Ibovespa tomba 2,14% e tem pior queda diária em quase dois meses
Depois de renovar máximas históricas na véspera, o Ibovespa devolveu parte dos ganhos e fechou em forte queda nesta quarta-feira, 4, em um movimento típico de correção após o rali recente. O principal índice da B3 caiu 2,14%, aos 181.708 pontos, afastando-se da máxima intradiária de 185.670 pontos e encerrando o pregão próximo da mínima do dia, de 180.268 pontos.
O movimento colocou o Ibovespa com a maior baixa desde 16 de dezembro de 2025, quando encerrou as negociações com queda de 2,42% aos 158.557 pontos. A pressão foi amplamente disseminada pelo mercado. Dos 84 papéis que compõem o índice, 73 fecharam em baixa, refletindo a realização de lucros por parte dos investidores.
O movimento foi intensificado pela pressão sobre ações de bancos, além de ruídos no cenário doméstico e do desempenho negativo das bolsas de Nova York, que também pesaram sobre o humor dos mercados ao longo do dia.
Realização de lucros após recordes
O principal motor da queda foi a chamada realização de lucros — movimento em que investidores vendem ações após uma sequência de altas para embolsar os ganhos acumulados. Como o Ibovespa havia renovado recordes intradiários e de fechamento na sessão anterior e ao longo de janeiro, parte do mercado aproveitou os preços elevados para ajustar posições.
"O que a gente viu foi Petrobras caindo, Itaú caindo mais de 2%. É um movimento de correção", afirmou Alison Correia, analista de investimentos e cofundador da Dom Investimentos. Na mesma linha, Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos, avaliou que o movimento é técnico. "A bolsa deu uma esticada significativa nas últimas semanas. Hoje é um dia de realização de lucros", disse.
Segundo Teles, apesar do forte recuo hoje, não há sinais de grandes reposicionamentos estruturais. "É mais saída de quem comprou a bolsa em patamares mais baixos e está realizando agora. Nada sistêmico", afirmou.
Bancos puxam o índice para baixo
As ações dos grandes bancos, que haviam sustentado boa parte da alta recente do Ibovespa, exerceram forte pressão sobre o índice, dado o peso do setor em sua composição.
As units do BTG Pactual (BPAC11) lideraram as perdas do setor ao caírem 4,93%, enquanto as ações preferenciais do Itaú (ITUB4) recuavam 3,29%, em dia de expectativa pelo balanço do banco, divulgado após o fechamento do mercado.
De acordo com João Abdouni, analista da Levante Inside Corp, o movimento foi intensificado pela reação negativa ao resultado do Santander Brasil. "O balanço trouxe preocupações com aumento do risco de crédito e das provisões, o que pesou sobre as ações dos bancos e acabou se espalhando para outros setores", afirmou.
Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, os números do Santander funcionaram como gatilho para destravar uma correção mais ampla no setor financeiro, sinalizando certa exaustão da forte alta recente do mercado acionário brasileiro.
Ruídos sobre o Banco Central aumentam cautela
Outro fator que pesa sobre o mercado foi o aumento das incertezas em torno do Banco Central. Investidores reagem com cautela às especulações de que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, teria indicado dois nomes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para preencher vagas abertas na diretoria da autoridade monetária.
Entre os nomes sugeridos estão Guilherme Mello, atual secretário de Política Econômica, e Tiago Cavalcanti. No mercado, a avaliação é de que a entrada de quadros próximos ao governo pode levantar dúvidas sobre a independência do BC e reforçar uma postura considerada mais dovish, isto é, favorável a juros mais baixos.
Esse ruído ocorre em um momento sensível, com a Selic mantida em 15% ao ano pelo Copom, o que aumenta a sensibilidade dos investidores a qualquer sinal de interferência na condução da política monetária.
Bolsas de Nova York e aversão ao risco
O ambiente externo também não ajuda. As bolsas de Nova York operaram sem direção única, mas com viés negativo com o setor de tecnologia. No fechamento, o Dow Jones subiu 0,53%, enquanto o S&P 500 recuou 0,51% e o Nasdaq caiu 1,51%.
Segundo Bruno Perri, o mercado americano passa por uma correção associada ao aumento da aversão ao risco e à rotação de portfólios em desfavor das empresas de tecnologia, pressionando principalmente o Nasdaq.
Parte do pessimismo está ligada à expectativa pelo balanço da Alphabet nesta quarta, após o fechamento, e aos receios com o avanço da concorrência chinesa no setor de inteligência artificial.
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