Guga vê João Fonseca como 'jamais visto' no tênis brasileiro — e tira do esporte lições para líderes

Por Leo Branco 31 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Guga vê João Fonseca como 'jamais visto' no tênis brasileiro — e tira do esporte lições para líderes

Gustavo Kuerten sabe o que é entrar em quadra sem ter certeza de quase nada.

Em 1997, antes de enfrentar Yevgeny Kafelnikov em Roland Garros, o torneio que mudaria sua carreira, Guga diz ter vivido um dos raros momentos em que entrou para jogar sem acreditar que venceria. O adversário era o melhor daquele ano. A quadra era a central de Paris. O brasileiro era, nas palavras dele, “um gurizão” que ainda conhecia pouco do circuito.

“Foi o único jogo da minha vida que eu entrei em quadra e tinha certeza que não dava para ganhar”, disse Guga.

A lembrança apareceu durante o Senior Experience, realizado em 21 de maio, em São Paulo, em uma conversa sobre tomada de decisão em momentos de pressão. O ex-tenista, número 1 do mundo em 2000 e tricampeão de Roland Garros, falou sobre esporte, liderança, erro, plano, instinto e aprendizado.

A fala ganha outro contexto agora, com a nova geração do tênis brasileiro no centro das atenções. Guga citou João Fonseca, Guto, Naná e Vitória como nomes que ajudam a renovar o esporte no país. Sobre João, foi direto: “É um menino jamais visto com essa idade no tênis brasileiro”.

Para Guga, o caso da nova geração ajuda a explicar uma das principais lições do esporte para líderes: a decisão de hoje quase nunca nasce no dia da decisão. Ela vem de treino, repetição, leitura de cenário, apoio e capacidade de tentar outra vez depois do erro.

Pressão não é ausência de medo

A conversa com Guga fez parte da masterclass “Decidir sob pressão: o que o jogo ensina sobre escolhas em ambientes complexos”. A ideia era conectar o esporte de alto rendimento com a rotina de executivos e lideranças que precisam decidir com pouca informação, pouco tempo e muitos fatores fora do controle.

Guga começou por um ponto simples: o atleta não controla tudo. No tênis, há o adversário, o clima, o público, a quadra, o vento, o placar e o próprio corpo.

“No tênis, pelo menos 50% é o lado do cara. Depois tem o entorno, pessoas, clima. Talvez uns 70% esteja distante do nosso controle”, disse.

Para ele, a preparação serve para criar uma sensação interna de controle, mesmo quando boa parte do cenário não depende do jogador. Não é uma certeza absoluta sobre o resultado. É uma convicção de que o trabalho foi feito.

“Eu tenho que ter uma convicção tão plena que crio um convencimento de que está tudo sob controle, para poder ter tranquilidade e autoconfiança”, afirmou.

O método dele antes dos jogos era evitar pensar demais na partida. Guga diz que ficava longe dos pensamentos da quadra até poucos minutos antes de jogar. Só então mergulhava no jogo.

“Do meu jeito, era assim: eu ficava o mais longe possível dos pensamentos da quadra. Depois, faltando 10 ou 5 minutos, era uma imersão total, porque no subconsciente tudo que precisava ser feito estava pronto”, disse.

Na prática, a mensagem para líderes é que a preparação vem antes da pressão. O momento de decidir pode durar segundos, mas a base da escolha começa muito antes.

O detalhe que muda uma decisão

No jogo contra Kafelnikov, em Roland Garros, Guga venceu o primeiro set, mas depois viu o adversário reagir. Em certo momento, perdia por 2 sets a 1 e sentia que estava sendo atropelado.

A virada começou com um detalhe do adversário.

“Depois de 2 horas e meia de jogo, eu olho para o lado, vejo ele respirando fundo e falo: opa, então é isso”, disse.

O sinal físico do adversário mudou a leitura do jogo. O que parecia impossível passou a parecer aberto. Para Guga, essa é uma parte central da tomada de decisão: ler pequenas mudanças no ambiente antes de agir.

“O principal é estar disposto a valorizar e estar atento às mudanças. Cada minuto vem uma notícia, às vezes uma coisa da internet transforma a realidade, e as consequências estão cada vez mais longe das nossas decisões. Tem que se adaptar a isso”, afirmou.

No tênis, essa leitura acontece ponto a ponto. No trabalho, pode aparecer em uma reunião, em uma queda de vendas, em uma mudança de humor da equipe, em um cliente que demora a responder ou em um concorrente que altera preço.

Guga usa uma imagem simples para explicar o papel do tenista.

“A gente entra na quadra para descascar pepino o tempo inteiro e fazer aquilo parecer fácil e tranquilo”, disse.

Para quem lidera uma equipe, o paralelo está na capacidade de ler sinais antes dos números. Nem toda mudança aparece primeiro em uma planilha.

