Guerra no Irã cria embate entre nomes da oposição a Trump nos EUA
Quando o presidente americano, Donald Trump, começou uma nova guerra contra o Irã sem o aval do Congresso, representantes democratas apresentaram uma frente unida de oposição.
Para os democratas, os novos desenvolvimentos no Oriente Médio reacenderam velhos interesses para por um fim às guerras iniciadas pelos EUA e limitar a influência financeira da indústria de defesa e de doadores bilionários na política americana.
Em decorrência disso, democratas aproveitaram a guerra no Irã, e especialmente as revoltas causadas pelas mortes americanas no novo conflito em discursos, entrevistas, arrecadação de fundos, e na mídia em geral, buscando mudar o foco para justiça social e econômica domesticamente.
Candidatos mais progressistas passaram a condenar rivais moderados por não terem se oposto com mais afinco à campanha militar de Donald Trump, e pelo que consideram laços demasiadamente próximos com empresas de defesa e, em alguns casos, até mesmo com Israel, que conduz a ofensiva de maneira conjunta com os EUA. As rixas trazem à tona disputas internas dos democratas conforme o partido luta para se recuperar das derrotas eleitorais em 2024 e considera possíveis candidatos para as próximas eleições presidenciais, em 2028.
Com as eleições de meio de mandato – ou midterms – no horizonte, o processo das eleições primárias já está em andamento. A votação final será em novembro.
Assentos estão em disputa para representantes em estados como Michigan, Colorado, Illinois, Maine e Carolina do Norte. Cerca de meia dúzia de democratas progressistas estão desafiando rivais mais moderados ou estabelecidos no cenário político, argumentando que doações recebidas por empresas de defesa e grupos apoiadores de Israel minam sua oposição ao conflito.
"É difícil confiar em políticos que aceitam dinheiro de fabricantes de armas e do AIPAC [American Israel Public Affairs Committee, um poderoso grupo de lobbying político que apoia Israel], todos a favor desta guerra, e depois vêm a público dizer que são contra a guerra", disse Abdul El-Sayed, candidato nas primárias democratas para uma vaga no Senado pelo estado de Michigan.
Progressistas como El-Sayed argumentam que simplesmente se opor à guerra não é o suficiente – democratas devem legitimar essa retórica negando doações. Por sua vez, representantes mais moderados dizem que sempre se opuseram ao conflito, e acusam progressistas de fabricar conflitos internos para ganhos políticos e eleitorais.
Essas disputas põem em risco uma possível vantagem política para os democratas durante um momento quando republicanos enfrentam problemas significativos por apoiar uma guerra e uma administração impopular.
Atrito interno
O atrito também tem uma faceta estratégica importante, conforme candidatos preparam suas campanhas eleitorais: deveriam os esforços dos democratas nesse momento ser focados em conquistar maior base eleitoral, atraindo eleitores do partido republicano, ou em cultivar seus apoiadores centrais?
Afinal, as tensões não vêm apenas da política externa, mas também giram em torno de como buscar reformas econômicas e do quanto o partido deve se alinhar às corporações americanas – principalmente em relação às empresas de defesa que fabricam armas para o conflito, poderosos grupos de lobby político, e influentes bilionários – todos atores com significativo impacto na política americana.
Em sua corrida eleitoral para as primárias do estado da Carolina do Norte esse mês, a candidata Nida Allam lançou uma campanha focada na guerra do Irã e em como sua oponente, a atual representante do estado Valerie Foushee, teria recebido milhares de dólares de empresas de defesa.
Notavelmente, dados da Comissão Eleitoral Federal (FEC, na sigla em inglês) revelam que a campanha de Foushee teria recebido até 3.000 dólares de muitos comitês políticos controlados por dois dos maiores fabricantes de armas dos EUA, a Lockheed Martin e a Northrop Grumman, resultando em dezenas de milhares de dólares no total.
Além disso, em sua campanha para o Congresso em 2022, o comitê de ação política da AIPAC teria investido 2 milhões de dólares em suporte para sua campanha, de acordo com dados também da FEC. Por sua vez, Foushee disse que ela renunciaria à assistência do grupo nesse novo ciclo eleitoral.
“Eu nunca aceitaria um centavo de empresas de defesa ou do lobby a favor de Israel” disse Allam em sua campanha. “Eu me opus a essas guerras eternas durante toda a minha carreira.”
Mesmo assim, Foushee ganhou por pouco as eleições para representante democrata da Carolina do Norte no Congresso – apenas por um ponto percentual. Mas os ataques de Allam contra os conflitos no Irã desestabilizaram muito de sua narrativa, e possivelmente fará com que repense seus laços.
"A guerra insensata de Trump no Irã coloca civis no exterior e nossos militares em risco", disse Foushee em um comunicado à Reuters. "Os americanos estão cansados de enviar dinheiro de quem paga impostos para guerras intermináveis no exterior, enquanto o custo de alimentos, saúde e moradia continua a subir aqui no país."
Em uma pesquisa da Ipsos, o custo de vida é a preocupação da maior parcela da população, representando 38% dos correspondentes, destronando tópicos como imigração e crime, pontos-chave da campanha de Trump.
As mais recentes pesquisas, também da Ipsos, revelam que, se as eleições fossem hoje, 40% da população votaria em um candidato democrata, enquanto 38% preferem republicanos e 13% seguem indecisos.
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