Jeans com cana-de-açúcar? Como a Riachuelo substituiu o elastano de petróleo no varejo
Em um setor em que quase 90% das emissões estão ligadas aos materiais e tecidos, a Riachuelo entendeu que a grande inovação da indústria têxtil está na fibra.
E foi exatamente aí que a gigante varejista foi buscar sua mais recente aposta: o primeiro jeans brasileiro com elastano feito de cana-de-açúcar, substituindo o petróleo por biomassa renovável.
"O futuro da moda começa na fibra", destaca Taciana Abreu, diretora de sustentabilidade da Riachuelo, em entrevista à EXAME. A ideia resume uma virada de chave na forma como a companhia do Brasil pensa a sustentabilidade: quanto de água, energia e carbono um tecido vai consumir antes mesmo de virar roupa e onde é possível escalar com impacto positivo?
A nova coleção se chama "POOL LOOP" e chega ao mercado em cinco modelos: duas calças femininas, duas masculinas e uma jaqueta, somando mais de 10 mil peças em 97 lojas e no e-commerce da marca a partir de 30 de março.
As fibras têxteis se dividem em três grandes grupos: as naturais, como algodão e linho; as celulósicas, como a viscose, extraídas da madeira; e as sintéticas, como poliéster e elastano, derivadas do combustível fóssil poluente.
O grande nó da questão é que o brasileiro não abre mão do jeans com elastano: leve, confortável e com caimento ajustado ao corpo.
"Entendemos que não era preciso lutar contra o comportamento do consumidor e sim encontrar um menos impactante", afirma Taciana. Com a missão de democratizar a moda, a Riachuello decidiu resolver essa equação.
Em parceria com a CREORA, referência global na produção de elastano, a empresa chegou a uma fibra composta por até 98% de biomassa proveniente da cana-de-açúcar.
O resultado é uma redução de até 55% nas emissões de carbono e 50% no consumo de água em relação ao material convencional, já na produção da fibra.
Outra inovação é que o jeans incorpora viscose com 20% de resíduos de algodão reciclado e acaba de se tornar o primeiro com perfil circular disponível no mercado brasileiro.
O tecido final, produzido pela Canatiba Textil, combina algodão (86%), viscose (13%) e elastano (1%). Além disso, a parceira opera com caldeira movida a energia renovável e reaproveita 40% da água no processo produtivo, reduzindo ainda mais a pegada de carbono da operação.
Visando incentivar o consumo consciente, cada peça conta com rastreabilidade completa via QR code e permite que o consumidor acompanhe toda a cadeia produtiva da fibra à loja.
O Brasil exporta algodão e importa o fio
Por trás do lançamento há um potencial ainda inexplorado da indústria têxtil nacional: o Brasil é o 3º país do mundo na produção de algodão, mas exporta para a China e importa o fio de volta.
A realidade expõe um gargalo estrutural: o país produz a matéria-prima, mas não transforma no território. A cadeia de beneficiamento (fiação, tecelagem, acabamento) foi sendo terceirizada para a Ásia ao longo de décadas, esvaziando a produção nacional.
Segundo Taciana, essa dependência tem custo ambiental e econômico e é justamente aí que a escala de uma varejista pode ser uma alavanca.
"A escala pode gerar mais impacto positivo ou negativo. Estamos aprendendo a usá-la a nosso favor", diz.
No horizonte, há outras apostas em curso. O cânhamo, planta da família da cannabis com alto potencial industrial e baixíssimo teor de THC, é apontado pela diretora como uma das próximas fronteiras promissoras para a moda brasileira.
A regulação ainda tramita no país e ela acredita que em ano de eleições, "não devem tocar nesse assunto."
Mas a expectativa do setor é que a aprovação venha em breve, abrindo caminho para uma fibra que já é utilizada em outros países e se adapta bem ao clima brasileiro, além de ser uma alternativa sustentável.
Moda mais acessível e sustentável
O novo lançamento ganha força dentro do propósito da marca de ser acessível: o jeans chega ao consumidor por R$ 179, em um segmento em que fibras mais sustentáveis costumam encarecer significativamente o produto final.
"Da fibra ao varejo para chegar num preço democrático", sintetiza Taciana para descrever o esforço conjunto de toda a cadeia para absorver o custo da inovação sem repassá-lo integralmente ao consumidor.
O projeto faz parte de uma estratégia mais ampla iniciada em 2025, quando a Riachuelo lançou sua maior coleção circular com 25% de algodão reciclado. O novo jeans é um passo adiante — e, segundo a executiva, está longe de ser o último. "Vamos continuar rompendo os desafios juntos, trazendo parceiros para perto e aprendendo enquanto negócio", garante.
O recado é para engajar todo o setor tanto quanto o consumidor. Afinal, a moda é o segundo setor mais poluente do mundo e a transição para uma indústria menos dependente do petróleo e de baixo carbono está em uma jornada longe de terminar.
"O algodão é um tesouro nacional. Se somos top 3 no mundo, devíamos transformar tudo aqui e não exportar para a China e importar o fio", afirma Taciana.
O jeans de cana-de-açúcar é um passo, a grande agenda do setor é como fortalecer a transformação nacional. "É o movimento constante de acreditar nas soluções e investir enquanto cadeia", conclui a executiva.
1/7 Renner: varejista divulga resultados após o fechamento do mercado (RENNER)
2/7 Riachuelo: Direitos Humanos e Condições de Trabalho (Riachuelo)
3/7 C&A: Diversidade e Igualdade e Resíduos e Efluentes (size_960_16_9_cea-divulgacao-jpg.jpg)
4/7 GAP: Direitos Humanos e Condições de Trabalho (Shoppers line up for an elevator outside a GAP at the King of Prussia Mall, United States' largest retail shopping space, in King of Prussia)
5/7 H&M: lucro acima do previsto anima mercado, mas tarifas nos EUA preocupam (H&M)
6/7 PUMA: Direitos Humanos e Condições de Trabalho e Emissões e Mudanças Climáticas (Luciana Soares, diretora de Marketing da Puma)
7/7 ZARA: Recursos Hídricos (Zara, Pull&Bear, and Bershka Stores To Close In Venezuela As Inditex Brands Exit)
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