Plano é obrigatório. Instinto não basta

Uma das perguntas da conversa foi sobre a diferença entre plano e instinto. Guga separou bem os dois.

“O plano te orienta e é obrigatório. O instinto vai te ajudar e te empurrar nos momentos e nos dias mais especiais”, afirmou.

Para ele, confiar apenas no instinto é perigoso. O improviso só funciona quando há base. Um jogador consegue mudar o jeito de sacar, bater ou se posicionar porque já treinou essas alternativas antes.

“Contar com o instinto é se jogar nas lanças. Vou agora tirar coelho da cartola? Não tem como. Está tudo muito orientado para o instinto poder aparecer”, disse.

Guga citou os grandes nomes do tênis para explicar essa lógica. Na visão dele, jogadores como Roger Federer, Novak Djokovic, Rafael Nadal e Carlos Alcaraz se destacam porque têm muitas respostas preparadas para diferentes cenários.

“Por que eles são incríveis? Porque têm 25.000 planos, todos bem desenhados na cabeça”, afirmou.

O plano, nesse caso, não é uma planilha rígida. É um estoque de respostas. Quando o cenário muda, o atleta não começa do zero. Ele troca a rota.

Quando o plano inicial não funciona

Guga também contou como aprendeu isso contra Pete Sampras.

No primeiro encontro com o americano, em Hannover, na Alemanha, Guga já era número 5 do mundo. Mesmo assim, diz que ficou travado ao ver o adversário entrar em quadra.

“Eu era número 5 do mundo, mas ainda a minha experiência era desse tamanho. Fiquei tão nervoso, tão apavorado, que esqueci de aquecer o voleio”, disse.

O jogo terminou em 40 minutos. Sampras venceu por 6/2 e 6/1.

A derrota ficou na cabeça. Nos meses seguintes, Guga começou a buscar outra forma de enfrentar o saque do americano. A saída foi se posicionar mais atrás na quadra para ganhar tempo e conseguir entrar nas trocas de bola.

“Fiquei encasquetado. Tentando de um jeito ou de outro, encontrei uma forma de ficar mais atrás, ganhar tempo, porque o saque dele era muito veloz, e começar a entrar na disputa. Quando entrava na disputa, eu falava: agora eu tenho chance”, afirmou.

A lição, segundo Guga, vale também para empresas. Uma decisão pode bater na trave. Um projeto pode falhar. Um plano pode não funcionar. O ponto é voltar para a análise e ajustar.

“Às vezes bate na trave, não dá certo, e a pessoa pensa: de novo comigo? Mas precisa persistir. Sempre tem um jeito, mesmo que a virada às vezes seja na contramão”, disse.

O exemplo mostra uma ideia simples: falhar também produz informação. Para Guga, a derrota contra Sampras virou dado, treino e mudança de posição em quadra.

Na liderança, o mesmo raciocínio vale para uma meta perdida, um produto que não vendeu ou uma contratação que não deu certo. A pergunta passa a ser qual ajuste vem depois.

Rede de apoio também decide

Guga evita tratar suas decisões como resultado de uma cabeça isolada. Ele cita o técnico Larri Passos, a mãe, a avó, o irmão Rafa e professores como parte da construção que o levou aos momentos decisivos.

“Não tem como chegar a um desafio do tamanho do mundo e fazer sozinho”, afirmou.

Ele também repetiu uma frase que ouviu da mãe e levou para a carreira.

“Se é seu, se eu posso, eu quero, eu faço. Se essas três perguntas são verdadeiras, não tem como fugir disso”, disse.

Na final que o levou ao número 1 do mundo, em Lisboa, contra Sampras, Guga lembra de ter perdido um set no tie-break depois de jogar em alto nível. O cenário apontava para desânimo. O adversário era o melhor de sua época. A quadra favorecia o americano.

Ainda assim, Guga diz que sentou com a toalha, pensou e manteve a convicção.

“Depois de perder duas vezes para o cara melhor do meu tempo, todos os indícios eram para estar desesperado. Eu tinha certeza que ia ganhar o jogo. Minha cabeça estava inabalável”, afirmou.

Para líderes, a frase aponta para o papel do entorno. Em momentos de pressão, a equipe, os pares, os mentores e a família também entram na decisão.

Na leitura de Guga, a rede de apoio não elimina o peso da escolha. Mas ajuda a sustentar a cabeça no momento crítico.

O que João Fonseca representa para Guga

A conversa também abriu espaço para o momento do tênis brasileiro.

Guga citou João Fonseca como um nome fora da curva na história do país. Para ele, o jovem já faz algo que chama atenção fora do Brasil.

“João Fonseca é um menino jamais visto com essa idade no tênis brasileiro, ganhando tanto. É algo que chama atenção do mundo inteiro”, disse.

Guga também projetou o potencial do atleta.

