Guerra afeta vendas da Hermès no trimestre
A Hermès vendeu menos do que o mercado esperava no primeiro trimestre. As vendas cresceram 6% a taxas de câmbio constantes — abaixo dos 7,1% projetados por analistas — e a receita recuou 1%, para 4,07 bilhões de euros. As ações caíram 14% após a divulgação, ao menor patamar em mais de três anos.
O grupo atribuiu a desaceleração ao impacto da guerra no Irã, que reduziu o fluxo de turistas e consumidores do Golfo para lojas na Europa e no próprio Oriente Médio.
O diretor financeiro Éric du Halgouët disse que janeiro e fevereiro tiveram crescimento de dois dígitos, mas março teve esse fluxo interrompido pelo conflito. As vendas em shopping centers de luxo em Dubai e em outros polos de compras do Golfo caíram 40% naquele mês.
Queda para todo o setor
A região do Oriente Médio recuou 6% no trimestre, para 160 milhões de euros. É uma fatia pequena do faturamento — 4,4% —, mas foi a que mais cresceu no ano passado. Na França, vendas caíram 2,8% com a retração do turismo. A Ásia-Pacífico, maior mercado da empresa, avançou apenas 3,5%, prejudicada por interrupções no tráfego aéreo, sobretudo em Cingapura e na Tailândia. Os Estados Unidos foram exceção, com alta de 17,2%.
A Hermès não caiu sozinha. No mesmo dia, a Kering — dona da Gucci — recuou 10% na bolsa após reportar queda de 6% na receita trimestral, com retração de 8% nas vendas orgânicas da Gucci. Burberry, LVMH, Christian Dior e Moncler também fecharam no vermelho.
Além da guerra
O conflito no Oriente Médio explica parte da desaceleração, mas talvez não toda. Luca Solca, analista da Bernstein e colunista do Business of Fashion, aponta sinais mais estruturais.
Uma análise da própria Bernstein identificou queda de 25% no fluxo de clientes nas lojas da Hermès na China — enquanto a Chanel registrou alta de 130% e a Dior, de 139%.
Solca elenca três hipóteses. A mais branda sugere que a empresa pode ter começado o ano com estoques mais baixos e ritmo moderado. A segunda traz ações das rivais, como a Chanel, com novos diretores criativos e mais novidades no mercado. A mais severa é que o modelo de crescimento baseado em escassez — marca registrada da Hermès — esteja encontrando seus limites.
O diagnóstico do analista, porém, é de que o problema é benigno. Na avaliação dele, trata-se de uma oscilação temporária, causada por distração do consumidor, base de comparação mais difícil e, possivelmente, gestão estratégica de estoque.
Solca traça ainda um paralelo com a Louis Vuitton do início da década de 2010, quando consumidores se cansaram da onipresença da marca e buscaram alternativas. A Vuitton respondeu subindo de faixa, com o lançamento da bolsa Capucine. A Hermès, na leitura dele, pode estar se aproximando de um momento semelhante.
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