Google 'retrofita' antigo prédio na USP para sediar centro de engenharia
Um prédio histórico dentro da Cidade Universitária, em São Paulo, vai abrigar o novo centro de engenharia do Google no Brasil. Trata-se do prédio mais antigo do campus da USP, originalmente projetado para receber o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em um momento em que o estado buscava consolidar sua estrutura de pesquisa aplicada e engenharia.
"Apesar de estar localizado dentro do campus, o imóvel pertence ao governo do estado de São Paulo e sempre funcionou como uma espécie de enclave institucional, mantendo forte ligação histórica com a Escola Politécnica e com a formação de engenheiros e pesquisadores", explica Marcelo Ferraz, do escritório Brasil Arquitetura, que esteve à frente do retrofit do edifício.
O projeto foi originalmente desenvolvido pelo engenheiro Adriano Marchini, em parceria com o arquiteto José Maria da Silva Neves. O edifício possui cerca de 10 mil metros quadrados distribuídos em cinco pavimentos e um subsolo. A arquitetura preserva elementos típicos da época, como pé-direito elevado, grandes janelas voltadas à ventilação natural e pisos de taco de madeira de lei.
O escritório Brasil Arquitetura foi escolhido para tocar o retrofit após um concurso promovido pelo Google há cerca de três anos. A proposta buscou equilibrar preservação histórica e adaptação tecnológica para acomodar aproximadamente 400 engenheiros da gigante de tecnologia.
Um dos conceitos centrais do projeto foi criar um “diálogo entre dois tempos”, deixando partes da estrutura original aparentes enquanto incorporava infraestrutura contemporânea de tecnologia, acessibilidade e segurança. "Estamos falando de tecnologia e tecnologia. A de 70, 80 anos atrás e a de agora. A arquitetura, que já tinha fundamentos de durabilidade, economia de meios, de materiais, já estava neste prédio. Então, a adaptação não foi complexa", explica Ferraz.
A intervenção também alterou a relação do prédio com a universidade. As grades que antes isolavam o imóvel foram removidas, integrando visualmente o edifício ao restante do campus da USP.
O retrofit ainda incorporou elementos de identidade cultural brasileira. Painéis acústicos foram produzidos com tapeçarias tradicionais do Triângulo Mineiro, conhecidas como “repassos”, técnica centenária de tecelagem manual. Os nomes dos pontos usados nesses tecidos, como “Lua Grande”, passaram a batizar salas de reunião do novo centro de engenharia, aproximando referências artesanais da lógica da tecnologia e da engenharia contemporânea.
Um prédio de 1940 para a engenharia do futuro
O novo centro de engenharia do Google será instalado dentro do IPT Open, iniciativa criada para aproximar empresas, governo, pesquisadores, universidades e startups. A ideia é transformar parte do complexo em um ecossistema de inovação, com laboratórios, espaços de trabalho e áreas abertas à colaboração com a comunidade.
O novo endereço será o segundo centro de engenharia do Google no Brasil. O primeiro foi inaugurado em Belo Horizonte, em 2006, um ano depois da chegada da empresa ao país. Em São Paulo, a operação será multidisciplinar e terá equipes de inteligência artificial, engenharia de software, gestão de produtos, experiência do usuário, design, cibersegurança e dados.
Segundo o Google, as intervenções foram pensadas para ter o menor impacto ambiental possível. O projeto prevê uso de ventilação natural com sensores e janelas automatizadas, instalação de placas fotovoltaicas para geração de energia limpa, captação de água da chuva e sistemas de controle de enchentes.
Antes do início das obras, a empresa afirma ter concluído parte das contrapartidas previstas na parceria, como a transposição de uma biblioteca e de um makerspace para outros edifícios do complexo.
O novo centro de engenharia de São Paulo será integrado à operação de Belo Horizonte. As equipes brasileiras trabalham em produtos usados globalmente, como Busca, Gmail, Maps e YouTube.
Em São Paulo, o foco será principalmente em soluções baseadas em inteligência artificial, privacidade e segurança. A empresa afirma que o centro terá profissionais responsáveis por lançar funcionalidades para produtos globais e desenvolver ferramentas de proteção para usuários na internet.
O espaço de São Paulo também será integrado à rede de Google Safety Engineering Centers, hoje presente em Munique, Málaga e Dublin. Esses centros são voltados à pesquisa e ao desenvolvimento de soluções de segurança digital e privacidade.
A proposta é que o endereço brasileiro funcione como um ponto de colaboração com autoridades, empresas, pesquisadores e startups. A empresa afirma que o centro será usado para desenvolver, testar e aperfeiçoar produtos e tecnologias mais seguros para usuários no Brasil e no mundo.
O Google também pretende instalar no prédio o primeiro Accessibility Discovery Center da América Latina. O espaço será voltado ao desenvolvimento de tecnologias de acessibilidade e à troca de conhecimento com instituições que atuam com pessoas com deficiência.
Entre as iniciativas previstas estão projetos colaborativos com a comunidade, treinamentos para desenvolvedores e pesquisadores, além de um ambiente para testes de novas ferramentas.
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