Guerra no Irã aumenta preço do diesel e pressiona custos do açúcar no Brasil
A guerra no Irã e a escalada do conflito no Oriente Médio já impactam diretamente o setor sucroenergético brasileiro. Segundo relatório da StoneX, divulgado nesta terça-feira, 31, a disparada do petróleo elevou os preços dos combustíveis no país, pressionando os custos de produção de açúcar e etanol no Centro-Sul.
Na cana-de-açúcar, a região Centro-Sul é a principal área produtora do Brasil — e também a mais relevante do mundo nesse setor. Ela não é uma divisão política formal, mas sim uma regionalização do mercado sucroenergético que inclui estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e parte do Sul, como São Paulo, Mato-Grosso e Paraná, entre outros.
O relatório da StoneX mostra que, desde 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, o petróleo Brent acumula valorização superior a 40%.
No mesmo período, estimativas de Preço de Paridade de Importação (PPI) apontam alta de 48% na gasolina e de 91% no diesel. Nas bombas, o diesel B já subiu mais de R$ 1 por litro, com avanço médio de R$ 1,26/L (20,6%) até 21 de março.
O diesel é um dos principais vetores de custo do setor. Segundo a StoneX, o combustível tem correlação de 97,46% com o custo agroindustrial total nas últimas 19 safras. Na prática, cada aumento de R$ 1 por litro pode elevar os custos entre R$ 29 e R$ 36,5 por tonelada de cana.
O impacto é mais intenso nas operações agrícolas, onde o uso de combustível é essencial do plantio ao transporte. Mesmo com a isenção de tributos federais sobre o diesel B, o reajuste de R$ 0,30/L aplicado pela Petrobras em março limitou o alívio nos preços.
Para Marcelo Di Bonifacio Filho, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, o cenário é contraditório.
“Se, por um lado, o petróleo mais caro tende a sustentar os preços do etanol e melhorar a perspectiva de receita das usinas, por outro, a alta do diesel impacta diretamente os custos operacionais, especialmente nas atividades agrícolas", diz o analista.
Preços do açúcar
A pressão sobre o açúcar deve aumentar na próxima safra, principalmente por causa do aperto nas margens das usinas.
Segundo a StoneX, o custo para produzir açúcar VHP — o tipo mais exportado pelo Brasil — está em torno de R$ 1.730 por tonelada na usina e chega a R$ 1.875 por tonelada considerando o produto já pronto para exportação (FOB).
Quando esse custo é convertido para o mercado internacional, o ponto de equilíbrio — ou seja, o preço mínimo para não ter prejuízo — fica entre 15,40 e 17,01 centavos de dólar por libra-peso, considerando um câmbio entre R$ 5,20 e R$ 5,30 por dólar.
Na prática, isso significa que, com o açúcar sendo negociado pouco acima de 15,50 centavos por libra no fim de março, as usinas estão operando muito próximas do zero a zero, com pouca ou nenhuma margem de lucro.
Ainda assim, há alguns fatores que podem aliviar esse cenário. Ganhos de produtividade no campo, menor necessidade de investimento nos canaviais e a expectativa de queda no preço do ATR — indicador que mede a qualidade da cana — para abaixo de R$ 1 por quilo podem reduzir o custo total em cerca de R$ 45 por tonelada.
Além disso, a queda de 10,5% no custo da cana comprada de terceiros deve gerar uma economia adicional de aproximadamente R$ 35 por tonelada, ajudando a melhorar, ainda que parcialmente, a rentabilidade das usinas.
Diante desse cenário, cresce a tendência de redirecionamento da produção. A alta do petróleo melhora a competitividade do etanol, enquanto o açúcar sofre com o avanço dos custos.
“A alta do petróleo melhora a competitividade do etanol, mas o impacto imediato do diesel sobre os custos reduz as margens do açúcar, o que pode incentivar uma maior destinação para biocombustíveis”, afirma Di Bonifacio Filho.
Segundo ele, o momento exige ajustes estratégicos. “Enquanto sustenta receitas com etanol, amplia a pressão de custos via diesel e insumos, limitando a rentabilidade das usinas e exigindo ajustes estratégicos na safra 2026/27.”
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