IA pode aumentar solidão no trabalho, alerta CHRO da Alice no RH Summit
A inteligência artificial já faz parte da rotina das empresas. Automatiza tarefas, acelera pesquisas, organiza dados e reduz tempo de execução. Mas, para Sarita Vollnhofer, CHRO da Alice, a transformação traz outro efeito que começa a ganhar espaço dentro dos RHs: o aumento da ansiedade e da solidão no ambiente de trabalho.
A discussão apareceu no RH Summit 2026, realizado nos dias 5 e 6 de maio no Expo Center Norte, em São Paulo. O evento reuniu cerca de 6.000 participantes presenciais e colocou inteligência artificial, saúde mental e NR-1 entre os principais temas da agenda de RH neste ano.
Sarita participou de um painel sobre os impactos da IA no bem-estar dos funcionários. Segundo ela, a tecnologia não pode mais ser tratada como um projeto isolado de inovação.
“As empresas precisam tratar inteligência artificial como uma transformação organizacional e cultural”, afirma. “É um novo jeito de trabalhar, um novo jeito de viver e de pensar.”
Na avaliação dela, o principal desafio das empresas agora não é apenas implementar tecnologia, mas preservar conexão humana dentro desse novo ambiente.
“Como eu vou garantir que as pessoas não vão perder a conexão com o próprio trabalho? Como elas vão continuar se sentindo parte de uma equipe?”, diz.
Segundo Sarita, a preocupação cresce porque o avanço da IA já começa a alterar rotina, relações e percepção de pertencimento dentro das empresas.
Mais eficiência, mas também mais pressão
Durante o painel no RH Summit, Sarita citou um estudo da Universidade de Berkeley que aponta um efeito contraditório da inteligência artificial sobre o trabalho.
“Por um lado, as pessoas ganham eficiência”, afirma. “Mas parece que a carga de trabalho também aumenta.”
Segundo ela, isso acontece porque a interação com ferramentas de IA cria novas tarefas, novas demandas e novas expectativas de produtividade.
Além da automação, profissionais passam a precisar aprender ferramentas, rever processos e adaptar funções constantemente.
“A pessoa pensa: preciso aprender essa tecnologia, preciso repensar meu trabalho.”
Ela afirma que esse processo gera ansiedade em muitas equipes.
“Agora a inteligência artificial vai fazer o meu trabalho. O que vai ser de mim?”
Na visão da executiva, a discussão já deixou de ser apenas sobre aprender ferramentas.
“Às vezes não é só aplicar uma ferramenta, mas redesenhar o jeito que você trabalha.”
Isso inclui processos de reskilling e upskilling, termos usados para atualização e aquisição de novas competências profissionais.
Segundo Sarita, empresas precisam reconhecer que a transformação tecnológica também gera desconforto emocional.
“Ninguém gosta de mudar. Mudança gera desconforto.”
A solidão virou um problema de saúde corporativa
Outro ponto levantado por Sarita no RH Summit foi o impacto da hiperconexão na saúde social dos funcionários.
Segundo ela, o aumento da interação com ferramentas de IA reduz parte das trocas humanas do dia a dia.
“As pessoas estão mais conectadas às tecnologias e tendo menos conexões verdadeiras e genuínas entre si.”
Ela cita o uso constante de ferramentas como Claude, plataforma de inteligência artificial da Anthropic, como exemplo dessa mudança de comportamento.
“A pessoa fica mais interagindo com ferramentas e menos com colegas e lideranças.”
Na avaliação dela, isso amplia o risco de isolamento.
“Isso pode gerar solidão.”
Durante a entrevista, Sarita mencionou um relatório recente da Organização Mundial da Saúde que compara os efeitos da solidão sobre a saúde ao consumo diário de 15 cigarros.
“A solidão e a falta de saúde social são uma ameaça muito grande.”
Segundo ela, esse não é um problema que o funcionário resolve sozinho.
“A organização, a liderança e o RH têm um papel muito forte.”
Ela afirma que empresas precisarão redesenhar dinâmicas de trabalho para preservar convivência, pertencimento e interação humana.
“É preciso pensar de forma intencional como vai ser essa nova dinâmica de trabalho.”
