Guerra, juros e pressão no crédito: o novo teste de fogo dos Fiagros
Os Fundos de Investimento nas Cadeias Agroindustriais (Fiagros) devem enfrentar um ambiente mais desafiador em 2026 diante da combinação entre juros elevados, alta dos custos agrícolas e aumento do risco de inadimplência no agronegócio. A avaliação é do BTG, em relatório divulgado nesta sexta-feira, 15.
Na leitura do banco, o atual ciclo tem pressionado a rentabilidade dos produtores rurais e elevado a cautela no mercado de crédito ligado ao setor. Apesar do cenário adverso, o BTG afirma que os fundos ligados ao agronegócio chegam mais preparados para um novo período de estresse.
Segundo os analistas Daniel Marinelli, Matheus Oliveira, Jean Miranda e Vitor Novaes, os Fiagros sob cobertura do banco apresentam uma exposição “relativamente equilibrada” ao atual ciclo, sustentada por reservas acumuladas, carteiras mais pulverizadas e operações com prazo mais curto.
“Embora não descartemos novos eventos de crédito no médio prazo, avaliamos que parte desses riscos já está refletida nos preços atuais dos ativos”, afirmam os analistas no relatório.
Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os Fiagros cresceram cerca de 9.500% em um ano e atingiram R$ 29,3 bilhões em patrimônio em março.
Nos primeiros meses de 2026, o volume seguiu em alta, somando R$ 28,1 bilhões em janeiro e R$ 28,9 bilhões em fevereiro.
O relatório do BTG aponta que a guerra no Irã, iniciada no fim de fevereiro, alterou as perspectivas para o agronegócio global ao provocar forte alta nos preços de petróleo, diesel, gás natural e fertilizantes. No caso do Brasil, 85% dos fertilizantes utilizados nas lavouras são importados.
O fechamento parcial do Estreito de Ormuz reduziu drasticamente o fluxo global de petróleo e derivados, pressionando os custos de produção agrícola.
A região é responsável por escoar cerca de um terço dos fertilizantes transportados por via marítima, o que transforma qualquer instabilidade em choque imediato de preços e oferta. No caso do Irã, o país é um dos principais fornecedores globais de ureia, muito utilizado no plantio do milho.
Segundo o BTG, culturas mais dependentes de insumos, como soja, milho e algodão, estão entre as mais afetadas. No Mato Grosso, fertilizantes, defensivos e combustíveis representam mais de 80% do custo de produção da soja e do algodão.
Ao mesmo tempo, os preços das commodities agrícolas avançaram menos do que os custos. Desde o início do conflito, a soja subiu 2%, enquanto o milho avançou 5% e o trigo, 10%. A compressão das margens dos produtores passou a ser o principal vetor de preocupação para os fundos expostos ao crédito agrícola.
“O resultado é um cenário de crédito mais seletivo, maior custo de carregamento das dívidas e possível aumento de renegociações e eventos pontuais de estresse ao longo dos próximos trimestres”, afirmam os analistas.
Crédito no agro
Mesmo com os amortecedores construídos nos últimos trimestres, o banco avalia que o ambiente permanece delicado. O relatório cita dados da consultoria RGF&Associados mostrando que 539 empresas do agronegócio estavam em recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, alta de 58% na comparação anual.
Além da pressão operacional causada pela alta dos insumos, os produtores enfrentam um cenário financeiro mais restritivo, marcado por juros elevados e maior dificuldade de renegociação de dívidas.
"A assimetria entre a rápida recomposição dos custos e a resposta mais lenta dos preços agrícolas implica compressão adicional de margens ao longo de 2026, após um período já prolongado de fragilidade. Esperamos uma piora adicional dos indicadores de rentabilidade do produtor ao longo dos próximos trimestres", dizem os analistas.
Para o BTG, os Fiagros entram neste novo ciclo em posição mais defensiva do que em crises anteriores, mas o momento ainda exige cautela e seletividade.
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