Guia Michelin: como os restaurantes ganham estrelas

Por Júlia Storch 14 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Guia Michelin: como os restaurantes ganham estrelas

Na noite desta segunda-feira, 13 de abril, o hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, foi palco de um dos momentos mais marcantes da gastronomia brasileira. Durante a cerimônia de lançamento da nona edição do Guia Michelin no Brasil, os restaurantes Evvai, do chef Luiz Filipe Souza, e Tuju, de Ivan Ralston, tornaram-se os primeiros da América Latina a conquistar três estrelas Michelin — a distinção máxima da publicação, concedida a estabelecimentos que alcançam o mais alto nível de excelência.

O que é uma estrela Michelin?

Criado na França no início do século XX, o Guia Michelin se consolidou como uma das mais respeitadas referências da gastronomia mundial. As estrelas são concedidas a restaurantes com cozinha excepcional — e apenas isso. Decoração, nível de formalidade e estilo de serviço não influenciam a avaliação. A estrela é pelo que está no prato. Em todo o mundo, não mais de 160 restaurantes integram o seleto grupo das três estrelas a cada ano, ao lado de lendas como Paul Bocuse, Michel Guérard e Alain Ducasse.

O que os inspetores levam em consideração para premiar um restaurante?

Os avaliadores são inspetores anônimos, contratados em tempo integral, com formação em gastronomia e hospitalidade. Eles visitam os restaurantes quantas vezes forem necessárias — no almoço e no jantar, em dias de semana e fim de semana, ao longo de diferentes estações do ano. Depois, discutem as experiências em equipe para tomar a decisão final.

Os critérios são cinco: qualidade dos ingredientes, harmonia dos sabores, domínio das técnicas culinárias, a personalidade do chef expressa nos pratos e, acima de tudo, consistência. Não basta ter uma noite extraordinária. O restaurante precisa entregar a mesma experiência sempre — e qualquer estabelecimento pode ser avaliado, de uma barraca de rua em Bangkok a um palácio em Paris.

Chef Luiz Filipe Souza: comandante do Evvai, em São Paulo, desenvolveu menu do restaurante no Hotel Cataratas (Tadeu Brunelli/Divulgação)

O que um restaurante precisa ter para conquistar três estrelas Michelin?

Uma estrela reconhece ingredientes de alta qualidade e pratos com sabor distinto, preparados com consistência. Duas estrelas indicam que a personalidade e o talento da equipe aparecem nos pratos — uma cozinha refinada e inspirada. Três estrelas representam o topo: os chefs chegam ao ápice da profissão, a cozinha se torna arte e alguns pratos são destinados a entrar para a história da gastronomia.

Quais restaurantes têm três estrelas no Brasil?

Pela primeira vez na história, dois restaurantes brasileiros alcançaram esse patamar simultaneamente. O Evvai, de São Paulo, desenvolve há quase uma década o conceito Oriundi, que parte da imigração italiana no Brasil para articular técnica clássica europeia com ingredientes brasileiros. A jornada até o topo passou pela primeira estrela em 2018, pela participação do chef Luiz Filipe Souza na final do Bocuse d'Or em 2019 e pela segunda estrela em 2024. O restaurante figura hoje na 95ª posição do The World's 50 Best Restaurants e entre os dez melhores do mundo na La Liste.

Já o Tuju, também paulistano, é o único restaurante brasileiro com instituto de pesquisa interno. Seu menu é organizado pela temporada das chuvas — Umidade, Chuva, Ventania e Seca —, respeitando o tempo de cada ingrediente e de cada produtor parceiro. O restaurante ocupa a 8ª posição do Latin America's 50 Best Restaurants 2025. "Esse prêmio mostra que o Brasil pode e deve chegar onde quiser", disse Katherina Cordás, sócia e diretora do Centro de Pesquisa e Criatividade Tuju.

Quais restaurantes têm duas estrelas no Brasil?

D.O.M., de Alex Atala — único a ostentar duas estrelas desde a primeira edição do guia no país, em 2015 —, Lasai, de Rafa Costa e Silva, e Oro, de Felipe Bronze, mantiveram suas duas estrelas nesta edição. Nenhum restaurante do Rio de Janeiro ou de São Paulo perdeu estrelas em 2026, sinal de consistência e evolução contínua da gastronomia nacional.

Por que existem restaurantes sem estrelas, mas dentro do Guia Michelin?

As estrelas são a distinção mais conhecida do guia, mas não são o único reconhecimento possível. O Bib Gourmand, criado em 1997, valoriza restaurantes com excelente relação custo-benefício — ótima cozinha a preços acessíveis.

Já a Estrela Verde distingue estabelecimentos com práticas sustentáveis exemplares. E há ainda os restaurantes simplesmente recomendados pelo guia: casas que os inspetores consideram dignas de atenção, mesmo sem terem atingido o nível das estrelas.

Nesta edição, o Ping Yang, do chef Maurício Santi, estreou no guia com o Bib Gourmand. O Koral, de Ipanema, também conquistou o selo — sendo o único representante carioca a recebê-lo em 2026 —, além de ter o chef Pedro Coronha premiado como Jovem Chef do Ano. Com apenas dois anos de trajetória, o restaurante reafirma seu lugar entre os endereços mais relevantes da nova gastronomia carioca.

Tuju, Corrutela e A Casa do Porco mantiveram suas Estrelas Verdes. Entre os recomendados, figuram o taiwanês Aiô, o mexicano Metzi e as casas especializadas em frutos do mar Amadeus e Cais.

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