“A tendência é ser top 5, depois com chance de ser número 1. Imagina: hoje ele está com 19, 20 anos. Daqui a 10 anos, ainda não vai estar próximo do auge”, afirmou.

Além de João, ele citou Guto, jovem de Joinville, e as tenistas Naná e Vitória, ambas com 16 anos. Para Guga, a nova geração se beneficia do exemplo de atletas que vieram antes.

Ele mencionou Bia Haddad como referência para as meninas. Ao ver uma brasileira chegar perto do top 10 e avançar em Roland Garros, jovens atletas passam a enxergar o caminho como possível.

“As meninas olham e falam: eu também posso. Essa parte é muito difícil no início, se convencer de que dá”, disse.

O ponto, para Guga, é que referência muda o tamanho da meta. Quando alguém do mesmo país chega lá, a distância entre sonho e plano fica menor.

No ambiente de trabalho, a lógica é parecida: exemplos próximos criam permissão para que outras pessoas tentem subir o nível.

A melhor decisão é continuar aprendendo

No fim da conversa, Guga foi perguntado sobre o que é uma boa decisão hoje.

A resposta foi menos sobre escolher certo de primeira e mais sobre criar condições para seguir melhorando.

“A melhor decisão é continuar aprendendo”, afirmou.

Ele disse que tenta ensinar isso aos filhos. Para Guga, escolher bem também envolve aceitar que o erro vai aparecer. O importante é não perder a chance de aprender com cada experiência.

“Eu quero ensinar meus filhos a escolher bem, sabendo que eles vão errar milhões de vezes, e respeitando isso também, porque já aconteceu comigo”, disse.

O ex-tenista lembrou da avó, que viveu até os 94 anos, para falar sobre atenção aos detalhes. Segundo ele, ela buscava deixar a mesa do café da manhã da forma mais correta possível, com a toalha no lugar e o tempo organizado.

“Isso leva a uma excelência por completo, independente do ramo ou segmento”, afirmou.

Hoje, Guga diz que tenta aplicar o mesmo olhar em novas atividades. Citou o piano, que aprende com dificuldade ao lado da filha, e o surfe, onde criou metas para continuar melhorando até os 70 anos.

“Por melhor que seja a performance, sempre tem espaço para fazer melhor. E por muito ruim que a gente seja em qualquer coisa, também dá para evoluir”, disse.

Em carreira, essa talvez seja a lição mais direta. A boa decisão não é a que elimina o erro. É a que mantém a pessoa em movimento.

Para Guga, aprender também exige metas de curto e longo prazo. Sem isso, o treino perde direção.

O palco da Senior

O Senior Experience reuniu clientes, parceiros, executivos e convidados em São Paulo. A segunda edição do evento, realizada em 22 de maio, em São Paulo, teve mais de 2.000 pessoas, mais de 80 palestrantes e mais de 50 horas de conteúdo em palcos simultâneos, painéis e experiências interativas.

A programação tratou de gestão, liderança, inteligência artificial, reforma tributária, ESG, gestão de pessoas e tecnologia aplicada aos negócios.

Além de Guga, o evento teve nomes como Gabriela Prioli, Leandro Karnal, Donald Thomas, Walter Longo e lideranças de empresas como iFood, Magalu, MIT Technology Review, Havaianas e Gartner.

A Senior também usou o evento para apresentar produtos ligados à inteligência artificial. Entre eles está o Sara Studio, ferramenta para empresas criarem agentes de IA e automatizarem tarefas dentro de sistemas de gestão.

A empresa de Blumenau fechou 2025 com faturamento de R$ 1,17 bilhão, alta de 19,9% sobre o ano anterior. A companhia atende mais de 14.500 grupos empresariais, gerencia mais de 50.000 CNPJs e tem mais de 3.800 colaboradores no Brasil e no exterior.

Na visão de Guga, esse tipo de ambiente também se conecta com o esporte quando reúne pessoas em torno de uma meta comum.

“É um privilégio estar junto nessa jornada, entender que em Santa Catarina temos empresas fantásticas, com vontade de fazer algo extraordinário. Se tiver chance de ser número 1 do mundo, bora construir, fazer, se reunir e buscar esses desafios”, afirmou.

No tênis, a decisão aparece em um ponto. No trabalho, em uma contratação, em uma reunião, em uma mudança de rota ou em uma conversa difícil. Para Guga, o ponto de partida é parecido: preparar antes, ler o cenário, aceitar o erro e seguir aprendendo.

O evento também mostrou a ligação entre tecnologia e liderança. A Senior levou ao palco discussões sobre IA, gestão de pessoas, produtividade e sistemas usados por empresas para cuidar de áreas como finanças, logística, folha de pagamento e impostos.

Na prática, a palestra de Guga funcionou como um contraponto humano ao tema da IA: mesmo com mais dados e automação, líderes continuam tendo de decidir sob pressão.

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