IPO de empresa brasileira este ano é só no exterior, diz CEO do Bradesco

Por Clara Assunção 7 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
IPO de empresa brasileira este ano é só no exterior, diz CEO do Bradesco

Apesar da leitura mais otimista de parte do mercado sobre a reabertura da janela do processo de abertura de capital de uma empresa na Bolsa de Valores do Brasil, o CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, vê 2026 como um ano com espaço limitado para IPOs domésticos.

Segundo ele, o ambiente mais favorável tende a ser o de follow-ons no mercado local, ou seja, empresa com capital aberto na B3 vendendo mais ações no mercado para arrecadar capital por aqui, enquanto as aberturas de capital de empresas brasileiras devem acontecer, principalmente, fora do país — especialmente nos Estados Unidos.

As declarações foram feitas na manhã desta sexta-feira, 6, durante coletiva de imprensa para comentar os resultados do banco no quarto trimestre de 2025.

"O que a nossa equipe tem visto é que tem espaço para fazer IPO de empresas brasileiras fora do Brasil, nos Estados Unidos. Aqui hoje a gente acha que o espaço é pequeno", afirmou.

Noronha ponderou que, no Brasil, a variável-chave continua sendo o preço dos ativos. "Tudo depende de preço. A nossa equipe vê espaço para fazer follow-on. Quem já tem capital aberto, fazer outra emissão também, dependendo de preço", disse.

Para ele, o cenário pode melhorar ao longo do ano, sobretudo se houver redução de volatilidade e avanço na expectativa de queda dos juros. "Talvez, para o final do ano, dependendo da volatilidade, da expectativa de taxa de juros, você pode ter uma expectativa boa em mercado de capitais, olhando para 2027", complementou.

A avaliação sobre a janela de oportunidades no mercado de capitais doméstico, porém, contrasta com a visão de outros executivos do setor.

Nesta semana, também em conferência com jornalistas, o CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, disse acreditar que a seca de IPOs no Brasil pode chegar ao fim ainda este ano, em meio à expectativa de início do ciclo de cortes da Selic — o Itaú projeta uma redução de 0,5 ponto percentual já em março —, embora 2026 seja marcado pelo calendário eleitoral.

Fluxo estrangeiros e eleições

Questionado sobre o forte fluxo de capital estrangeiro no início do ano, que superou o volume de todo o ano anterior, em mais de R$ 25 bilhões, Noronha disse que o movimento reforça o interesse externo pelos ativos brasileiros, mas não altera substancialmente sua leitura sobre IPOs no mercado local.

"Todo mundo está com expectativa boa. Para comprar o Brasil, os estrangeiros estão olhando para os cases aqui, estão vendo que tem preço, tem consistência para fazer entrega", afirmou.

Segundo ele, o interesse não se restringe ao setor bancário, mas se estende a outros segmentos da economia. Ainda assim, o executivo ressaltou que o ambiente para o mercado de capitais dependerá fortemente do cenário macroeconômico no segundo semestre.

"A depender do que aconteça no macro, você pode ter mais no fim do ano um ambiente positivo, olhando para frente uma perspectiva já de 2027", disse.

Noronha voltou a destacar que o principal desafio estrutural do país segue sendo a questão fiscal. Para ele, uma sinalização clara de estabilização da dívida pública pode mudar de forma significativa a percepção de risco.

"Se a gente tiver uma perspectiva de equilíbrio da dívida pública em 2027, 2028 — equilíbrio, não é nem redução — você muda completamente o cenário", afirmou, citando a importância de inflação controlada e de um ambiente de juros mais baixos.

No cenário-base do banco, a expectativa é de crescimento do PIB em torno de 1,5% em 2026, desaceleração do IPCA e Selic podendo chegar a 12% ao final do ano. "Eu estou vendo o Brasil se movimentar, com desemprego controlado. A gente está otimista, mesmo sabendo que tem esse desafio estrutural, que não é conjuntural", disse.

IA no radar mesmo com temor de bolha

O CEO do Bradesco também comentou o potencial impacto da inteligência artificial no setor financeiro, tema que ganhou ainda mais atenção após a recente volatilidade das ações de tecnologia e quedas nas bolsas de Nova York.

Na avaliação do executivo, os bancos tendem a estar entre os principais beneficiados pelo avanço da IA, tanto em eficiência operacional quanto na experiência do cliente. "Eu também tenho essa expectativa de que os bancos serão os grandes beneficiado", afirmou.

Noronha disse que o Bradesco já tem iniciativas em curso e destacou ganhos em áreas como personalização de produtos, atendimento digital e automação de processos internos. "Para a gente aqui é AI first. Eu vejo saltos enormes aqui para a gente no tempo. Já estamos vendo isso na prática, mas para adiante, ainda mais", finalizou.

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