Governo estuda linha de crédito para fertilizantes no Plano Safra 2026/27
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estuda a criação de uma linha de crédito especial para o setor de fertilizantes dentro do Plano Safra 2026/27, previsto para ser anunciado entre junho e julho deste ano.
A proposta ainda está em fase de discussão e deve ser detalhada nos próximos dias. Segundo o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), vice-presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), a ideia é oferecer financiamento com condições mais favoráveis ao produtor.
“Existe a possibilidade de incluir uma linha de crédito específica para fertilizantes. Vamos fazer os cálculos e apresentar uma proposta ao governo para que possamos ter juros ainda mais baixos no Plano Safra”, disse à EXAME durante evento do LIDE Agronegócio, nesta quarta-feira, 8.
Hoje, o Plano Safra não conta com linhas exclusivas de crédito para fertilizantes. O financiamento ocorre principalmente por meio de programas mais amplos de crédito rural, nos quais os insumos são incluídos nas linhas de custeio agrícola, voltadas à compra de sementes, defensivos e fertilizantes.
Produtores também acessam recursos por meio do Pronaf e do Pronamp, além de alternativas como crédito com tradings, cooperativas, operações de barter e financiamento privado.
De acordo com interlocutores do governo, a medida deve seguir o modelo recente adotado para combustíveis e setores afetados pela guerra no Oriente Médio, com uso de crédito subsidiado e atuação direta para reduzir preços ao longo da cadeia.
A estratégia faz parte de um esforço mais amplo para amortecer choques externos e evitar repasses imediatos ao produtor rural. Nos bastidores, a avaliação é que o cenário geopolítico elevou o risco de abastecimento e reforçou a necessidade de instrumentos financeiros para garantir previsibilidade ao setor.
O tema ganhou força após a escalada do conflito envolvendo o Irã, que reacendeu preocupações sobre a segurança no fornecimento global de insumos. O Brasil é altamente dependente de importações de fertilizantes, especialmente em produtos como a ureia, essencial para culturas como o milho.
Em 2025, o país consumiu 49 milhões de toneladas de fertilizantes, alta de 7,7% em relação ao ano anterior. Desse total, 43 milhões de toneladas foram importadas, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). A produção nacional somou 7 milhões de toneladas, avanço de 2,5%, mas ainda abaixo dos níveis de 2022.
Os fertilizantes mais utilizados no Brasil pertencem ao complexo NPK — nitrogênio, fósforo e potássio. O potássio lidera o consumo, com cerca de 38%, seguido pelo fósforo (33%) e pelo nitrogênio (29%).
Em 2022, em razão do conflito entre Rússia e Ucrânia, o Brasil lançou o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF). O PNF tem uma meta ambiciosa: diminuir de 85% para 50% a participação dos insumos importados no consumo nacional até 2050.
"O avanço foi muito pequeno. Por isso, decidimos retomar essa discussão. Há um conselho constituído, o Confert, e queremos que ele funcione de forma mais efetiva. Para isso, reconhecemos a necessidade de fechar um pacote de incentivos fiscais e subsídios que viabilize esse processo", afirmou Jardim.
Outras medidas entram no radar
Além do crédito, o governo e o Congresso discutem alternativas para estimular a produção local de fertilizantes. Entre os temas em análise estão a ampliação da oferta de gás natural — insumo-chave para fertilizantes nitrogenados — e a aceleração do licenciamento ambiental.
“Temos enfrentado problemas com a morosidade no licenciamento, que tem sido um fator de desestímulo à produção de fertilizantes no Brasil”, afirmou Jardim.
Segundo o parlamentar, “essa pauta é prioridade da FPA”, que tem articulado propostas junto ao governo para reduzir a dependência externa e fortalecer a produção doméstica.
A iniciativa se insere em um conjunto mais amplo de ações adotadas pelo governo para mitigar os efeitos da instabilidade global sobre setores estratégicos.
Nesta semana, foi anunciado um pacote voltado ao setor de combustíveis, com medidas que incluem desoneração tributária, linhas de crédito e reestruturação financeira de empresas.
Além disso, o governo editou, na semana passada, a Medida Provisória 1.345/26, que libera até R$ 15 bilhões em crédito para empresas afetadas pelo cenário externo, dentro do Plano Brasil Soberano, com recursos operados pelo BNDES.
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