Há cem anos na Mooca, Lorenzetti encontrou no inverno seu melhor vendedor
A Lorenzetti, marca presente em milhões de banheiros brasileiros, fechou 2025 com um dos melhores desempenhos de sua história recente — puxado por um fator simples: o frio.
O inverno mais longo e rigoroso do ano funcionou como a principal alavanca de crescimento da companhia. Sensível à temperatura, a empresa viu a demanda por seu principal produto, o chuveiro elétrico, disparar em todo o país.
A receita líquida atingiu R$ 2,1 bilhões, alta de 22% em relação a 2024. O lucro líquido somou R$ 488,7 milhões, avanço de 32% no período. Já o Ebitda chegou a R$ 725,2 milhões, com margem de 35%.
Mesmo em um cenário macroeconômico desafiador para bens de consumo, a empresa classifica os resultados como “excepcionais”.
O desempenho não veio apenas do aumento de vendas. O frio também reduziu a necessidade de investimento em marketing. “A temperatura baixa é a campanha mais eficiente”, afirma Eduardo Coli, CEO da Lorenzetti. Na prática, isso ampliou margens e ajudou a sustentar preços.
Chuveiro elétrico: o carro-chefe da marca
Se há um símbolo da Lorenzetti, ele está no banheiro. O chuveiro elétrico, invenção brasileira e aperfeiçoada pela companhia desde os anos 1950, se tornou o principal motor de crescimento. Mas o efeito vai além da categoria. Quando a venda de chuveiros cresce, há um “efeito de arraste” sobre outras linhas, como metais e louças sanitárias, elevando a rentabilidade do negócio como um todo. Esse movimento ficou evidente em 2025.
Eduardo Coli também explica que a Lorenzetti adota, há muitos anos, uma filosofia de pulverização das vendas. A estratégia é sustentada por uma estrutura comercial própria de cerca de 800 profissionais, entre vendedores, supervisores e promotores, permitindo que a empresa evite a dependência de grandes canais como home centers ou grandes varejos
Segundo o CEO, essa proximidade com o pequeno lojista ajuda a marca a chegar mais perto do consumidor final, contribuindo para o seu alto índice de reconhecimento.
De fábrica de parafusos à líder de mercado
A trajetória da Lorenzetti passa por mais de um século de transformação. Fundada há 103 anos, a empresa começou como uma fábrica de parafusos e chegou a atuar em áreas como motores elétricos e equipamentos de alta tensão — incluindo projetos para usinas como Itaipu e Tucuruí.
O ponto de virada veio nos anos 1990. Após entrar em concordata entre 1991 e 1993, a empresa abandonou o segmento de alta tensão e passou a focar bens de consumo. A decisão redesenhou o negócio e pavimentou a liderança atual em produtos para construção e aquecimento de água.
Enquanto parte da indústria migrou para outras regiões do país, a Lorenzetti seguiu na contramão. A empresa manteve sua base na Mooca, em São Paulo, onde estão quatro de suas cinco fábricas. A escolha se consolidou como vantagem competitiva ao longo do tempo.
"Nosso prédio, apesar de muito moderno, tem mais de 100 anos. Todo mundo foi saindo daqui, indo para a Faria Lima, Berrini, para a Grande São Paulo... Enquanto isso, fomos comprando mais espaços e ficando aqui", afirma Coli. "Somos os 'velhos italianos' da Mooca", brinca.
O bairro garante acesso a mão de obra qualificada e infraestrutura logística, além de concentrar operações altamente automatizadas — com uso de tecnologias como injeção avançada de plástico e sistemas de inteligência artificial. Hoje, a Lorenzetti possui cerca de 4,5 mil funcionários. "A estratégia foi aproveitar a mão de obra farta da região e a facilidade de acesso por transporte público, o que garante um baixo índice de rotatividade", afirma.
Modelo de negócio da Lorenzetti
Além dos resultados operacionais, 2025 também foi marcado por uma remuneração expressiva aos acionistas. A empresa destinou R$ 562,5 milhões em dividendos e Juros sobre Capital Próprio (JCP).
O avanço operacional também se refletiu no retorno por papel. O lucro por ação subiu de R$ 19,64 em 2024 para R$ 25,90 em 2025.
Mesmo com o alto volume de distribuição e investimentos, a companhia encerrou o ano com caixa de R$ 302,8 milhões. A estrutura de capital segue conservadora: a relação dívida líquida/EBITDA foi de 0,08 vez, indicando baixíssima alavancagem.
A empresa utiliza debêntures e linhas do BNDES para financiar operações e aquisição de materiais. Parte desses recursos pode, inclusive, reforçar o caixa para sustentar a política de distribuição de resultados.
Embora não seja listada em bolsa, a Lorenzetti é uma sociedade anônima, mas de capital fechado. Isso significa que possui acionistas e segue as regras da Lei das S.A. (Lei 6.404/76), além de seu próprio estatuto.
Pelo estatuto, a companhia deve distribuir ao menos 25% do lucro líquido ajustado após a reserva legal de 5%. Em 2025, porém, a distribuição foi além do mínimo obrigatório. A chamada remuneração excedente somou R$ 374,4 milhões, aprovada em assembleia.
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