IA fracassa como trader em teste de longo prazo, diz estudo
A promessa de que modelos de inteligência artificial (IA) poderiam ler notícias, balanços e gráficos para bater o mercado financeiro vem ganhando força nos últimos anos.
Um novo estudo, porém, joga um balde de água fria nessa ideia: quando testados ao longo de duas décadas e em centenas de ações, os agentes de IA não apenas deixam de superar o mercado, como perdem para a estratégia mais simples que existe — comprar ações e simplesmente não vendê-las, o famoso buy and hold.
A conclusão é de uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Edimburgo, da Universidade de Oxford, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e da Universidade Sungkyunkwan, da Coreia do Sul.
O trabalho foi aceito para a KDD 2026, uma das principais conferências de mineração de dados do mundo.
O problema dos testes 'fáceis'
O ponto de partida dos pesquisadores foi uma desconfiança metodológica.
A maioria dos estudos que apontam IA vencendo o mercado, segundo eles, avalia os modelos em períodos curtos — às vezes menos de um ano — e em punhados de ações famosas, como Tesla, Amazon e Microsoft. O problema é que esse recorte é enganoso.
Escolher apenas ações conhecidas embute o que o estudo chama de viés de sobrevivência: essas empresas se tornaram famosas justamente porque já deram certo, o que distorce o resultado a favor de quem as escolheu olhando para o retrospecto. É como avaliar um técnico de futebol só pelos jogos que ele venceu.
O teste justo: 20 anos e centenas de ações
Para corrigir isso, os pesquisadores criaram um sistema de avaliação batizado de FINSABER, que testou as estratégias de IA em dados reais de 2000 a 2024 — incluindo, de propósito, ações que faliram ou saíram da bolsa, para não maquiar os resultados.
Em vez de poucos papéis selecionados a dedo, a avaliação cobriu mais de cem ações diferentes, sorteadas e renovadas a cada período.
Sob essas condições, a vantagem da IA evaporou.
A estratégia de "comprar e segurar" (buy and hold) — em que o investidor simplesmente compra ações de boas empresas e as mantém por anos, sem ficar negociando — apareceu consistentemente entre as melhores, superando os agentes de IA na maioria dos casos. Modelos estatísticos tradicionais e bem mais simples, como o ARIMA, também bateram a IA com folga em indicadores de retorno ajustado ao risco.
Conservadora na alta, imprudente na baixa
O estudo foi além de medir resultados e investigou o comportamento dos agentes de IA.
Segundo o estudo, os modelos erram a mão nos dois sentidos. Em mercados de alta, quando arriscam, são recompensados; eles se mostram excessivamente conservadores e perdem boa parte dos ganhos.
Em mercados de baixa, quando seria hora de proteger o capital, ficam agressivos demais e amargam perdas pesadas.
Em termos técnicos, nenhum dos agentes de IA testados gerou o chamado alfa — o retorno que excede o do mercado e que seria, em tese, a prova de habilidade real de um investidor. Um dos modelos, o FinMem, ainda apresentou um padrão de "operar demais", com um volume de negociações que corroía os ganhos em comissões e gerava prejuízo constante.
Mais complexidade não é mais competência
Talvez a lição mais contraintuitiva do estudo seja sobre tamanho. No processamento de linguagem, modelos maiores tendem a ser melhores — é a lógica que move a corrida da IA.
Nas finanças, segundo os pesquisadores, essa regra não se aplica, uma vez que modelos mais complexos não superaram de forma confiável os mais simples, e ambos perderam para ferramentas estatísticas básicas.
A explicação dos autores é que, sem uma lógica financeira embutida, a complexidade da IA adiciona ruído em vez de valor.
O verdadeiro obstáculo, concluem, não é a escala do modelo, mas a falta de raciocínio econômico adaptado ao mercado — a capacidade de detectar tendências e ajustar o risco conforme as condições mudam.
Os pesquisadores ressaltam que isso não significa que a IA jamais servirá para investir. O estudo aponta caminhos para melhorar os agentes, como dotá-los de controles de risco que reajam à volatilidade.
Mas, por ora, o recado é claro: a inteligência artificial ainda não encontrou um atalho para vencer a bolsa.
Esta reportagem tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.
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