Como a Alice tenta acelerar adoção de IA sem aumentar medo
A Alice criou uma trilha interna chamada “AcelerAI” para ampliar o uso de inteligência artificial dentro da empresa.
Segundo Sarita, a meta é tornar 100% das áreas de negócio fluentes em IA até agosto.
A empresa estruturou cursos, treinamentos e projetos práticos para acelerar a adoção das ferramentas.
“A mensagem é clara: você precisa ser proficiente em inteligência artificial.”
Ao mesmo tempo, afirma, a companhia tenta reduzir a sensação de ameaça entre funcionários.
“Existe uma exigência, mas a empresa também oferece recursos para ajudar nessa transformação.”
Além dos treinamentos formais, a Alice passou a reservar parte das reuniões semanais para apresentação de casos de uso de IA entre os próprios funcionários.
“Toda semana a gente reserva 10 ou 15 minutos para alguém apresentar um case.”
Segundo Sarita, a ideia é fazer com que o aprendizado aconteça de forma coletiva.
“Precisamos chegar lá em conjunto.”
A empresa também identificou funcionários considerados “champions”, profissionais que passaram a liderar espontaneamente a adoção das ferramentas.
Curiosamente, afirma ela, os primeiros multiplicadores nem sempre vieram da área de tecnologia.
“Na Alice, uma das primeiras pessoas foi um médico.”
Segundo Sarita, o profissional passou a organizar hackathons, compartilhar conhecimento e estimular colegas a testar novas aplicações.
NR-1 chega em meio à transformação da IA
A nova NR-1 foi um dos temas mais discutidos do RH Summit neste ano. A norma amplia a responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais e saúde mental no ambiente de trabalho.
Para Sarita, a atualização chegou num momento importante.
“É justamente o momento em que vamos precisar ter muito cuidado com o impacto das tecnologias na saúde mental.”
Segundo ela, muitas empresas ainda tratam a NR-1 como obrigação burocrática.
“Muitas empresas enxergam isso como um checklist.”
Na avaliação da executiva, esse é um dos principais erros das áreas de RH.
“Existe uma perda enorme de oportunidade de colocar saúde como assunto estratégico.”
Ela afirma que a norma pode ajudar empresas a identificar problemas concretos ligados a sobrecarga, gestão, comunicação e clima organizacional.
“A NR-1 mapeia gestão de pessoas, comunicação, transparência e sobrecarga.”
Segundo Sarita, a principal mudança está no uso de dados mais detalhados para entender onde estão os problemas reais das empresas.
“Dados não mentem.”
Ela defende diagnósticos mais segmentados, analisando senioridade, áreas, lideranças e localização física das equipes.
“O problema pode estar numa área específica, num escritório específico ou numa liderança específica.”
Na avaliação dela, isso evita ações genéricas que produzem pouco efeito.
“O grande risco é fazer ações muito gerais e não mudar grande coisa.”
Saúde virou tema de negócio dentro das empresas
A Alice projeta alcançar 100.000 membros e faturamento de R$ 1 bilhão. Segundo Sarita, parte desse crescimento vem da mudança na forma como empresas passaram a olhar saúde corporativa.
“Cada vez mais empresas estão buscando alternativas.”
Ela afirma que os RHs começaram a tratar saúde como tema ligado diretamente à operação e à sustentabilidade das equipes.
“Não existe performance sustentável sem saúde dos colaboradores.”
Segundo Sarita, o aumento de pressão por eficiência e transformação tecnológica ajudou a acelerar essa discussão.
“As empresas estão percebendo os impactos da IA, da pressão por eficiência e da operação na saúde das pessoas.”
A Alice trabalha com acompanhamento individualizado dos usuários do plano de saúde, incluindo classificação de risco e gestão preventiva de cuidados.
“Nós olhamos membro por membro.”
Segundo ela, a ideia é reduzir burocracia e antecipar problemas de saúde antes que eles se agravem.
A empresa também tenta atuar junto aos RHs na leitura de dados populacionais sobre saúde física e mental.
“A gente ajuda a analisar os dados da população da empresa.”
Na avaliação dela, o papel do RH mudou nos últimos anos.
“Saúde deixou de ser benefício passivo.”
Agora, afirma, o tema passou a fazer parte das decisões de gestão, produtividade e desenvolvimento profissional dentro das empresas.
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