oposto.

Eu e Josh Woodward (VP de Produtos Gemini, Google AI Studio e Google Labs) | Acervo Leo Candido

Josh tem uma vibe leve, divertida, acessível. Conversa sobre produto como quem conversa sobre um projeto que ainda está sendo descoberto, não como quem vende uma versão final. E mais importante: ele ouve. Pergunta. Anota. Pergunta de novo.

Esse comportamento, vindo de um VP responsável por um produto com quase um bilhão de usuários, é o que me deixou mais otimista sobre o Gemini do que qualquer benchmark que vi no evento.

Demis no espaço dos Builders

Demis Hassabis (CEO Google Deepmind) na área “Builders” do Google I/O | Acervo Leo Candido

Na manhã seguinte, depois do palco Dialogues, Demis Hassabis fez algo que ninguém previu no calendário oficial. Ele apareceu no espaço dos Builders.

Ali não havia para ele palco, microfone e nem filas organizadas. Só nos disseram "Já já vocês vão receber uma visita especial por aqui". Demis ficou conversando com quem estava ali, tirou foto com quem pediu, ouviu perguntas que normalmente não chegariam até ele em outras circunstâncias.

A pessoa que falou em singularidade horas antes estava no meio da área, acessível, sem muitas pessoas filtrando o acesso. Não vi isso como um mero detalhe. Foi deliberado. É o Google mostrando, pra quem estava ali, que a porta está aberta.

Os anúncios, em contexto

Já que prometi listar: o Google anunciou Gemini 3.5 Flash, que segundo eles supera o Gemini 3.1 Pro em praticamente todos os benchmarks internos, com salto importante em código, e roda quatro vezes mais rápido que modelos frontier concorrentes. Sundar mostrou que o Google está processando mais de 3,2 quatrilhões de tokens por mês, contra 480 trilhões no I/O 2025.

Anunciou Gemini Omni, modelo multimodal que começa por vídeo e que combina Gemini, Nano Banana e Veo num mesmo lugar. Antigravity 2.0, a resposta do Google pro Claude Code e pro Codex, com aplicativo desktop dedicado e CLI próprio. Gemini Spark, agente pessoal que roda 24/7 em máquina virtual do Google Cloud, sem precisar do laptop aberto. Óculos com Android XR em parceria com Samsung, Warby Parker e Gentle Monster.

Tem mais. Universal Cart pra comércio agêntico. Daily Brief. SynthID expandido pra Search e Chrome. Google AI Ultra caiu de 250 pra 100 dólares por mês.

O trabalho que continua sendo aqui

Preciso ser honesto sobre uma coisa antes de fechar.

O que faz IA funcionar dentro de uma empresa tem a ver com quem está usando a ferramenta no dia a dia: se é alguém que entende do negócio ou só de tecnologia. Tem a ver com adoção real, gestor usando na frente da equipe, processo redesenhado em volta da ferramenta. Tem a ver com cultura e com a clareza sobre o que vale a pena automatizar antes de automatizar qualquer coisa.

Nada disso se resolve com early access a um modelo.

Então o que vale dessa experiência, de verdade?

Vale o que comunidade sempre valeu em qualquer campo técnico: você aprende dez vezes mais conversando com quem está construindo do que lendo as releases de lançamento. Você entende o que está na cabeça do time de produto antes daquilo virar feature. Você calibra a sua leitura do mercado escutando como Demis Hassabis fala sobre AGI sem o filtro do roteiro, e como Josh Woodward responde quando alguém pergunta uma coisa que ele não tinha pensado antes.

Esse senso de comunidade existe no I/O e tem valor real, mas não substitui o trabalho difícil que cada um tem que fazer dentro da sua própria empresa no dia seguinte.

E pro Brasil, o que muda

Aqui acho que cabe um ponto que importa.

Ter builders brasileiros na primeira fila de Sundar e Demis, e nas mesas com o time de produto no Googleplex, é um sinal de que o Vale também enxerga o Brasil como mercado construtor, não só como mercado consumidor.

Isso ainda não muda a realidade da maioria das empresas brasileiras tentando tirar IA do PowerPoint. Mas muda a velocidade com que a tradução acontece. Quando a pessoa que volta de Mountain View entende o produto não pelo release, mas pela conversa com quem o construiu, o que ela leva pro cliente brasileiro é diferente do que sai no blog oficial.

Esse é o ganho concreto. Pequeno, específico, real. É contexto, e contexto tem valor.

Voltei com o Gemini 3.5 Flash no celular, Antigravity 2.0 no notebook e a parte mais útil de qualquer evento desse porte: a leitura calibrada de quem ouviu, conversou e estava na sala quando algumas decisões de produto foram explicadas sem assessoria filtrando.

O trabalho duro continua sendo aqui. Mas eu volto pra ele com mais clareza do que entrei.

E é isso que vale o convite.

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