Grendene tem vendas fracas no 4º tri, com macro e concorrência chinesa
A Grendene registrou queda de 19,8% no volume total de pares vendidos no quarto trimestre de 2025, na comparação anual. Em entrevista à EXAME, o diretor financeiro (CFO, em inglês) e de relações com investidores, Alceu Albuquerque, pontuou que o desempenho ficou abaixo do que a companhia esperava.
O lucro líquido recorrente da empresa de calçados dona das marcas Melissa e Ipanema somou R$ 286,1 milhões, queda de 17,7% na base anual. Já a receita líquida recuou 18%, para R$ 705,1 milhões.
O trimestre foi marcado por um ambiente de consumo mais fraco e por maior cautela do varejo ao longo da cadeia. "Foi muito impactado pelas condições macroeconômicas do Brasil, juros elevados, inflação de alimentos e alavancagem das famílias brasileiras que estão endividadas", disse.
O executivo também citou "uma maior competição interna, seja com fabricantes nacionais ou com produtos importados, especialmente da China", além de fatores climáticos que afetaram as vendas no período. A combinação desses elementos pressionou a rentabilidade operacional.
Apesar do tom cauteloso, o CFO demonstrou confiança em uma melhora gradual, com crescimento tanto de receita quanto de volume. A Grendene vem adotando medidas para enfrentar o período mais difícil, realizando ajustes operacionais e alternativas para estimular a demanda.
Margens pressionadas pelo volume
A retração no volume teve efeito direto sobre as margens. O lucro antes dos juros e tributos (Ebit, em inglês) recorrente totalizou R$ 122,5 milhões no quarto trimestre, recuo de 43,7% na comparação anual, com margem de 17,9% — 2,1 pontos percentuais (p.p.) abaixo da meta.
A companhia trabalha com duas referências internas de rentabilidade: margem Ebit recorrente na faixa de 20% e margem bruta próxima de 50%. Ao considerar o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, em inglês), o montante recorrente ficou em R$ 146,8 milhões, com queda de 38,5%.
"O principal impacto nessa margem é do volume", explicou Albuquerque. "Com um menor volume de pedidos em casa, por mais que a gente tenha ajustado a estrutura fabril, a gente não consegue ajustar na velocidade necessária. Eu não consigo diluir os meus custos com um volume menor."
As despesas operacionais, de vendas e administrativas (SG&A, em inglês) pressionaram. Por isso, a empresa avalia medidas para que, além do custo de produtos vendidos (CPV) e dos custos fabris, as próprias despesas operacionais contribuam para a recuperação das margens.
O desempenho anual foi menos impactado do que o trimestre isoladamente. No acumulado de 2025, o lucro líquido recorrente atingiu R$ 815,9 milhões, alta de 2,4% sobre 2024, favorecido pelo elevado nível de caixa e pelos juros robustos no Brasil.
Estratégia de preservar preço
Mesmo com a retração de quase 20% no volume trimestral, a Grendene optou por preservar preços e posicionamento de marca. Segundo o CFO, os reajustes têm ficado na faixa de 5% a 6% ao ano, basicamente acompanhando a inflação.
A receita bruta por par cresceu 9,4% no quarto trimestre e 18,3% no acumulado de 2025. Albuquerque explicou que esse avanço está ligado à mudança no mix de produtos. "Esse crescimento adicional é em função de estarmos disponibilizando para os nossos clientes produtos de maior valor agregado", afirmou.
"Os produtos que compõem a faixa inicial de preço é onde nós temos percebido uma redução no volume de compras", acrescentou. Para o executivo, isso reflete a pressão sobre a renda das famílias de menor poder aquisitivo, que priorizam gastos essenciais.
Fortes exportações e 2026 no radar
No mercado externo, as exportações apresentaram crescimento no acumulado do ano, com destaque para a América Latina, mesmo com ajustes pontuais de embarques. A receita bruta com vendas ao exterior cresceu 40,4% em 2025, para R$ 817 milhões, enquanto o volume exportado subiu 4%.
Além disso, a Grendene tem feito esforços dentro e fora do país para ajustar estrutura, buscar eficiência e fortalecer marcas. Entre elas, a Melissa foi o principal destaque, com crescimento de 36,7% na receita bruta em 2025, impulsionada pela elevação do preço médio e pelo fortalecimento do posicionamento global.
Já movimentos de fusões e aquisições (M&A, em inglês) estão fora do radar. A fabricante de calçados tem, historicamente, crescido de forma orgânica e não está olhando ativamente nenhuma operação no momento, de acordo com esclarecimentos do CFO à EXAME.
Para 2026, a administração mantém uma confiança cautelosa, pois o varejo segue operando com estoques mais enxutos e não há, até o momento, sinais de uma recuperação robusta do consumo. A estratégia, segundo Albuquerque, é manter a disciplina operacional enquanto o ambiente não melhora.
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